domingo, 25 de junho de 2006

DE TODAS AS BANDAS












texto e foto de Valéria del
Cueto
fevereiro
de 2006





De um lado, mineiros. Do
outro, argentinos. Não há mais paraíso isolado na face da terra... Se está
assim na Ponta, imagina no resto da cidade... Não vou nem falar somente das
praias que, ultimamente, sofrem invasões muito piores e tão intensas quanto.

Não, não é preconceito. Os
rapazes mineiros jogam frescobol e, para não prejudicar um dos participantes da
peleja que, pela posição do sol, teria sua visão ofuscada, a dupla conseguiu se
posicionar de uma maneira que 89% das bolas erradas e perdidas virão
diretamente para o alvo formado por minha canga e esta que vos descreve a
situação. Paciência e tolerância.







Pelo menos, eles não
seguiram o exemplo de seus animados e gastronômicos conterrâneos que trouxeram
um porco - isso mesmo, um porco - cavaram um buraco e pretendiam assá-lo em
pleno final de semana, lá no Leblon.





Apareceram na televisão,
ficaram famosos na cidadezinha de origem, mas pagaram o maior mico para o
restante do Rio e do país. E não é que a mineirada ainda ficou ofendida quando
“as autoridades” intimaram a turma a desmanchar a churrasqueira e ir assar seu
leitão em outra freguesia?





Pronto! A segunda bolada me atingiu. Mais uma,
aviso, e eles terão que ir buscar a bolinha lá pras bandas das ilhas Cagarras.
É bom que algum deles saiba nadar mais do que eu... Convenço a dupla a procurar
outra quadra na praia deserta que habitamos e deito de bruços, numa guinada de
centro e oitenta graus.





Ô, ou... argentinos. Uma
família. A filha adolescente usa um biquíni com estampa da bandeira brasileira.
A mãe, de bustiê e short de lycra, toma chimarrão numa cuia. A menina caiu de
boca num pacote de biscoito Globo, nosso bom e velho biscoito de polvilho, que
freqüenta a praia carioca a gerações. Salgado. Ao lado das cadeiras alugadas, o
kit portenho tem de tudo: baldinho, pazinha, filtro(s) solar(es), raquetes de
frescobol (!) e ... a bolinha. Também tem a garrafa térmica e a já citada cuia
de chimarrão.





Cheguei ao meu limite. Eles
também começam a jogar frecobol, mas, assim como os mineiros, na perpendicular
da linha do mar. Mais do que um recibo, já que a minoria carioca costuma
praticar o esporte jogando paralelamente a água, eles nos dão a impressão de
que são donos do pedaço.

Ao menos durante o verão,
por que todo mundo sabe: no resto do ano, a praia é nossa. Só nossa e, nela,
frecobol se joga na beira da água...







Bom, vou terminado este
artigo, não sem antes informar que acabo de ser interrompida, nas minhas escrevinhações,
por um rapaz que me pede para cuidar de suas coisas, enquanto dá um mergulho.



Em tempo: pelo sotaque, ele
é gaúcho. Por seu comportamento no mar, pegando algumas ondas de peito, sabe o
que está fazendo. O mundo ainda não está perdido, diriam meus ancestrais, do
mesmo costado.









Valeria del Cueto é
jornalista e cineasta

liberado para reprodução com o devido crédito
http://delcueto.multiply.com
Este
artigo faz parte da Série "Ponta do Leme"










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