Manda quem pode, obedece...
Ler jornal na praia em dia de vento é uma arte. Não falo dos tablóides. Refiro-me ao tamanho clássico. A idéia me vem à cabeça enquanto aguardo pacientemente a ventania amainar para deixar as páginas de política e cair dentro das notícias cariocas.
Este é um dos segredos para manusear as folhas voadoras. Nunca lute contra o vento. Você jamais vai vencê-lo. Muita prática no esporte ensina que o caminho das pedras é usá-lo a seu favor. Mude você de posição, conforme viram as páginas dançarinas. Não tente levá-las para junto das outras irmãs. Use a força eólica para induzi-las a se conduzirem para a posição correta. A leitura do jornal requer, sim, muita prática e maior habilidade.
Não há diálogo com o vento inconstante. Em alguns momentos, inexistente e logo depois desvairado e desorientado.
Outro segredo é a paciência. Não adianta se desesperar quando as páginas 3 e 4 resolverem dar um alô para a coluna do Ancelmo do outro lado do primeiro caderno.
Paciência! Quando a maré aérea recuar, haverá um tempo (algumas vezes meteórico) para um reagrupamento das seções. Até lá, há que se limitar a ler o que estiver a sua frente. Sem nem um suspiro que permita uma nova ordem das correntes de vento. Se isso acontecer, é capaz da coluna da Miriam Leitão querer fazer uma visitinha rápida a do Merval Pereira. A “coisa” em suas mãos pode ficar incontrolável, já que as referidas colunas estão em cadernos diferentes do jornal. Ops...
Técnica, paciência e a hora de saber recolher a papelada. Este é o terceiro segredo.
Quando, em plena leitura, você começar a ouvir o papel flap,flap,flap,flap, batendo entre seu braços, enquanto, entre eles, uma barriga de folha vai e volta como os abdominais que juramos a cada manhã fazermos até o final do dia, é hora de recolher o acampamento, puxar o manche e as páginas de sabedoria cotidiana que se agitam revoltadas com seu abraço. Ele, o jornal, está cansado, indisponível, insatisfeito com sua rotina de Penélope, de dizer e desdizer, dia após dia, os fatos que se repetem edição após edição.
Está certo que lê-lo é a desculpa perfeita para estar na praia numa manhã de terça feira com cara de segunda, mas a força física que tenho nas mãos embalada pelo vento da manhã me aconselha no assobio da ventania: “Deixe essa vida bandida retratada nas minhas entranhas, largue páginas repletas de falcatruas, politicagens, arbitrariedades e desonestidade latentes. Dedique-se a parte boa da vida. Ela não está no mundo relatado, está no seu habitat natural. Faça do vento que a permitiu minha revolta por ser, mensageira das mazelas mundiais, seu confidente e amigo e ele lhe dirá: centre-se na praia, viva o Leme, que você ganha muito mais”.
O que fazer, senão acatar tão sábia sugestão? A Ponta me espera, eu posso aprender a esperar também...
Ps: Quer comentar o artigo? Mande um email para delcueto.cia@gmail.com
Valéria del Cueto e jornalista e cineasta
liberado para reprodução com o devido credito
http://delcueto.wordpress.com
Este artigo é mais um da Serie "Ponta do Leme"
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9 comentários:
Há uma técnica de dobrar as folhas em duas. Aí o jornal fica uma vertical fininha e geralmente a dobra coincide com a tabulação das colunas. Mesmo assim é danado.
Sou adepta, mas funciona para ventos fracos e/ou moderados, daí pra frente, é difícil explicar pra meia folha vertical sua importância tática no contexto...
Muito bom texto.
Paulo, a inspiração é tudo e tudo pode ser fonte de inspiração...
se eu tiver junto seguro o jornal pra vc ler,,,,,rs
Pensa que é fácil, é?
Mas agradeço a gentileza.
I would like to dive off that cliff------where it says "no swimming !!"---in Portuguese !!......Hi Honey
Wait, Dave, may be in august... rsrsrsr
espera - esperança
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