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quinta-feira, 6 de abril de 2023

Paraíso Imperdível

Paraíso imperdível

Texto e fotos de Valéria del Cueto

E lá se vai, mais uma vez, a frágil tranquilidade da Ponta do Arpoador. Depois do carnaval, o fim do verão e a passagem de transatlânticos tardios ficou uma brecha bem estreita antes do fim da quaresma e do feriado da Semana Santa.

Resumindo: quem avisa, amigo é. E o mar mandou seu recado para os próximos dias. Engoliu a faixa de areia do Arpoador, especialmente no cotovelo do paredão no encontro de Ipanema, ali pela altura da estátua do Tom Jobim. Só ficou parede e pedra.

Sabedora da densidade demográfica superpopulosa da próxima sexta, em pleno feriado, acomodei a agenda e antecipei a visita e a crônica da vez para o meio da semana. Pra que disputar espaço na areia com os visitantes, caso o sol resolva firmar no feriadão da semana santa?

É numa tarde ensolarada, cheia de surfistas disputando espaço nas ondas ainda altas e quase perfeitas por causa da ressaca que, como faço (há quantos anos não sei dizer) me conecto com o centro geodésico da América do Sul para celebrar, mais uma vez, mesmo que a distância, o aniversário da minha querida Cuiabá.

Sempre foi uma data festiva pra mim. Quando cheguei aí porque fazia questão de trabalhar no dia 8 de abril e seguir, como repórter, uma parte da programação. A outra, fazia eu mesmo. Comer Bolo de Arroz da dona Eulália, filar um peixe numa casa bem cuiabana...

Fiquei aqui pensando no dinamismo da metrópole que ocupa a margem do rio que dá nome a Capital de Mato Grosso. Em como tudo passa rápido e pouco fica gravado na memória de seus habitantes.

Por isso, escolhi o meu presente desse ano para os 304 anos do aniversário de Cuiabá no baú das lembranças. Tirei dele o registro de que há 10 carnavais, em 2013, antes do evento da Copa do Mundo no Brasil, a então Cidade Verde (outra recordação) era uma das estrelas no carnaval carioca. Foi em fevereiro de 20213 que a homenagem da comunidade da Mangueira embarcou no sonhado trem cuiabano a Estação Primeira e cruzou a pista do Sambódromo da Marquês de Sapucaí levando Cuiabá para o mundo até a Apoteose de Oscar Niemeyer.


Clique AQUI para acessar o álbum Mangueira carnaval 2013 no Flickr


Com o enredo do carnavalesco Cid Carvalho “Cuiabá, um Paraíso no Centro da América” a verde e rosa levou o disputado prêmio Estandarte de Ouro de Melhor Escola de Samba e mais: Porta-bandeira (Marcella Alves), Revelação (com Matheus Olivério, então 3 mestre-sala e, hoje, o titular do casal que conduz o pavilhão da Estação Primeira) e da Ala da Baianas...

A escola, depois da paradona da bateria no ano anterior, literalmente dobrou a aposta e levou duas baterias para a Sapucaí, feito inédito nos desfiles, mais uma ousadia de seu presidente, Ivo Meirelles.

Décimos preciosos foram perdidos, o que prejudicou a posição final na disputa oficial, justamente no último carro, o da Copa do Mundo, inspirado em obras do artista plástico João Sebastião. Ele também assinou as camisas de diretores, coordenadores e apoios da escola.

Aconteceu um causo beeeem cuiabano na perda da pontuação que deixou à Mangueira o oitavo lugar em 2013. É que uma borboleta, parte da última alegoria controlada por fios, se rebelou e, diante da festa ma-ra-vi-lho-sa que via embaixo de suas asas inquietas, resolveu não sair da pista! Para tanto se agarrou na torre de transmissão de imagens da Tv. Justamente em frente ao último módulo de julgadores...

Dez anos depois essas são lembranças de uma Cuiabá que ainda espera a chegada do trem que saiu da Estação Primeira. João partiu e a cidade não parou. Nem ela, nem o estado hoje dividido que não se lembra ou reconhece, por exemplo, seus filhos, os do Mato Grosso uno.

É que, parece, a praia da cultura e do refinamento, assim como a minha aqui no Arpoador, ficou pequena e está ocupada por quem desconhece séculos de histórias. Como as dos que fizeram dessa terra o Paraíso no Centro da América.

 *Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Texto strike das séries “Parador Cuyabano”, “Arpoador” e “É carnaval”, do SEM FIM... delcueto.wordpress.com




Studio na Colab55

domingo, 9 de novembro de 2014

Designers de Offenbach exploram a Cidade do Samba

Offenbach 141105 019 Cidade do samba Petra Peter Werner bonde da Alegria
Texto aqui e mais fotos  de Valéria del Cueto da visita no site carnevalerio.com
A Semana Design Rio que está agitando o final de semana no Rio de Janeiro. Foi no “IED – Mostra sua cara”, um evento paralelo que, para matar minha curiosidade sobre a “Exposição Lixo e Luxo”, acabei embarcando num desafio para lá de prazeroso.
O IED é o Instituto Europeu de Design, agora com um braço brasileiro no antigo Cassino da Urca e, em parceria com o Design na Praça, projeto da designer Angela Carvalho, apresentava a exposição composta de trabalhos de alunos da Universidade de Offenbach.
O que atraiu minha atenção no trabalho da universidade alemã foi justamente o título. No primeiro semestre publiquei um texto sobre lixo, descarte e reaproveitamento dos materiais das Escolas de Samba. O título do  artigo? “Até nosso lixo é um luxo”...
Atraída pelo tema, procurei mais informações e  Angela me apresentou os professores alemães que vieram participar do evento. Conversa vai, conversa vem, o contato acabou gerando uma programação extra na atribulada agenda dos mestres europeus. Tive o prazer de guia-los  num tour  pela Cidade do Samba apresentando-lhes nossa “fábrica de sonhos”.
Não precisa dizer que, mais uma vez, o carnavalesco Cid Carvalho, este ano desenvolvendo o enredo “Agora chegou a vez, vou Cantar: Mulher de Mangueira, Mulher Brasileira Em Primeiro Lugar!” na verde e rosa, gentilmente abriu para os professores um novo olhar sobre nossa festa ao recepcionar-nos no barracão da Cidade do Samba.
Cid permitiu que fizéssemos uma visita ao complexo em que pude apresentar aos professores de design Petra Kellner e Peter Eckert, o vice-presidente da Universidade de Arte e Design de Offenbach, e ao fotógrafo Werner Lorke, o processo de criação e as etapas de produção do enredo de 2015.
Como isso foi feito? Em inglês! E quer saber? Nunca fiquei tão satisfeita por ter escolhido num trabalhos que apresentei na cadeira de Gestão de Escola de Samba, da professora Nilcemar Nogueira, na Faculdade de Gestão Carnavalesca, na Estácio de Sá, o tema “Barracão de Sonhos, Fábrica de Carnaval”. Afinal, vem dali o interesse pela a pesquisa fotográfica que tenho realizado nos últimos anos sobre a espacialidade da Cidade do Samba.
Foi dele que pesquei as informações que repassei de memória para os especialistas em design enquanto percorríamos o barracão da Mangueira.
Depois fizemos um giro pela área central da Cidade do Samba onde eles tiveram a oportunidade de explorar mais livremente diversos tipos de equipamentos, como alegorias antigas e chassis que estavam do lado de fora dos demais barracões. O barracão guarda segredos impenetráveis do que será apresentado no desfile de Carnaval, lembra? Portanto, nada de fotos e registros comprometedores no seu interior...
Já no final do passeio cruzamos com Renato Almeida, presidente da São Clemente. Renatinho nos convidou a fazer um “raid” no barracão clementiano, onde está sendo preparado, pela carnavalesca mais premiada do Sambódromo, Rosa Magalhães, o enredo “A incrível história do homem que só tinha medo da Matinta Perera, da tocandira e da onça pé de boi” sobre o genial Fernando Pamplona. Foi uma aula sobre o ícone do carnaval carioca.
É claro que eles ficaram  muito impressionados pelo processo produtivo do carnaval do Grupo Especial das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Entre os milhões de detalhes e informações chamou a atenção o carinho, a dedicação e a alegria dos trabalhadores dos barracões que não pouparam esforços para mostrarem, com muito orgulho, o capricho do trabalho espetacular feito pelo povo do carnaval.
Em nome dos visitantes - e no meu também, que tive o privilégio de guiá-los, agradeço  a receptividade e a calorosa acolhida que tivemos!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É carnaval”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com
GRAVATA 
Impressionados pelo processo produtivo carnavalesco chamou a atenção dos professores alemães a alegria dos trabalhadores, orgulho do povo do carnaval.
ILUSTRADO TER A A S BADO     NOVEMBRO  2009