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quarta-feira, 15 de novembro de 2023

O bambu e a flecha



O bambu e a flecha  

Texto e foto de Valéria del Cueto

Queria falar de carnaval. Se pudesse. Esse título também caberia na crônica que imaginava escrevinhar no meio do mundo, pra variar, no domingo. O tema seria o samba do Salgueiro, um canto comovente e realista sobre os Yanomami.


Só que... Hoje é 12 de novembro, Dia do Pantanal.

Antes de ligar o bioma a efeméride vejo o drama que se desenrola em parte da maior planície inundável do mundo. Mais uma vez, como em 2020, ela arde sob os olhares complacentes e cúmplices de quem tem o dever constitucional de preservá-la.

Mesmo assim pensei em manter o foco na folia, ou falar dos planos do réveillon carioca, para compensar o peso dos últimos textos sobre os acontecimentos no Oriente Médio.

Resisti até abrir o “X” e me deparar com postagens do PL. Ele, o Partido Liberal, comemorando o Dia do Pantanal nas redes sociais. Ele e, também, sua parlamentar Carla Zambelli, a dona que correu atrás de um eleitor apontando uma arma pelas ruas de São Paulo nas últimas eleições.

https://t.co/SYdGuYH3iI

Foi a gota d´água para mudar minha melodia de um samba enredo para um lamento nativista. Falo de “Queimada”, um dos socos no estômago que levei na 10 Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul, a primeira que acompanhei, em 1980. Defendida por Miguel Gonzalez, Os Uruchês e o piano triste e pungente de Cide Guez, sua melodia acompanha e sublima as imagens poéticas da agonia da terra e dos animais. Os versos finais dizem: “É hora do homem parar de agredir, ou gerações futuras serão caravanas errantes, condenadas a morte na fome numa terra que não vai parir”.


Ali caiu minha ficha da responsabilidade que tenho como cidadã desse mundão de não me omitir para alertar, a quem interessar possa, sobre o tamanho da encrenca em que nos metemos ao mexer com o planeta como estamos fazendo. É uma luta longa, muitas vezes inglória e frustrante. Mas, como diz o título do texto, se tem bambu, tem flecha.

E essas são as flechas que carregam mensagens a você, leitor, para alertá-lo a não se deixar enganar por banners motivacionais postados por aqueles que, com seus votos, colaboram de forma direta e criminosa para a destruição de nossas riquezas naturais.

Como assim? O partido que abriga representantes da bancada do agro, (a que quer ampliar a área de plantio às cabeceiras do Pantanal, demarcá-lo na vazante e não na cheia, fazer PCHs - Pequenas Centrais Hidroelétricas, interferindo no curso natural das águas que garantem o frágil equilíbrio do bioma, a mesma que incentiva o avanço indiscriminado agrícola no Cerrado, principalmente na chamada zona do Alto Paraguai), exaltando o Dia do Pantanal? Nele também pontifica a bancada da bala, que avança com projetos de liberação da caça!

Menciono um partido, mas sabemos que esse vírus invasivo permeia outros. Eles desenvolvem ações orquestradas nas câmaras parlamentares municipais, estaduais e federais que corroem a rede de proteção ambiental. O que tem de gente fazendo cara de paisagem, como se nada estivesse acontecendo. O que tem de manipulação de dados e informações!

Todo cuidado é pouco, por exemplo, quando o diligente ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, cria de Blairo Maggi, o eterno Motoserra de Ouro, “recorta” dados sobre o agro que não respeita as normas ambientais usando o santo nome de sua colega Marina Silva, do Meio Ambiente, em vão. “Ela disse que menos de 2% dos agricultores cometem delitos”, afirma o pupilo do magnata da soja, “mais de 98% agem de forma correta”, conclui.

Sabe conversa pra boi dormir? É por aí. O que ele não menciona é a quantidade absurda de terras que os “menos de 2%” detém. São os latifundiários que controlam a maior parte. Hoje, 0,7% das propriedades têm área superior a 2 mil hectares. Mas... somadas elas ocupam 50% das terras agricultáveis. Portanto, olha o tamanho do espaço em que esse pequeno e privilegiado contingente pode fazer estragos. Isso se chama manipulação de dados.

E, como ainda tem bambu, não custa nada flechar a meia informação tendenciosa de quem, como gestor público, contribui para colocar lenha na fogueira que arde sem a devida prevenção e contenção no Pantanal e no Cerrado, enquanto vende ao mundo a “defesa” da Amazônia.

Tudo parte do mesmo movimento, o alvo a ser atingido por informações claras que desmascarem a minimização de um problema gigantesco, concentrado e com recursos quase infinitos para patrocinar candidaturas, postergar ações judiciais e vender conceitos como o de que “O AGRO é POP”, botando no mesmo balaio os mega tubarões e o agricultor familiar pra confundir a cabeça do povo. Sinceramente, não acho que seja fácil mensurar o tamanho do problema e das forças que enfrentamos.

Então, deixo uma sugestão. Especialmente aos mato-grossenses que seguiram até aqui a trajetória dessa flecha.

Abra sua janela, tente ver o horizonte e inspire fundo o ar contaminado pelas consequências da ganância que destrói o meio e corrói a qualidade do nosso ambiente. Olhe em volta. Pense no futuro.

Agradeça se (ainda) houver algum bambu a seu alcance. E lute!

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM... pantanalsemfim.wordpress.com




Studio na Colab55

terça-feira, 19 de setembro de 2023

Ainda somos. Ainda...


Ainda somos. Ainda...

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Buenas que me achego, querida cronista, e vamos ao que interessa pois sei que, por mais humano que ande ultimamente, não posso ser o motivo do atraso da publicação regular dessas crônicas (In)finitas. Seria o fim da picada do Sem Fim que o único frequentador dessas páginas literalmente de outro planeta tenha uma atitude tão característica dos terráqueos: o famoso “deixar o outro na mão”. Destaco que é pelo raio de luar que invade sua cela que lamento a falta de tempo para burilar melhor essa cartinha.

Acontece que os fatos se atropelam e abalroam de uma forma alucinante por aqui. De uma passagem meteórica pela ArtRio, na Marina da Gloria, pra beber da fonte das artes contemporâneas naquela paisagem deslumbrante carioca, vindo das enchentes que assolaram o “Sul Maravilha” (como dizia a iludida Graúna de Henfil), pluctplacteei direto para New York. Aqui, líderes mundiais se reúnem na 78 Assembleia Geral da ONU, com o lema “Paz, Prosperidade, Progresso e Sustentabilidade”. Se quiser acompanhar e ter um choque de (i)realidade é só se ligar no canal da ONU.

Ao contrário dos últimos encontros mundiais, as agendas estão lotadas de reuniões e compromissos brasileiros referentes a temas prementes como a Guerra da Ucrânia, a divisão das riquezas e a erradicação da pobreza, o colapso climático, fontes renováveis de energia, a preservação da Amazônia. De novo é que é o Velho que recoloca o Brasil na foto das pautas essenciais da humanidade.  

Cronista, o planeta está estrilando! Emitindo sinais pra todos os lados que seu esgotamento. Nos continentes e oceanos há indicações desse exaurimento. As emergências climáticas pipocam com força e amplitude. Não precisamos ir longe, geográfica e temporalmente.

Essa semana acaba o inverno e começa a primavera. Depois do junho mais quente, o julho suplantando o mês anterior e um agosto campeão no quesito, a meteorologia alerta que por esses dias as temperaturas serão recordes aí no Brasil. Se no Sul anunciam mais uma “onda de chuvas”, a panela do Planalto Central chia de tão aquecida e irradia seu insuportável calor de mais de 40 graus para o restante do país. Sem o alívio ou pena de quem, apesar dos alertas, anda a devastar a Floresta e o Cerrado acabando com o corredor de nuvens que vem da Amazônia.

Pensa, cara cronista isolada voluntariamente do outro lado do túnel, na diferença de abordagem do Brasil nesses e outros temas perante os governantes globais. Não que adiante muito, já que falar é mais simples que fazer. Mas, convenhamos, já é um avanço.

Enquanto aqui na Terra o pau está quebrando pra todos os lados, num mundo cada vez mais radicalizado em larga ou pequena escala (agora, a República Dominicana fechou suas fronteiras com o Haiti), a exploração espacial avança tão rápida como a velocidade do som multiplicada pela da luz. A Rússia não conseguiu sucesso na sua missão espacial. Já a Índia chegou ao lado escuro da lua. Lembrei muito do dia em que tive o prazer de, por seu intermédio, ouvir “Dark Side of the Moon”, do Pink Floyd. Sabia que lançaram uma versão remasterizada para os 50 anos do grupo? Tão poético...



Também anunciaram a existência de um planeta “com sinais de vida”. O K2-18b é oito vezes maior que a Terra e está logo ali, a 120 anos luz daqui, na constelação, veja só, de Leão. Aliás, assim como quem não quer nada continuam aparecendo evidências de que extraterrestres circulam ou já estiveram no pedaço. Até corpos preservados foram apresentados na Câmara dos Deputados do México!

Cronista, vou parar por aqui. Sei que o assunto parlamentar aguça seu interesse. Mas, parodiando um hino da Portela, composição do saudoso Monarco (aprendi bem) “...se for falar da Câmara dos Deputados brasileira, hoje eu não vou terminar...” E olha que o assunto não envolve corpos de extraterrestres, mas múmias insepultas que assombram a vida política do país. As que tentam deixar o governo federal refém de suas já conhecidas e contumazes falcatruas, como o famigerado orçamento secreto e a distribuição desigual de cargos e ministérios para a aprovação das pautas de interesse popular.

Melhor deixar pra próxima missiva, porque tem assunto pra mais de metro...    

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com



Studio na Colab55

terça-feira, 20 de abril de 2021

Danço eu, dança você #ClimateAction


Danço eu, dança você

Texto e foto de Valéria del Cueto

Que o raio de luz do luar, esse que invade sua cela, querida cronista voluntariamente isolada do outro lado do túnel, seja suficiente para iluminar sua alma e gerar o perdão que agora, euzinho, Pluct Plact, o extraterrestre, peço por minha ausência, cada vez mais prolongada. Juro (humanamente) que vou mudar de atitude.

Seu amigo está exausto de tanto interlocutar! Quantas vezes procurei um tempo para atualiza-la sobre os últimos eventos planetários. Não consegui abrigo num pôr do sol que estimulasse o exercício (tão prazeroso antigamente) de procurar assuntos que fisgassem sua imaginação e funcionassem como estímulo à manutenção do seu fio terra.

Foi nele que me enrolei nessa tarefa hercúlea de intermediar os contatos entre os seres intergalácticos que chegam e os locais. Não consigo desenrolar o mapa mundi do panorama mundial com a mesma clareza e generosidade que você, cronista, me aplicou nos nossos diálogos pela janela da cela. Não há luz do luar para dourar a pílula dos fatos que por aqui se desenrolam.

Não tem sequência de jogada de xadrez tridimensional capaz de provocar uma mexida tão radical no tabuleiro quanto as que tenho registrado meticulosamente. Haja nuvem e capacidade de combinação no banco de dados.

Para começar, existimos oficialmente! Reconhecidos pelo Pentágono. Também, como permanecer incógnito depois do deslumbrante desfile dos faraós pelas ruas do Cairo? Todas as divindades ali, a céu aberto, solenemente conduzidas pela avenida cenograficamente iluminada... Não, não foi um desfile de carnaval (tá com saudades, é? Pois vai ficando). Foi à vera, foi real e atraiu energias poderosas, desconhecidas para terráqueos. Nem você, cronista aluada, imagina o que aconteceu com o equilíbrio dos visitantes. Tipo um gole único e completo numa dose dupla de Jack Daniel’s. Bateu e voltou.

Enquanto batia e, na embriaguez as naves pirilampearam despidas de discrição em vários pontos do planeta, a galera liberou geral. No sentido mais amplo e irrestrito da expressão. Até o ex-presidente Lula recebeu passe livre, acredite! A chacoalhada energética produziu outros fenômenos numa cadeia improvável de modelagem (anda na moda com os estudos estatísticos da covid-19) inalcançável, como um desvio de trajetória ocasionado por um acidente de percurso.

E voltou. As coisas iam de mal a pior com o “coiso do meu”. Meu exército, meu poder, meu (des)governo encaminhando o país da pandemia ao pandemônio anunciado e, sabemos, inevitável, garante a modelagem (de novo ela). Povo na corda bamba, economia no V de vão sem fundo, inflação que nem pipa em vento ascendente, falta de hospitais, médicos, insumos, vacina, vergonha na cara. E o Centrão centrão. Sugando o sangue coagulado da facada eleitoral no povo, pra variar, bucha de canhão.

Com a boiada ambiental passando sob os olhos coniventes de quem jurou defender o Brasil e a Amazônia vendados por cargos comissionados da estrutura do governo, dançaram as florestas, os índios, as riquezas naturais. E não é um minueto. É o funk do quadradinho com todas as expressões sexuais que se aprende no TikTok. Estão arrombando a festa!

Então, antes que você me pergunte, com seu olhar de Capitu enluarada, por que estou desenrolando esse babado? Mando na lata: agora é a hora do miudinho! Chamaram na chincha a diretoria do governo genocida.

Aqui, tem CPI pelo conjunto da obra negacionista xexelenta no gerenciamento da pandemia. 375 mil mortes depois...

Na Cúpula do Clima, convocada pelos USA, diante das maiores nações do mundo, sob o peso de um aumento de 216% de desmatamento na Amazônia Legal em relação a março do ano passado, haverá 3 minutos de “explicação” do inexplicável e promessas minúsculas, diante dos estragos e o desmonte feitos na estrutura de proteção ambiental nos últimos 2 anos.

Tudo isso de pires na mão diante de quem, até outro dia, contrariando os princípios da diplomacia, o que fazia o negacionista? Negava. Justamente a lisura da eleição alheia. É palpite infeliz que chama a música?

Cronista, estou quase humano. Estou usando você. Transformando essa cartinha numa isca para ouvi-la gritando aos quatro cantos da cela em sua imaginação enclausurada por suas paixões viscerais. As águas, o Pantanal, a Amazônia, matas, rios, o meio ambiente. Enlouquecidamente!

Essa energia gerada da indignação é a única capaz de trincar os escudos da maldade acumulada que sustentam a cunha da destruição planetária. Só esse grito gutural e uníssono de amor e preservação tem poder para impedir a outra opção disponível. E tem que ser pra já. #ClimateAction. Se não forem os próprios humanos, estamos em prontidão para salvar a Terra do perigo eminente.

E você, cronista visionária, sabe perfeitamente qual será o primeiro inimigo a vencer na batalha pela vida no planeta. Aqueles que a ameaçam e destroem...    

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com


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