quarta-feira, 28 de setembro de 2005

Revisita Selvaggia, de Ronaldo Werneck

Category:   Books

CONCRETO NAS SELVAS
Segundo Luiz Ruffato, é insano tentar firmar as referências da arte de Ronaldo Werneck

Creio que talvez possamos admitir que exista um movimento artístico intitulado ''pós-modernismo'' e que sua característica primordial seja a intertextualidade, ou a explicitação do diálogo que estabelece com a própria arte. Explicitação porque não só admite, como denuncia sua filiação. Nesse sentido, pós-moderno é Ronaldo Werneck, que em 1976 lançou a primeira edição, agora revisitada, deste Selva selvaggia. Em boa hora, aliás, pois há tempos quem quisesse conhecer esse livro, elogiado à época por humores tão díspares quanto Moacy Cirne e Luiz Carlos Maciel, Wilson Coutinho e Fábio Lucas, deveria pedi-lo emprestado a leitores ciumentos ou buscá-lo em empoeirados sebos.

Em Ronaldo Werneck, tarefa insana seria tentar firmar as referências de sua arte, pois onivoramente o poeta constrói seus textos, cujo resultado é como um sofisticado molho que leva inúmeros condimentos, mas de tal forma que o sabor final, embora saiba a cada um deles, torna-se num outro, único e indissolúvel.

0 autor salpica ali e aqui predileções, mas, sabiamente, nós, os leitores, devemos desconfiar de tamanha generosidade. Isso porque se nos deparamos num poema com ecos (evidentes) de Mallarmé, noutro ouvimos (distante) escansões de cantigas de ninar, espraiadas numa mágica infância.

Que a paixão de Ronaldo Werneck pelo cinema torna-se neste livro quase obsessão é um fato. Basta tomar seu depoimento - Selva selvaggia tem como epígrafe uma ''tirada'' de Glauber Rocha e foi estruturado como se fosse um filme - e perceber a presença, além do genial baiano, de Eisenstein e Fellini conduzindo ''tomadas''.

E toda a terminologia nos remete ao universo fílmico: são cortes, montagem, takes, planos, seqüências, argumento, cenografia, roteiro, direção.

Mas é a arte literária que se esparrama em cada recôndito dessas 424 páginas. E, se são vários os interlocutores de Ronaldo Werneck, não o é sua filiação. Ele se forma claramente entre as hostes dos barulhentos bárbaros que questionam o estabelecido, que se rebelam contra o antigo, que se batem pelo novo.

Nesse sentido, é no ''pensamento concretista'' que ele se radica - não no concretismo, mas na ''tradição concretista'': Gregório de Matos Guerra, Sousândrade, Oswald de Andrade, Augusto e Haroldo de Campos, no Brasil; Mallarmé, Rimbaud, Pound, Maiakóvski, Cortázar (sim, Cortázar, o ficcionista, o ensaísta), no exterior.

Cônscios, agora, deleitemo-nos com o que se oferece aos nossos paladares: Ronaldo Werneck. (Luiz Ruffato)


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