quarta-feira, 2 de julho de 2008

Vento bom e passaporte...



Vento bom e passaporte: a gentileza federal



Valéria del Cueto*
Especial para o Diário de Cuiabá

Para tirar o passaporte na Polícia Federal de Cuiabá, o vento estava a favor. Aliás, o vento, não: a chuva fina que riscava o céu da Cidade Verde em pleno abril. Como observadora e anotadora das idas e vindas dos ventos e mares da Ponta do Leme, ao chegar a Cuiabá testemunhei um evento estranho ao cotidiano climático dos mais de 15 anos que aqui vivi nas décadas de 80 e 90 e nos dois primeiros anos do novo milênio em que hoje transitamos.

O frio chegou de mansinho, após uma chuva fina que inundou o asfalto e fez subir aquele cheiro inconfundível de terra molhada, uma semana depois de uma daquelas típicas tempestades cheias de raios, trovoadas e clarões.

Não lamento as novidades no cotidiano meteorológico da cidade, apesar de temer a hipótese de que a água que agora cai, venha a fazer uma falta danada nos meses de secura que virão em breve.

Mas, para o momento e o movimento que faço, as condições de tempo e temperatura estão mais que favoráveis. Afinal, sei o que demanda, no sul-maravilha, o esforço sobre humano necessário para tirar ou renovar o passaporte na policial federal: é preciso madrugar, enfrentar filas para pegar a senha e esperar mais que um par de dias para iniciar o procedimento. Eu disse dias? Dependendo da boa vontade dos computadores, e outras variáveis, os dias podem até virar meses...

Com este espírito de monge tibetano adentrei o prédio da PF em Cuiabá numa tarde de quinta feira, pensando em iniciar uma longa maratona burocrática. A primeira surpresa foi a ante-sala cheia de cadeiras... vazias. Uns três gatos pingados aguardavam atendimento: munida de minha senha aguardei, no máximo, uns 10 minutos para ser atendida por um gentil(!) agente que conferiu meus documentos e explicou o procedimentos a ser seguido: tirar uma guia, pagar no banco e voltar à PF. Faltavam 10 minutos para o banco fechar quando sei de lá rumo a agência que fica a algumas centenas de metros, subindo pela avenida do CPA.

Cheguei na marca do pênalti, paguei a taxa e tal qual Gene Kelly, cantando na chuva de voltei à Federal. No caminho, para comemorar a freeway burocrática em que estava transitando, aproveitei para tomar um picolé de abacaxi. Foi saboreando o gosto de infância que cruzei pelos cajus, mangas e pacus de Adir Sodré que decoram as pilastras do viaduto que corta a avenida.

De volta à ante sala da Polícia Federal não precisei nem de senha para ter a sorte de ser atendida novamente por Odair Elias, o mesmo funcionários diligente e educado que havia me passado as instruções meia hora antes.

Após a checagem da documentação exigida, tirar a foto digital e registrar eletronicamente minhas impressões digitais, só me restava assinar o documento, o que foi feito numa folha de papel engenhosamente presa num espaço entre duas réguas, para delimitar a área de ‘escrivinhação’. Comentei com o agente o detalhe de ser a máscara, a única coisa artesanal de todo o processo. E, aí, outra surpresa. Ele disse ser o criador do objeto, visando facilitar a engenharia de produção da obtenção do passaporte.

Para fechar com chave de ouro o desempeno da operação fui informada que o documento ficaria pronto em 7 dias úteis. Saí de lá em menos de 40 minutos, achando que estava em outro país. Eficiente, ágil e, o melhor, onde somos atendidos com simpatia e bom humor.

A chuva que continuava caindo apenas confirmou minha impressão de que estava vivendo um sonho e tudo aquilo não passava de uma miragem. Afinal, contando ninguém ia acreditar que o clima em Cuiabá estava fresco e agradável e que eu havia feito um passaporte novo em menos de duas horas. Sorte que tenho em mão o protocolo de atendimento para comprovar meu feito burocrático e que testemunha a minha façanha.

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval
Este artigo faz parte da série Parador Cuyabano


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