Texto e foto de Valéria del Cueto
Está aberta a temporada do checkup, o que faz do querido
e indispensável caderninho, onde escrevinho minhas crônicas, o campeão
imbatível de audiência literária e cotidiana.
Ele é a melhor companhia enquanto aguardo a vez de
ser atendida e evita que eu tente descobrir por que agora a clínica que
frequento criou mais um balcão para que os pacientes atinjam o nirvana dos
sofisticados aparelhos ultrassonográficos e afins.
Chama-se “pré-atendimento” informa a placa e faz com que percamos mais tempo numa nova,
emocionante e inútil fila. Segura, peoa!
Estou quieta. Mas não me deixam em paz. Acabo de ser
informada que a Golden Cross não autorizou a realização dos exames solicitados
pelo médico.
O motivo? É automático: faz menos de um ano que fiz
a última volta olímpica nas clínicas e laboratórios. Eles querem saber por que
adiantei em 2 meses meu último checkup.
Pensei em várias respostas, umas mais educadas,
outras com alguma picardia... Mas, nenhuma tão boa quanto a da atendente da
clínica que resumiu assim minha última pendenga:
- Alguém faz exames médicos por esporte? - pergunta.
O melhor foi a envesgadinha do olhar que acompanhou
a observação da moça.
Falou e disse menina! Resumiu perfeitamente a ópera
bufa dos clientes de planos de saúde no nosso Brasil varonil...
Ou seja: é ele, o plano, que decide quando você pode
precisar usá-lo!
É claro que isso, mediante a módica quantia de quase
um salário mínimo de mensalidade.
Alguém pode chamar a polícia pra fazer o seu papel?
Botar em cana essas quadrilhas homologadas pelo governo federal?
Enquanto me informo sobre o procedimento, finalmente
autorizado, a senhora do guichê ao lado me parabeniza, com os olhos cheios de
inveja (boa):
- Parabéns, milha filha, sorte sua. Pelo mesmo
motivo tive de adiar meus exames ano passado. Não consegui essa autorização –
diz ela, com olhos cansados.
Ah, se fosse comigo! Quer dizer que se tiver que
viajar no mês que o plano bondosamente decidiu que estou apta para fazer os
exames e magnanimamente se dispõe a autorizá-los, ou, quem sabe, meu médico
tenha conseguido um encaixe na sua lotadíssima agenda antes da temporada
autorizada, perdi?
Sei não. Talvez seja melhor mandar os planos de
saúde catar coquinhos e procurar uma UPA! Tão lindas, tão vazias e eficientes! Tão cheias de
recursos e de médicos e enfermeiras sorridentes nos reclames institucionais
(pagos com nosso suado e vilipendiado dinheiro) do governo...
Quem diz e mostra essas ilhas de tranquilidade e bom
atendimento é a propaganda oficial, disseminada e massificada nos horários
nobres das TVs, rádios, jornais e redes sociais.
Bom, diante dessa última reflexão e suas inúmeras
possibilidades, decidi pedir ao meu médico outras autorizações. Acho que
preciso de novas avaliações, desta vez, numa especialidade inédita no meu prontuário
medico/hospitalar.
Só um psiquiatra para me
ajudar a cair na realidade e deixar de aventar hipóteses e possibilidades
mirabolantes que existem apenas nos contos da carochinha, nas propagandas
enganosas e nos discursos de políticos sem vergonhas!
*Valéria
del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte
da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM...
delcueto.wordpress.com

Nenhum comentário:
Postar um comentário