Vai de que?
Texto e foto de Valéria del Cueto
Estou preferindo desenhar. Ando com pouca disposição
para escrever. As linhas andam muito tortas e irregulares.
Meu refúgio, a Ponta do Leme. A areia ainda úmida do
sereno da madrugada, misturado com a bruma da maresia do amanhecer, acolhe o
flanar preguiçoso da canga sacudida para ser estendida na praia.
Sinto cheiro de mofo misturado com o ar da manhã.
Sinal de que faz tempo que os pavões misteriosos estampados no tecido não saem
do armário lá de casa. O cheiro me incomoda, mas é por pouco tempo, sabemos. O
necessário para o sol quarar meu quadrado, comigo dentro.
Há uns dois ou três dias venho pensando nessa
crônica. O que não é muito comum. Gosto simplesmente de abrir a torneira da
imaginação e deixar as ideias escorrerem pelo papel sem muita preparação para,
depois, só enxugar os excessos, secar uns poucos respingos. Normalmente são pontos,
vírgulas, exclamações e reticências. Foram as pausas da respiração, entre os
pensamentos que se atiravam abusados pela corrente sem muita ordem, como quem
não pede licença. Fazem cócegas quando são alegres e arranham se violentos, até
que sejam polidos e enfileirados nas linhas imaginárias do meu caderninho sem
pauta.
Quase sempre é assim, e como é bom! Acontece que,
umas trezentas aberturas na torneira da fonte da imaginação depois, a gente se
pergunta se o conteúdo despejado não está se tornando repetitivo. Pode ser
chato para o leitor ler sempre sobre a mesma ponta/pedra/praia. O mar
esmeralda, a bola colorida que rola para um lado e para o outro entre os pés
ágeis dos garotos que capricham no altinho,
aguardando a chegada dos novos parceiros para completar o time e darem
início a pelada clássica na linha d’água, e o surfista que, sentado com as
pernas cruzadas em posição de lótus, de frente para as ondas, seus objetos de
desejo, arruma concentrado a tira do strep, preparando o velcro para prende-la
no tornozelo, segundos antes de se entregar de corpo e alma ao mar que murmura
sua musica, qual Flautista de Hamerlim.
Como o atleta, que já corre em direção a água, sou
uma ratinha, atraída pelo feitiço musical, efeito mágico para meu coração cheio
de dúvidas. Por que faz dias que ando preocupada com o tema dessa crônica... Falar
de que? Tentei estabelecer parâmetros, e, por eles, eliminar algumas hipóteses.
Sem saber o que abordar, decidi definir o que
evitar. Isso depois que surgiu a questão da repetição. Prontamente esse
conceito foi substituído por outros. Substituído não, complementado. O bom
humor e a leveza seriam essenciais. O texto não falaria de..., nem de..., muito
menos abordaria..., ...,... ( não posso escrever as coisas a que me refiro sob
pena de deixar de lado meu objetivo excludente). A lista de possibilidades
plausíveis foi diminuindo, diminuindo... com o passar dos dias e o
acompanhamento do desenrolar dos acontecimentos.
Até que resolvi reconsiderar as opções. Para
encurtar, aboli o impedimento quanto a repetições, pelo menos no quesito Ponta
do Leme. Foi ele o mais concreto, superlativo e fundamental (não posso usar
essa palavra sem lembrar-me de Dante de Oliveira) mote para uma crônica quase
outonal. Para terminar em grande estilo só falta descrever o desenho feito
pelos rastros das pranchas que serpenteiam abusadas nas ondas lindas,
tentadoras, mas perigosas - por que hoje paredes inexpugnáveis, já que
quebrando sem piedade. Mesmo convidativas, são um sinal explícito de que a maré
não está para peixe, pelo menos para certas espécies.
*Valéria
del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte
da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM...
delcueto.wordpress.com

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