O hábito que continua na moda em Cuiabá
Valéria del
Cueto
Especial
para o Diário de Cuiabá
Estou impressionada com a quantidade e a qualidade de fumantes que tenho
encontrado em
Cuiabá. A atitude politicamente
correta e saudável de abandonar o habito de ter sempre um cigarro na mão não
parece ter sensibilizado a maioria da população local, quica estadual.
Começo a achar
que a nicotina seja essencial para manter o ânimo no calor senegalês que faz
por aqui. Talvez inspirar a fumaça provoque uma momentânea alteração na
temperatura corporal, aliviando um pouco a sensação térmica, sei lá... O fato é que a ala dos fumantes é ampla maioria nestas plagas.
Aí está, mais
uma provável explicação para a longevidade do Chopão nas paradas de sucessos da
Cidade Verde. Salsicha, garçom do local há mais de 20 anos, me deu a luz: lá não
há área de fumantes, a casa é toda aberta, o que faz do local o paraíso dos
pitadores inveterados de plantão.
No Getúlio, me
contam que a área de fumantes tem ar refrigerado. Juro que fiquei preocupada.
Lembrava que no meio do pátio havia uma árvore enorme e linda. Se colocaram ar
refrigerado em todo o espaço, o que haveria acontecido com ela?
A dúvida virou
uma baita surpresa quando a vi, numa excursão ao antigo pátio lateral do
estabelecimento. Ela esta lá. Linda e imponente. Cercada de vidro por todos os
lados, isolada da fumaceira gerada pelos frequentadores. Fumaça, esta, imperceptível
pois deve ser sugada por um sistema de exaustores poderoso.
Vivinha da
Silva, a árvore que já serviu de base no passado para apoio do data show que
gerava imagens no telão da casa, hoje é uma peca preservada e ainda tem
diversas utilidades decorativas servindo, inclusive, de suporte para vários
vasos de outras plantas. Todas elas muito bem cuidadas e aparentemente felizes.
Esta e a Cuiabá
moderna, encontrando soluções criativas para preservar suas tradições, entre
elas o direito (fora de moda no resto do pais e no mundo civilizado, insisto)
de fumar.
O Ministro da Saúde,
Jose Gomes Temporão ainda não se deu conta do prato cheio que teria por aqui.
Há uma população inteira para catequizar.
Mas um dia,
quando o índice de óbitos e doenças decorrentes do consumo do cigarro começar a
se refletir nas estatísticas do Ministério da Saúde, principalmente nos cu$to$
de tratamento de doenças provocadas pelos inúmeros males provocados pelo
cigarro, aí Mato Grosso vai chamar a atenção (adoramos celebrar o fato de
sermos os primeiros, os mais, etc...)
Infelizmente,
com um destaque tão vergonhoso quanto o que temos hoje em dia nos quesitos educação
(vide nossa incrível colocação no ENEM e também nossa performance no exame
nacional da OAB) e meio ambiente (neste caso, não e preciso nem citar nossa posição
no ranking, não apenas nacional, mas também mundial).
Alguns
leitores, com quem tenho me encontrado nos últimos dias, vão pensar com seus botões.
“Mas o que e que a Valéria esta falando? Ela sempre me pede um cigarro quando
nos encontramos!” E verdade, sou um caso quase perdido não fosse o fato de que,
quando não estou em
Mato Grosso , não costumo sucumbir ao vício.
Acontece que acho que não há nada mais chato do que ficar pedindo para os
amigos que respeitem meus direitos de não fumante. Por isso, adoto a antiga e
sabia máxima: em Roma, haja como os romanos.
Aqui, ajo como
os locais: caio no crime, esqueço minha saúde e ainda ajudo os parceiros. Cada
cigarro que acendo e um a menos no pulmão alheio.
Quando (e se)
voltar pro Rio no final do ano, retomo meus hábitos saudáveis, educados e
civilizados de não fumante. Até lá, me solidarizo com a atitude politicamente
incorreta dos amigos e rezo para que esta incongruência existencial não me
traga maiores prejuízos...
*Valéria del Cueto e jornalista, cineasta, gestora de carnaval e colabora com o DC Ilustrado. Este artigo faz parte da série Parador Cuyabano
