domingo, 17 de agosto de 2008

O lado bom do lado mau


O lado bom do lado mau

Texto e foto de Valéria del Cueto

Karma. Voltei a Mato Grosso para terminar algo que deixei incompleto há 20 anos atrás. Uma tarefa chata, burocrática, entediante. No meio do caminho descobri outro desafio, este mais prazeroso e instigante. Mesmo assim algo que, em outros tempos ficou só na vontade, deixei pra trás.


Naquela época, a inquietação que ainda me move era potencializada. O que fazia que eu não começasse nada, por que sabia que não iria terminar. Cursos seminários, simpósios. Enfim, era só planejar, quando muito iniciar, para que um imprevisto quase sempre compensador mudasse o meu rumo, alterasse de forma radical o meu foco. Daí que, por uma questão de princípio de vida, eu evitava começar o que sabia que não terminaria.

Havia é claro, exceções, tentativas. Eram justamente essas que sempre eram interrompidas. E foram poucas, na minha santa ingenuidade, de tentar agir normalmente, entregar-me a uma tal rotina que hoje reconheço, nunca me aceitou em seu convívio...

Reminiscências a parte, o que vale é que finalmente consegui realizar um antigo desejo.
Adoro artes plásticas e amo História com h maiúsculo. Sou uma leitora voraz e frequentadora dos museus e galerias de artes plásticas dos lugares que consigo visitar mundo a fora ou a dentro.

Por isso, durante todos os anos que morei em Cuiabá sempre olhei com olhos de cachorro pidão o curso de História da Arte que a critica de artes plásticas corumbaense Aline Figueiredo ministra de tempos em tempos na cidade que escolheu para viver.

Eis senão quando, enquanto peleava contra a maldição burocrática inevitável e inadiável que jurei desenrolar, vi o anúncio de que haveria um “intensivão”. Um passeio por milênios artísticos na visão de Aline, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura e que, pra melhorar, a semana de aulas era gratuita.

Ai tentação... Lá fui eu para o Museu da Caixa d´Àgua, sem ter sequer conseguido fazer a inscrição, pleitear uma das 60 vagas pelo passeio audiovisual.

Amigos, a primeira aula, sobre a Antiguidade foi tão boa, que, mesmo quase morrendo de alergia pela umidade do lugar, não pensei em desistir do curso. E, mais disposta e animada fiquei quando, pelo bem da saúde de todos os alunos, no segundo dia, as aulas foram transferidas para o auditório da Sanecap. Este upgrade no quesito salubridade me deixou ainda mais entusiasmada com minha corajosa iniciativa de assiduidade noturna. O que, conforme você verá abaixo, não foi nenhum sacrifício.

Aline dá um banho. Não apenas pela qualidade da informação transmitida mas, também, pelo seu estilo de apresentar para leigos, curiosos e afins os principais movimentos artísticos através dos tempos. Tudo isso acompanhado por uma interessantíssima coleção de imagens das obras apresentadas num data show.

Não consegui notar a falta de nenhuma tendência no amplo leque de movimentos artísticos explorados e comentados por ela de forma interessante e espirituosa. Na terceira aula, a de arte contemporânea, já comecei a pressentir o vazio das noites que viriam quando as aulas terminassem.

Mal sabia eu que esta sensação estava apenas anunciando o que ainda estava por vir: se na história das artes mundiais Aline é craque, quando o assunto é a arte mato-grossense, ela é hors concours: nadou de braçada e, na sua análise, abordou, não apenas o movimento artístico contemporâneo de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, mas também um pouco da história recentíssima  (se compararmos com o período abordado no restante do curso)  do Brasil e do Centro Oeste.

Saí de lá tão encantada que estou firmemente decidida a transformar em vídeo a “viagem” pela riquíssima arte local que Aline nos apresentou.

O mais difícil, creio eu, já consegui: a autorização da crítica de arte para fazer o registro. Registro, diga-se de passagem, mais que merecido. Afinal, não é todo dia que podemos usufruir dos conhecimentos e das opiniões, no mínimo saborosas, (quem já assistiu as aulas sabe do que estou falando) emitidas entre um slide e outro do que há de melhor nas artes plásticas mato-grossenses por Aline Figueiredo.

Posso demorar, mas prometo me esforçar para realizar a tarefa e democratizar o que tive o privilégio de aprender nas inesquecíveis noites quentes cuiabanas, regadas ao que há, para mim, de melhor e mais valioso por aqui: a genuína cultura de nossa  gente.
E assim, de um carma que se cumpre nasce um desafio real, palpável e proveitoso para meu promissor futuro  em Cuiabá.  E vamos a ele...

*Valeria del Cueto e jornalista, cineasta e gestora de carnaval
Este artigo faz parte da serie Parador Cuyabano