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segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Cego dos óio

Cego dos “óio”

Texto, foto e vídeo de Valéria del Cueto

Com secura de mar. Foi assim que chegou na praia. Saboreou cada detalhe do caminho antecipando alcançar a sensação irreal de normalidade de buscava.

Deu bom dia ao porteiro elogiando as orquídeas que floresciam abraçadas na árvore da rua em frente ao prédio.

Trocou uma ideia na portaria vizinha sobre as birutas sonoras amarelas instaladas depois de anos sem serem necessárias e colocadas, aliás, no momento em que a energia elétrica que aciona as geringonças está pela hora da morte.

Subiu a rua quase ladeira rumo ao Arpoador, Ipanema, cartão postal do Rio de Janeiro. O sol, que andara escasso em outubro, estalava no céu surgindo no rendado das folhas de amendoeiras frondosas que sombreiam a rua.

Quando cruzou a última pista e precisou prestar atenção ao espaço dos ciclistas, já ouvia o som do trompete do músico que bate ponto no primeiro banco na entrada do Garota de Ipanema. Enquanto contornava o parque ouvia os tristes acordes de Assum Preto, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, o cego dos “óio” que canta de dor.

Na passagem lateral que leva à praia as pitangueiras coladas ao muro grafitado estão carregadas de frutos amarelos. Os vermelhos, perpitolas, como dizem os cuiabanos, são colhidos por quem reconhece as árvores frutíferas, ainda mais nessa época de escassez.

A praia se descortina à frente. O sol, sem uma nuvem no céu, reina soberano e absoluto.

A blusa de manga comprida parece quente demais. Só parece. Quem “é da praia” sabe que ela é essencial na hora de voltar pra casa quando, com o corpo quente, tiver que percorrer o caminho sombreado e, talvez, enfrentar os corredores de vento nas ruas do bairro.

A areia da praia não está cheia (ainda) e o mar bate num som que, não pergunte como, indica a subida da maré. O truque é não ficar na beirada para poder escrever tranquilamente. Esquecer a linha de frente. Isso é o que garante não haver surpresas quando a maré subindo der o bote para recuperar seu espaço.

Antes da água surpreender a distraída com o caderninho, os banhistas instalados próximos à água darão o alerta. Para facilitar, usa como marcação o homem-camarão. Aquele que dorme distraído ao bronzeamento se preparando, inadvertidamente, para uma noite de sofrimento inesquecível.  

O mar baixou e tem uma linha animada de surfistas. Pelo horário e o estilo dominante não está nela a rapaziada local que prefere as ondas que fazem a fama do point em dias de ressaca.  

O Rio está cheio e o sotaque do grupo ao lado é de sulistas. Comentam sobre o visual das acomodações que ocupam na cidade.

Definida a ocupação é estender a canga na direção sul, tirar a máscara (sim, ainda necessária para quem não está afim de bater palmas pra maluco Bolsonaro ou Eduardo Paes dançar) e, finalmente, ser invadida pelo tão almejado cheiro da maresia.

Ao sacar o caderninho está decretado o fim de todos os incômodos. Até o do som da música porcaria do grupo que se confraterniza a alguns metros adiante. É hora de mergulhar nas sensações de um dia normal.

Tudo cronometrado. Quando as linhas definidas pelo editor do jornal para o espaço ideal da crônica estão se esgotando o homem-camarão pula, levantando seus pertences. Sua toalha é alcançada por uma onda atrevida!

Hora de levantar a cabeça, focar a vista em direção ao sol que desce cinematográfico em direção a ponta do Vidigal e fazer aquela foto cartão postal “cego dos óio” pela beleza para ilustrar a crônica.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Da série “Arpoador do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

 




@delcueto.studio na Colab55

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Vela no breu


Texto e foto de Valéria del Cueto

Para começar, previna-se. Sempre que chegar em algum lugar localize os apetrechos indispensáveis em casos de apagões elétricos. Velas, fósforos ou isqueiro. Também é de bom tom saber onde está - e deixar carregada, a bateria extra do celular se ela existir.

Essas recomendações não se baseiam em hipóteses científicas. São frutos de experiência empírica, ou seja, brotaram de fatos reais. Que o apagão viria e outros virão era sabido. Uns alertaram, outros negaram. Aqueles que, quando negam, a gente tem cer-te-za que vai acontecer. Então, sempre é bom relembrar alguns procedimentos básicos.

Na caída da noite, depois de ouvir o canto de uma cigarra perto do meio dia (sinal de tempo bom), veio um ronco do céu. Olhando para ele uma camada cinzenta encobria o entardecer. Nuvens carregadas se juntando a oeste corriam em direção ao vale. As chuvas começaram a cair já era noite. Os sons foram se transformando regidos pelos raios. Depois dos relâmpagos iluminarem o contorno das montanhas os trovões gemiam, roncavam ou retumbavam.

Foi em meio a essa sintonia celestial, um pouco depois da boca da noite, que a luz começou a piscação. 

Continuamos, agora, as lições. Tire os aparelhos da tomada mesmo que pareça desnecessário. É melhor prevenir que remediar. Nunca se sabe a intensidade do vai-e-vem e dos picos feéricos. Comece pelo wi-fi se estiver num local isolado. E pense na dificuldade de cobrar o prejuízo da operadora de energia.

A lanterna acoplada no celular poderá leva-lo até aquela vela e os fósforos do início da conversa. Um conselho: não abuse do recurso caso não tenha ou não esteja carregada a bateria extra anteriormente também citada.

Se precisar avisar alguém da situação, lembre-se de ser breve. Economize sua carga. Parta do princípio de que nunca se sabe o tempo decorrido entre o início e o fim do apagão. E se der, só se der, mande uma mensagem à empresa de energia para registrar o problema. Ajuda em caso de reclamação. E deu. Esqueça as redes sociais, os joguinhos...

Ah, se a fome chegar não esqueça de apelar para o fósforo/isqueiro já mencionados. Não para iluminar a cozinha, mas para substituir o acendedor automático do fogão. É importante um bom posicionamento da fonte de luz, vela ou lanterna. Segurar o celular, riscar o fósforo e girar o botão do fogão é complicado. Mais ainda se a intenção for acender um forno com aquelas grades fixas do grill. A sugestão é apoiar o aparelho na grade para conseguir esgueirar as mãos e acender o fósforo já perto do bico do gás. Operação pouco usual já que os fogões têm acendedor. Elétrico.

Com sorte a luz já deve ter piscado algumas vezes enchendo de esperanças os usuários. Certamente você já terá assuntado para saber a extensão da escuridão. Olha o celular... A bateria está comendo. Sai desse corpo. Já encontrou o que fazer?  Não, rede social não! Música só se tiver equipamento a pilha. Se não, concentre-se no barulho da tempestade caso ela ainda esteja acontecendo. Morando em apartamento, se for sair, lembre-se que se descer tem que subir! Ao contrário do que dizem por aí. 

Encurtando o exercício "do que fazer" vai o caminho das pedras para quem gosta. A opção é ler. Livros! Mais uma pista: o melhor lugar, na hipótese de não ter um lampião (que prático), é numa mesa. Posicione a vela na parte da frente do livro que é para não fazer sombra nas páginas. Evite, por favor, ler na cama. É possível, mas arriscado. E pode dar trabalho. Há uma boa possibilidade de esbarrar na vela. Também é melhor colocá-la num pires com água embaixo. Essa dica é muito útil caso o evitável aconteça. 

Foram mais de três horas no breu total abrindo a temporada 2021. Temperadas por duas horas de muita água e merecidas chuvas para aliviar a terra ressecada. Que cheiro delicioso...

Último conselho. Sabe a louça do jantar? Aquele no escurinho. Deixe para lavar à luz do dia seguinte. Vela, pia e louça, assim como sistema energético mal administrado, costumam dar em quebradeira e gerar muitos prejuízos.  

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com


@delcueto.studio na Colab55

sábado, 28 de agosto de 2021

Ao sabor

Ao sabor

Texto e foto de Valéria del Cueto

Com o fim dos jogos olímpicos de Tokyo 2020 em 2021 o esporte liberado é perseguir o sol e o calor numa montanha da serra fluminense. Caprichosos, os raios do “astro rei” requebram na varanda do lado norte da casa encarapitada na encosta.

Claro que o requebro não se dá por seu movimento leste/oeste, nem pelos obstáculos da construção, projetada para acolher seu calor. No inverno protegendo e no verão refrescando seus habitantes (os quartos ficam para o lado sul e os reflexos ao cair da tarde são belíssimos).

São as nuvens da franja final de mais uma frente fria que fazem o esquenta/esfria de quem estiver ávido para armazenar um pouco de calor nesse inverno incomumente rigoroso no Rio e outras parte do país. Elas dançam embaladas pelo vento querendo chamar a atenção para seus movimentos imprevisíveis.

Primeiro escurecem o céu como uma parede e esfriam a varanda, obrigando um movimento na direção da camiseta e da camisa de flanela que, assim como o moletom, foram sendo retirados com muita alegria anteriormente quando o corpo foi ficando quentinho e aquecido no lagarteio.

Aí, já rolou a primeira olhada para o paredão cor de chumbo. Ele se apresentou compacto. Perseguia umas nuvenzinhas apressadas que pareciam passar pelos ramos mais altos das árvores da Mata Atlântica que emolduravam o céu antes azulzinho, azulzinho.

Parece que a resenha “quarar ao sol” terá que ser encerrada. Recolhe-se os objetos ao redor. Moletom ainda não vestido, celular, bolsa com a máquina fotográfica, caneca de chá...

Só deu tempo de estruturar o conteúdo do texto em pensamento. Seria o mesmo tema que rola de quatro em quatro anos. O êxito individual e a falta de incentivo aos esportes de base como parte da estrutura educacional no crescimento, inclusive emocional - já que o assunto pipocou nessa edição olímpica, de nossos estudantes e novas gerações de talentos.

Força de vontade, foco, disciplina e resiliência são algumas qualidades desenvolvidas no cotidiano de um ambiente esportivo. Assunto pra mais de metro.

Tudo pensado antes da passagem das nuvens na Sapucaí térmica de Araras. Elas estão para o texto como o DJ que tomou de assalto as provas brazucas no Japão.

Ele não era o objeto dos eventos. Se destacou agregando um novo sentido à sua função precípua (vai pesquisar a palavra pra aumentar seu vocabulário) ao usar seu “setlist” para criar uma nova camada de comunicação ao dialogar e incentivar, não quem seria seu público inicial, as torcidas presenciais inexistentes nos espaços esportivos, mas com os espectadores que acompanhavam as competições do outro lado o mundo.

O DJ Stari mandou seu recado e contextualizou sua narrativa amarrando pontas até então intocáveis(!?). Estimulou, também, o entusiasmo dos jogadores. Ligando personagens e momentos especiais com as músicas do set, preencheu um vácuo. Mandou a letra, soltou os bichos e conectou dois pontos desse mundão. Ecoou.

Como as nuvens que gritam por atenção! Trocaram a configuração de parede para um entra-e-sai da frente do sol, num vai-e-vem de frio e calor. É tanto tira-e-bota camisa, moletom, meias e alpargatas que escrever que é bom, nada.

Diz que vai esquentar enquanto esperamos os Jogos Paralímpicos. Mesmo assim, é melhor brincar com as nuvens de “cadê o sol” e usufruir dos caprichos do vento.

É ele quem, na realidade, manda no pedaço. Apesar de não vê-lo podemos senti-lo e ouvir sua voz enquanto movimenta as nuvens que têm poder de apagar o sol e proporcionar, ou retirar, o calor que nos aquece.

Mais ou menos como aquele, a divindade que nos conduz. Múltipla, plural, incompreensível e que você leva, ou não, no coração...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com


@delcueto.studio na Colab55

segunda-feira, 28 de junho de 2021

8.916.100.448.256 = 12¹² - crônica de Valéria del Cueto



8.916.100.448.256 = 12
¹²

Texto e foto de Valéria del Cueto

Querida cronista. Que desafio virou trazer notícias pelo raio de luar. O que já foi prazeroso está se transformando num esforço hercúleo com variantes quase infinitas, como o vírus da Covid-19.

Se o semideus da mitologia grega cumpriu 12 trabalhos, no mundo contemporâneo eles não seriam multiplicados, mas elevados a sua própria potência (12¹²). Não precisa calcular esse número trilhométrico, amiga voluntariamente enclausurada, basta olhar para a nesga de céu da janela de sua cela e amplificar o número de estrelas que você enxerga para uma parte considerável da abóbada celeste e... voilá!

Assustei, né? Essa é a sensação que tenho e não consigo disfarçar (nem por uma boa causa) como é difícil manter-me fiel as conversa pelo raio de luar que a conecta com o mundo exterior.

As demandas intergalácticas são tantas! A tarefa de interlocução e tradução das pouco sutis intervenções humanas no curso dos acontecimentos dessa galáxia me consomem.

É muito complicado explicar aos seres extraterrestres que requisitaram minha expertise a velocidade e o rumo dos eventos produzidos pelos humanos, especialmente os de forma voluntária. Por exemplo: como e por quê alguém se acha no direito de lotear a Lua e, até, Marte? Quando eles, os visitantes, voltam seus sentidos para o conjunto da obra planetária as coisas se complicam mais ainda...

Quanto mais tento explicar que em meio a barbárie travestida de sofisticação tecnologia há, sim, um fio de esperança e a possibilidade de avanços da raça humana, mais os fatos me contradizem. É tiro, porrada e bomba para todos os lados.

Massas de refugiados, povos originários sendo atacados, dizimados e usurpados, grandes potências se enfrentado por um poder efêmero (como a história já cansou de comprovar), o número crescente de esfomeados e novas formas pouco sutis de escravidão. Claro que há, por parte de alguns poucos, um enorme esforço pelo bem comum. Porém, essa guerra está sendo perdida em várias frentes, infelizmente.

Cronista, eles não se satisfazem em causar destruição entre sua própria raça. Estão determinados a dizimarem outras espécies em prol de sua ganância insaciável. O planeta não está aguentando o impacto de tanta expropriação de seus recursos naturais.

A natureza reage e contra-ataca mandando alertas desesperados e mostra, por exemplo, com o vírus que evolui mais rápido que a ciência, quem dará as ordens no quesito evolutivo.

Não é possível que seres capazes de criar maravilhas partam para a ignorância de uma forma tão autodestrutiva. Só penso num personagem que você me apresentou quando, ainda cheio de ingenuidade, desembarquei por aqui. Santos Dumont, o pioneiro em fazer um objeto mais pesado que o ar voar (outros estavam chegando junto). Mas o que você me fez observar foi a decepção do inventor quando viu seu sonho virar uma máquina de guerra destruidora.

É isso que os deuses devem sentir em relação a sua criação, o ser humano. Por isso eles devem ter desistido da espécie. Os criadores abandonaram as criaturas. E eu, pobre Pluct Plact, não tenho mais argumentos para evitar o destino. Essa praga não pode se apossar de outros mundos!

O que me diferencia dos demais visitantes é que, na nossa osmótica convivência, quando aprendi a chorar também descobri um dos sentidos de amar, que é o não abandonar.

Por isso, me uno a você no seu silêncio e isolamento, (a forma mais digna de não se deixar vencer pelos inimigos, os arautos da morte de da destruição quando perdemos as forças), até que a sorte nos favoreça e, revigoradas, as energias divinas restaurem a sinergia natural de Gaia: a esperança no renascimento da vida...

*Essa Fábula Fabulosa é dedicada a Enock Cavalcanti e espero que responda a sua pergunta “vertical”

**Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com@delcueto.studio na Colab55

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Índios


Soa à toa
Ecos recorrentes de pungentes lamentos.
Atento aos murmúrios da floresta?
Choram a dor de perdas permanentes,
insurgentes resíduos recicláveis.
Macerados a cada avanço,
triturados ao som de cantos, dons e saberes.
A mata reclama a presença de seus protetores.
Os Deuses não estão por perto.
Quem pode ajudar?
Persiste a batalha interminável.
Cobiça, (in)justiça, realidade.
Soa à toa,
Vem garimpo, passa boiada,
Trator e corrente.
Ninguém escuta a pergunta.
Resposta vazia.
Soa à toa.
No tranco, na luta, caem os guardiões.
Gritos estrangulados.
Não sobrou ninguém.
Índios?
Eu, heim?

Vagabinha compridinha de Valéria del Cueto, para a série Parador Cuiabano

segunda-feira, 1 de março de 2021

O preço do silêncio


O preço do silêncio

Texto, foto de Valéria del Cueto

O silêncio vale ouro, diz o ditado, e a gente sempre pesa e pensa na ausência das palavras. Ultimamente, talvez por conta da pandemia, a frase adquiriu outro sentido. Muito mais amplo.

O ruído é tanto (e não é o Manifesto), que um momento de silêncio vale grafeno. Sabe o que é? O nanomaterial de carbono puro, (como o diamante) que é leve, condutor de eletricidade, rígido e impermeável.

O silêncio anda assim, tão excitante como o cristal mais fino conhecido, com utilidades em campos tão diversos como a dessanilização e purificação da água do mar e a redução de emissões de CO2. Sensores biomédicos poderão detectar doenças, células solares flexíveis e mais transparentes captarão energia. Ao ser adicionado a materiais de construção civil os torna mais leves e resistentes.

Tudo isso pode parecer distante do cotidiano. Mas e se o nanomaterial chegar aos cosméticos com sua pulverização na coloração dos cabelos? E na mobilidade urbana, com sua aplicação nos pneus e a fabricação de quadros de bicicleta que pesem 350 gramas?

O silêncio passou a ser tão valorizado quanto o grafeno! Enquanto todo mundo berra e grita, as obras martelam, quebram, esmerilham e calam os passarinhos prisioneiros das gaiolas do sétimo andar, as TVs, celulares, o “cinco, quatro, mais uma, três, dois, tá quase lá, ummm” da ginastica online do vizinho, o som das lives, dos filmes, das aulas, da porra da vida que passa.

O silêncio vale grafeno e o povo se esgoela pelos combustíveis fósseis...   

Passei a persegui-lo, o silêncio, como um prêmio. Tentei a madrugada, com quem tenho afinidade. Descobri que ele não existe e fica mais difícil no verão. Dezenas de aparelhos de ar condicionado habitam o meu quadrado. De um lado, do outro, em frente, em cima, embaixo... Tá tudo dominado pelos roncos dos motores, alguns desregulados. Nem os miados do gato do andar de baixo são capazes de superar a barreira do ronco de concreto dos aparelhos mal aparafusados e trepidantes, ainda sem a tecnologia fantástica do grafeno.

Os únicos com possibilidades de quebrar a barreira da monotonia monocórdia e calorenta são os latidos estridentes e histéricos do cachorro da vizinha que vem do alto, mas não muito. Mas ele prefere dar seu showzinho já de manhã, quando os ares já começaram a ser desligados. E nos acordar, claro. A mim e aos vizinhos, porque aqui ninguém larga a mão de ninguém. Tá todo mundo na mesma vibe, isso antes das obras enlouquecidas da pandemia. Virou sinfonia!

Sem o dia e a calada da noite o que resta? Trocar o quarto pela sala que dá para um espaço mais amplo e menos interno, apesar de ser de fundos. E apelar para o amanhecer.

A virada mais difícil para quem, como eu, gosta de atravessar a noite. Mas como ir dormir quando a batucada começa cedo e termina lá pela hora do chá? Das cinco da tarde...

Temos mais um esforço indesejado, porém necessário.

Achei o silencio por poucas horas, entre às seis da matina e o início da aula de ginástica e o “três, dois, um” online de um vizinho abusado e sem desconfiômetro que geme e bufa a cada movimento. Antes, pra saber que há vida na terra, se manifesta animadona a arara da casa da vila que tem a mangueira e outra árvore gigante que anima e esverdeia a coleção de janelas da parte interna do quarteirão.

E sim ele vale grafeno. Ver o nascer do dia se colorindo, no céu cercado de janelas adormecidas em Copacabana, em silencio total, custa caro para quem não gosta de acordar cedo.

E não tem preço quando a gente não sabe viver sem ele...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Silêncio na pista

Nem um surdo de marcação cruzará a Sapucaí. Calaram o povo no solo sagrado do samba

SILÊNCIO NA PISTA

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Não dá para precisar a quantidade de vezes que esse texto carnavalesco foi ensaiado. Como deixar de lado uma tradição de décadas, iniciada e mantida nas capas exclusivas do Caderno Ilustrado, no Diário de Cuiabá, distribuídas entre os parceiros pelo Brasil?

Ano passado nesse mesmo momento da criação, enquanto escrevia “O CARNAVAL DO PLANTETA FOME” contando o que aconteceria no Sambódromo da Marquês de Sapucaí em 2020, pensava em mudar o formato das dicas das escolas de samba do Grupo Especial que compõem a matéria de capa para o “próximo carnaval”. Achava (que ingenuidade) que caberia a apenas um rasgo de criatividade o sacode na abordagem da folia.

Apesar da Covid-19 já estar oficialmente apresentada ao mundo, a preocupação era com a falta de incentivo, estrutura e visão ecumênica do bisprefeito Crivella que conseguiu, entre outras proezas, acabar com a confraternização do povo do samba nos ensaios técnicos que antecediam a disputa. Era desses encontros pré-carnavalescos que saíam as fotos para ilustrar o material sobre os desfiles das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro! A falta deles criava um hiato na preparação da festa e um desafia para selecionar as imagens.

VENTANIA

O que ninguém poderia prever é que, um ano depois, esse problema deixaria de existir porque não haveria desfile no palco da maior manifestação cultural popular do planeta. Como outros grandes eventos no mundo, ele seria cancelado.

Por conta da pandemia, primeiro se tentou um adiamento.  A festa invadiria o calendário dos santos juninos nas férias de julho(?). Sem verbas nem para pagar o 13 salário dos funcionários da prefeitura do Rio, com as incertezas do fornecimento das vacinas, sem patrocínios à vista e, considerando a paralisia econômica quase geral, a ideia foi abortada. O carnaval ficou para 2022.

Nesse meio tempo cada um se virou como pôde. Uns com mais protocolos, outros sem maiores cuidados. Foram muitas as perdas no mundo do carnaval. Sem direito a gurufins, as festivas cerimônias de despedidas que todo sambista almeja.

2017, a águia campeã da Portela

TEMPESTADE

Já no início da crise as escolas se movimentaram produzindo máscaras e uniformes, arrecadando alimentos, distribuindo cestas básicas. Para chegar ao público, as LIVES se transformaram em veículos de expressão musical, cultural e canal de captação das doações. Foi a fase do “não deixe o samba morrer”. O auxílio emergencial e a Lei Aldir Blanc permitiriam uma ponta (tardia) de esperança aos milhares de artesãos e trabalhadores da indústria da folia. No início…

Com o passar do tempo o que se vê é muita reclamação (justíssimas) e pouca ação efetiva. A maioria das escolas correu atrás do prejuízo para não “enrolar a bandeira” reduzindo drasticamente os quadros de funcionários. Era isso ou encerrar as atividades.

Para aumentar a crise, a Cidade do Samba que abriga os barracões do grupo de elite do carnaval carioca foi interditada. O poder público nas esferas federal e estadual tem feito seu papel de não ajudar a sanar a maior crise carnavalesca do milênio. Tirando o prefeito Eduardo Paes que promete editais de apoio ao setor, a festa está entregue aos seus, que pouco podem fazer e focam esforços em manterem os projetos sociais junto as comunidades.

Squel Jorgea, ícone da Sapucaí no campeonato de 2016 da Mangueira.

PROGRAMAÇÃO

No meio dessa desordem, o jeito é improvisar. E, com isso, carnavalizar. Se consideramos o princípio básico da manifestação cultural e usando as armas que tem, o samba vai fazer sua festa pelos meios virtuais, oficialmente. Do Viradão do Carnaval Verde e Rosa, que promoverá (de um lugar secreto para que não haja aglomeração), as eliminatórias da escolha do seu samba enredo para o ainda incerto carnaval 2022, à reprise (com comentários e depoimentos) de desfiles campeões da Portela e da Imperatriz, por exemplo. Correm por fora as programações de outros projetos, caso Boi com Abóbora que selecionou, com a ajuda do público, 14 desfiles inesquecíveis e, após as apresentações na íntegra com comentários, faz o julgamento do “super campeonato”.

A Globo quase fez a alegria dos apaixonados por carnaval ao anunciar a exibição de desfiles memoráveis, segundo a curadoria da emissora. O quase é por conta da descoberta que as escolas cariocas e paulistas se apresentarão nos dois dias em programas de uma hora e meia. Tudinho. Só dá para uma passada de samba por escola, acredita?

A pista do samba: espaço de conquistas, críticas e reivindicações.

OCUPAÇÃO

E a Sapucaí? Vazia. Se os sambistas ficarão com os olhos compridos de desejo e saudade para o templo do carnaval, o mesmo não se pode dizer da conceituada artista plástica paulista Flávia Furtado. É dela a instalação que ocupará com balões e serpentinas a praça da Apoteose na terça-feira de carnaval.

A mesma permissão não foi dada à proposta do Museu do Samba. A instituição carioca sugeriu que, como todos os anos, fosse feita a tradicional lavagem da Sapucaí. Algumas baianas para benzer a pista e um casal de mestre-sala e porta-bandeira desfilariam ao som de um único surdo firmando o axé no território sagrado do samba.

A iniciativa foi rejeitada pela Secretaria Municipal de Cultura. Poderia haver aglomeração? Para evita-la bastaria não anunciar previamente sua realização.

Assim como os moradores, ilhados na cidade ocupada por turistas que ignoram as medidas de prevenção a Covid-19, os sambistas cariocas verão seu espaço de fala ser palco para a arte. A que eles próprios não podem expressar. Aquela, em que são inigualáveis.

O que os fazem persistir e lhes dá esperança? Apenas ecos de suas próprias vozes que dizem: “Quem nos vê sofrendo, não perde por esperar, ainda há de nos ver festejar!”. Ano que vem o samba riscará novamente seu chão. Evoé, Momo!  

* Outras iniciativas merecem destaque, as lives de Maria Bethânia, o cine-debate do Museu do Samba, as iniciativas de blocos, como O Cordão do Bola Preta, e do Jornal Ritmo Carioca que retransmitirá os desfiles da Intendente Magalhães, onde as escolas que sonham em chegar a Sapucaí se apresentam. Mas o recorte da matéria é o Grupo Especial e o maior carnaval do mundo e ele acontece no templo do samba…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

A comissão de frente que paralisou as arquibancadas da Paraíso do Tuiuti, 2018

Opções para curtir o carnaval no youtube
*Horário de Brasília.
Mangueira – 14/15/16 de fevereiro, 15h
“Viradão do Carnaval Verde e Rosa” – Eliminatórias da escolha do samba. 17 sambas em cada dia. Seguem 8 de cada chave.

Portela – 13/14/15/16 de fevereiro, 13h
Sáb – 1980 – “Hoje tem Marmelada” com comentários,
Dom – roda do Samba dos Crias, sambas históricos
Seg – 1984 “Contos de Areia”
Ter – 2017 “Quem nunca sentiu o corpo arrepiar ao ver esse Rio passar…”

Imperatriz – 14/15, 19h
Dom – 1987 “Estrela Dalva”
Seg – 1995 “Mais Vale um jegue que me carregue do que um camelo que me derrube lá no Ceará”.

Boi com Abóbora – 12/13 fev, 21h.
Desfiles preferidos do público numa disputa pelo título de 2021.

Museu do Samba – 15 fev, 17h
Cine-debate sobre o documentário “Kizomba – 30 anos de um grito negro na Sapucaí”

Bethânia – 13 fev, 22h
Globoplay com transmissão aberta

Studio na Colab55

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Depois do amanhã


Depois do amanhã

Texto, foto de Valéria del Cueto

Estamos no ponto mais alto do triplo mortal carpado no trapézio. Sem rede de proteção. A distopia é aqui na porta ao lado. Quem somos nós para reconhece-la dentro do nosso próprio quadrado? Entramos no segundo mês do ano. Como se o carnaval, já cancelado na prática, mas fervilhante em nossos corações, fosse loguinho ali.

Temos tudo, nesse nada sem sentido em que vegetamos. Dos grandes fatos aos pequenos atos quem somos nós nessa contradança? O nada combinado com o lugar nenhum. Somando, dividindo, subtraindo e multiplicando vamos levando a aritmética incorreta do dia a dia da pandemia. Aquela que assusta no âmbito geral e provoca um efeito inverso no individual. Todo mundo sabe que a ordem dos fatores altera o produto, o que não impede o “queroomeu” de sempre dando cartas de mão no pano não tão verde da humanidade.

O caos é aqui. Os sinais são bem claros, a gente é que não tem olhos para ver. O primeiro deles, no meu caso, é o local e o horário que saquei a caneta e abri o caderninho. São seis e meia da manhã da primeira segunda feira de fevereiro. Escrevo no chão da sala com o sol invadindo, ainda tímido, os tecidos de voil e a renda delicada da cortina que protege as plantas.

Ao meu lado o tomateiro informa, pela alegria serelepe de suas folhas que tremulam no ritmo preguiçoso da brisa passeando pela janela recém aberta que, apesar da falta de chuvas nesse janeiro esturricado, houve uma evolução sensível e visível a olho nu no jardim suspenso da pandemia.

Ao lado dele, uma rosa cor de rosa bem antigo desabrocha no vaso em que uma espécie desconhecida e com folhas de cheiro forte se desenvolve animadona. Tirei uma foto da mudinha virando arbusto abusado e o google indicou que pode ser um pé de Dama da Noite. Achei um pouco diferente dos “modelos” similares apresentados pelo sábio da Inteligência Artificial. Tenho a impressão que as folhas são mais lustrosas. As do vaso parecem ser, se não aveludadas, como a do pezinho de tomate, menos rígidas e “polidas”.

O sol que tomo todas as manhãs produz o tom moreno, quebra o tom esverdeado do isolamento na minha pele e pode ser reverenciado no desenvolvimento progressivo das plantas (inclusive eu, a ameba mor). Agora está forte e, caso não tomemos os devidos cuidados, deixará suas marcas. Isso me leva a mudar constantemente de posição. O caderninho me guia. E também ao meu corpo como um todo para evitar aquelas marcas nas dobrinhas, garantindo um bronzeado equilibrado. Igual a quando escrevo as crônicas nas Pontas, do Leme ou do Arpoador num verão qualquer.

Onde quero chegar? A nossa incrível e perigosa capacidade de adaptação, quase sempre inconsciente. A que nos faz acordar de madrugada num primeiro de fevereiro (amanhã é dia de Iemanjá), num ano sem carnaval, depois de um final de semana clássico com muito calor (chuvas por aqui, só se for de bençãos, pra quem acredita), praias lotadas, arrastões e variantes inclassificáveis das novas cepas se beijando nas bocas turísticas de Ipanema e outros points.

Não, não está pouco. Nem essas informações traduzem um retrato fiel do que nos aguarda, além da lentidão na vacinação contra a covid-19. O radinho que está desligado informa os movimentos de mais uma greve de caminhoneiros anunciada, ainda hoje decidirão os comandos do parlamento brasileiro. Mas, antes, Rodrigo Maia poderia até pautar o impeachment de Bolsonaro no Congresso Brasileiro, enquanto da miúda Myanmar o amigo desconhecido avisa sobre o último golpe de estado de um outro lado do mundo. Que não é aquele onde milhares de manifestantes são presos ao protestarem contra a prisão de um oposicionista ao regime, no caso, o russo.

O dia mal começou. Eu aqui, entre rosas, azaléas, tomateiros, hortelãs e mudinhas de pimentões. Observo o passarinho que borboleteia no pé de camélia que nunca deu flor. Agora, torro as cascas de bananas e jogo moída na terra. Diz que a ausência de flores é falta de potássio. Só saberei o efeito na próxima primavera. Enquanto converso com ela reparo que já dá pra ver uma mudança nos brotos das novas folhas que explodem nas pontas dos galhos. As flores, só o futuro dirá se resistirão ao inverno que (ainda) está por vir....      

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com


Studio na Colab55

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Dobra do tempo


Dobra do tempo

Texto, foto de Valéria del Cueto

Cronista do raio de luar. Fui! Porém por motivos alheios a nossa vontade eis-me, mais uma vez, usando a lua para alcança-la na janela. Depois do último contato achava que nos encontraríamos em circunstâncias muito diferentes...

A vida, nem a da terra, nem em lugar nenhum da Via Láctea, ou adjacências, quis assim. Como aprendi com você, fazer o quê? Ter paciência, malemolência e tocar o barco é o que nos resta.

Como disse, fui! E você era a próxima. Nos dias que os planetas quase se beijaram de tão próximos ao por do sol, pouco antes do Natal, finalmente minha espaçonave teve impulso e rompeu a atração que me agarrava aqui. Era um momento único, uma chance imperdível e, claro, aproveitei para picar a mula em direção ao infinito.

Querida amiga, estava tudo pronto para sua partida. Sei que você entendeu a ausência das mensagens por quase 2 meses como um sinal do que viria a seguir.

A abdução estava selada, carimbada e avaliada. Era só questão de pegar carona na cauda do cometa para busca-la. Só que os acontecimentos no planeta se precipitaram. Diante do que foi registrado no comando central interplanetário fui requisitado para, com o conhecimento adquirido com sua ajuda nas longas conversas pela fresta de luar no seu exílio voluntário do outro lado do túnel, ser observador da chacoalhada generalizada que sacode o equilíbrio terráqueo.

Tentei deixa-la fora desse enredo apressando sua vinda para o lado de lá. Fui voto vencido. Chegaram à conclusão que, mesmo isolada na cela, seus delírios têm mais sentido e servem como força auxiliar na compreensão dos acontecimentos recentes e vindouros.

Os primeiros, passo a relatar para coloca-la (um pouco) a par do que nos espera.

Já voltei há alguns dias, a tempo de ver um homem de chapéu de touro sentado na presidência da Câmara dos Deputados da maior nação democrática do mundo após o Capitólio ser invadido, qual o Império Romano, por uma horda de bárbaros, sem que houvesse uma reação capaz de conter a turba. Com o quase ex-presidente Trump, depois de achar que era o dono da bola, incentivando o distúrbio. No momento está “impeachmado” na Casa e em via de ser julgado pelo Senado, para começar. Ele ajudou a colocar em risco a segurança das três autoridades máximas da sua cadeia sucessória.

O que temos com isso e por que foi suspenso o projeto de abdução, você se pergunta? Ocorre que, justo nesse momento e por causa dele, finalmente os sinais de nossas passagens pelo planeta se tornam públicos e notórios ao serem oficialmente reconhecidos pelas autoridades locais.

Resumindo: estou na comissão de frente da delegação de observadores interplanetários e você aí, isolada, é fonte, intérprete e analista dos fatos, numa parceria que garante sua retirada imediata, caso a situação continue se agravando.

Palavra de Pluct, Plact com aval da cúpula da missão. Você será nossa Mônica Calazans, a “cobaia” e primeira a ser vacinada contra a Covid-19 no Patropi. Sim, avoada cronista. Entre negação, brigas, impropérios e quase convencendo parte da população que a terra é plana, depois de 51 (o número lembra algo?) países entramos na corrida da vacinação. Tem maluco dizendo que quem se vacinar pode “virar jacaré”, acredita?

É justamente esse povo doido (louco por uma morte horrorosa e inglória) que desafia a sensatez e se aglomera como se não houvesse amanhã por praias, bares e festas por aí. O vírus? Não quer brincar de esconde-esconde e ataca pra valer. Estamos, mais uma vez, não na beira, mas enterrados numa gigantesca, cruel e agressiva onda de mortes, agora, inevitáveis. Um genocídio programado para dizimar populações inteiras. Manaus está aí, sem oxigênio para doentes, cavando covas e servindo de (mau) exemplo para o mundo. O general da logística envia “kit preventivo” para lá.

Me ajuda a explicar atitudes como essa para os seres superiores, cronista. Como?

Precisamos de você! Felizmente aí, onde está. Isolada, lúcida e iluminada para ajudar, não a decifrar (é impossível, sabemos), mas traduzir o que move a alma humana além do desprezo pelo seu próximo e a crueldade com que o destrói. Mandarei todas as informações que obtivermos. Vamos precisar de argumentos sólidos e consistentes para evitar uma punição severa e exemplar no julgamento final nas cortes intergalácticas. Final, eu disse!

Sua passagem está garantida sem barulho ou publicidade, como combinamos. Aguardemos os acontecimentos. O dia de São Sebastião, 20 de janeiro, ficará na história. Como uma dobra no tempo.

O que virá depois? Os deuses dirão...

Do seu, Pluct, Plact.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com


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