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domingo, 11 de janeiro de 2015

Meia Inteira, por Valéria del Cueto

Araras 140927 016 Mulatas piso e tapete textura

Meia no singular quase sempre é plural, já que são necessárias duas para virar uma inteira.
Até mesmo a meia propriamente dita, normalmente, é um par. Uma para cada pé. Menos a meia calça que é inteira, assim como a meia elástica.
O mesmo caso da bola de meia. Como ser bola, sem ser inteira? O meia joga no meio de campo e para ser bom tem que ser um jogador inteiro: atacar, defender, apoiar e distribuir.
Ainda no esporte, há a meia maratona, graças a Deus! Porque uma Maratona não é para qualquer atleta, só para atletas completos, como os do declatlo.
A meia pista ajuda, mas trava o trânsito e a meia velocidade é um conceito muito variável. A gente não tem noção do que é a velocidade inteira, nesse mundo cada vez mais veloz....
Meia quase sempre pressupõe a outra metade. Quase sempre. Já ouviu falar em meia tragada?
Meia entrada, na verdade, é uma inteira porque dá direito a meio pagamento da entrada para a sessão  inteira.
Também tem o meio tempo, composto por vários meios: meio dia, meia hora, meio minuto, segundo, décimo centésimo. São meios cada vez menores!
E a meia noite? Essa também pode vir acompanhada de uma meia lua, que não deixa de ser inteira, já que sua outra metade está logo ali, no seu lado oculto.
Meia volta e volta e meia, é como trocar seis por meia dúzia. Sempre dão no mesmo lugar. Aliás, meia dúzia é metade, mas também são seis!
Também tem a meia pensão. Assim, meio meia sola, o que não faz um sapato inteiro, mas já quebra um galho. Já o pé de meia o ideal é que seja inteiro! Senão vira meia pataca.
A Meia Praia é clássica. Fica em Lagos, Portugal. Já a meia sunga apareceu agora. É moda na Europa e pra ficar bonitinha exige uma depilação completa, mais caprichada que a feminina.
Meia bandeira é no táxi. A bandeira verdadeira fica a meio pau, quando há luto. Pena que não haja meia dor, só meio triste! Também não há meia alegria...
Existe a meia verdade que não é lá essas coisas. Mas não existe a meia mentira. A meia cara esconde uma meia vontade, expressa por meias palavras.
As meias medidas costumam não resolver, já que não são inteiras. Completo, ou melhor, integral deve ser o meio ambiente que não se mantém com meia proteção, só com atenção total.
E quando a meia verdade se junta a meia intenção? Aí é o caos  por inteiro! Tudo fica meia boca com anda por aqui: meia economia, meia saúde, meia educação... Já ouviu falar em meia segurança? Tudo de meia tigela! Nosso governo inteiro atua por meio de meias atitudes produzidas por gente de meia cara que não se satisfaz com meia porção. Estamos inteiramente f...alidos!
São eles que querem fazer-nos acreditar na meia inflação. Essa não tem jeito: ou tem ou não tem! Precisaremos de, no mínimo, meio século para preencher tantos meios incompletos. Esse tempo já foi uma existência.  Hoje, com a longevidade é quase apenas meia vida.
Existem coisas que sempre são e serão inteiras. Para elas, não há meio termo. Não existe meia morte. Quando ela vem, vamos inteiros. Pelo menos a parte física. A espiritual, una e íntegra, é indissolúvel e eterna. E como não existe meia eternidade...
PS: havia pensando preguiçosamente em fazer uma meia crônica para acompanhar o tema central. Mas de meia em meia cheguei mais rápido do que imaginava a crônica inteira de hoje!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas fabulosas”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com
GRAVATA 
Quando a meia verdade se junta a meia intenção é o caos  por inteiro! Tudo fica meia boca como anda por aqui: meia economia, meia saúde, meia educação

domingo, 22 de janeiro de 2006

NO LEME, 18 É POUCO. DO RESTO, NÂO SEI DIZER...






texto e foto de Valéria del Cueto

janeiro de 2006




Ano
novo, caderno novo, vida nova... Projeto enquanto coloco, no alto da folha do
caderninho ainda engomado, a data de hoje. Pauzinho, bolinha, barrinha, bolinha,
pauzinho, barrinha, bolinha, bolinha mal calculada. 10/01/06. É isso aí. Da Ponta
do Leme, beira de Copa, orla do Rio, sudeste do Brasil... 2006.


Antes
da avaliação climática de praxe, respiro fundo... e inspiro areia e chuviscos
do vento que, em rajadas irregulares e mal calculadas, macula o dia clássico de
verão. Só há um jeito de sobreviver. Se entregando ao som inconstante e a seus
significados intrínsecos: areia, sal, calor e vento. Não necessariamente nesta
ordem...Ordem?


Tempo
enganador. Não dá para notar o sol que castiga, amenizado pelos rasgos de
ventania. O mar tem carneirinhos também inconstantes. E, se está para peixe,
certamente, não quer papo com os banhistas que tentam encarar sua água gélida.






Disseram-me.
Eu vejo e, por isso, dispenso apresentações pessoais. Perguntei para o cara que
pediu para cuidar dos óculos, chaves e havaianas, enquanto ia dar um mergulho,
quando ele voltava, um tempo depois da empreitada. Só confirmei o que já havia
observado através das atitudes dele.




Seguiu
para a água todo animado. Quando atingiu a faixa de areia dura, recém molhada
pela última onda mais espraiada, reduziu discretamente o passo e continuou corajosamente
em frente. Sua disposição diminuiu visivelmente quando a próxima marola mais
afoita lambeu seu pé.




A
primeira onda que chegou a altura de seu tornozelo fez com que os músculos de
seus ombros se contraíssem e os braços se elevassem numa posse de gaivota
querendo voar. Eu disse que a primeira onda pegou só um dos tornozelos? O outro
estava elevado fugindo do encontro inevitável com o mar gelado. Vamos trocar a
imagem da gaivota pela da garça. É mais “d´acord”.






Foi
nessa fase que ele ficou mais tempo. Com a água pela canela. Tentando convencer
seu cérebro a guiá-lo mar adentro. Explicando para seus nervos, músculos e
esqueleto que não ficariam ali para sempre. Era só um mergulho refrescante. Achei
que não ia encarar o desafio de frente...Fiquei olhando um tempão.






E
ele lá. Na beirinha.


Uma
rajada mais forte de vento e maresia encheu meus domínios de areia. Canga,
bata, chinelo... Nada ficou incólume. Tentando salvar meus pertences e os do cara
de serem soterrados, desviei minha atenção. Justo no momento do mergulho.






Quando
recuperei os sentidos, embotados pelo vento e pela tempestade de areia, o
momento crucial havia se perdido. Já disse em outras eras e volto a repetir.
Como na vida. Focamos nosso olhar e/ou sentido, aguardando um momento único,
raro. Deixamos de olhar em volta. Mas “motivos de força maior” acabam desviando
a atenção. A ação acontece, o momento passa. Horrível.


Não,
não a sensação. Esta, é de ter sido inadiável. Ser sempre inevitável. De que
perdemos o bonde. Que bonde? Nunca saberemos. Horrível é a resposta, quando indago
ao banhista sobrevivente sobre a temperatura da água, depois de ter recuperado
seus pertences, enquanto agradece e se despede, perguntando gentilmente sobre o
que estou escrevendo, tão concentrada.


Sobre
o dia, sobre a Ponta, do Leme, respondo engolindo a maresia e um pouco de areia
trazida pelo vento leste, incomum nesta época do ano, de água estupidamente
fria: 18º não é para qualquer banhista. Paciência. As rajadas estragam a minha praia, mas
fazem a festa de outros que também amam o mar: a tribo do windsurf. Bons e inesperados ventos abrem o
ano de Iansã.



Valeria del Cueto é jornalista e cineasta
liberado para reprodução com o devido crédito

http://delcueto.multiply.com