sexta-feira, 12 de agosto de 2005

A Luz de Carla





CONTINENTE MULTICULTURAL

Edicao Nº56 - Agosto de 2005




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CINEMA A Luz de Carla

Carla Camurati coleciona exitos: comemora os 10 anos da retomada do
cinema nacional com Carlota Joaquina; e tema de biografia e esta prestes a lancar
mais um longa, Quem tem medo de Irma Vap?





















Por Valeria del Cueto



        Chamar-se Luz Natural o livro sobre uma pessoa como Carla Camurati pode parecer
estranho para alguem que analise seu curriculo. Afinal, e entre holofotes,
refletores, sun guns e flashes que ela circula com maior desenvoltura. As luzes
mais comuns a atriz, roteirista e diretora sao as dos estudios, locacoes
cinematograficas e bocas de cenas. E sob este tipo de iluminacao que Carla
brilha para o publico externo em suas atuacoes na televisao, no teatro e no
cinema, em suas criacoes para as telas e palcos.






        Mas Luz Natural e um titulo que faz justica e sintetiza a historia de Carla
Camurati, contada pelo critico Carlos Alberto Mattos, autor, entre outros, de
Walter Lima Jr. – Viver Cinema( Casa da Palavra, 2002) e Eduardo Coutinho – O
Homem que Caiu na Real (Festival de Santa Maria da Feira/ Portugal, 2003) . O
livro, de 311 paginas, e lancamento da Colecao Aplauso/ Perfil, concebida e
editada pela Imprensa Oficial do Estado de Sao Paulo. Foram mais de 20 horas de
conversas gravadas em oito encontros, entre novembro de 2003 e marco de 2004.
Deste material nasceu um livro-depoimento, ilustrado com fotos biograficas,
onde Carla conta suas historias, origens, infância e juventude, descobertas,
lugares, pessoas comuns, personalidades, estrelato, oficio de atriz, opcao pelo
fazer cinema, o prazer em produzir e distribuir.






        Se Carla pensou que, ao se deixar desnudar biograficamente (fotograficamente
isso ja aconteceu duas vezes), estaria fornecendo elementos que acabassem com
os mitos que envolvem sua trajetoria, enganou-se. Ao expor suas verdades e
defender suas escolhas, desvenda as pontes construidas entre as diversas
atividades em que se envolveu neste percurso, mas acaba tornando-se refem de
uma nova imagem: a que se deixa iluminar por esta verdadeira Luz Natural.






        E impossivel nao admirar a forma clara e direta como ela se relaciona com seus
medos e fantasmas (mesmo que, confessadamente, a custa de muita analise e
terapia): encara seus desafios e derruba o que, para outras pessoas, poderiam
ser barreiras intransponiveis. A cara bonita ajuda? Os olhos de anjo favorecem?
Engano. Da propria beleza, apenas o desafio de fazer o belo. E, isto, se tiver
um objetivo mais profundo, de preferencia ligado as questoes e indagacoes artisticas
e sociais do seu tempo.






        Sua infância e adolescencia na Zona Sul, remete a lugares e situacoes comuns a
juventude carioca dos anos 70 e ja desperta um objeto de desejo: quem nao
gostaria de, quando crianca, apagar de tanto comer doces feitos pelo avô
Enrico, sentada numa bancada de marmore na cozinha do Copacabana Palace,
fazendo o papel, junto com sua irma Carina, de provadora oficial dos quitutes
servidos no tradicional cha de domingo do famoso hotel, icone da cidade do Rio
de Janeiro? E foi como outros de sua geracao que largou a Biologia pelo curso
de teatro de Gilda Gilhon e Buza Ferraz, anunciado num cartazete colado na
parede da lanchonete, em frente a qual jogou – literalmente – no lixo todos os
cadernos e anotacoes das aulas da faculdade.





        Carla chegou ao estrelato. Comecou no teatro, fez programas especiais para
televisao, brilhou em novelas. Mas continuou procurando. Foi parar em Sao Paulo
onde descobriu o cinema e, nele, se sentiu em casa. La, fez seus dois
curtas-metragens: A Mulher Fatal Encontra o Homem Ideal, 1987, e Bastidores,
1988.





        Em plena desmontagem do cinema brasileiro, comecou a produzir Carlota Joaquina,
a Princesa do Brasil,1995. Passada uma decada, o filme e a diretora sao
aclamados como responsaveis pela retomada do cinema nacional. A historia da
vinda da corte de Dom Joao VI para o Brasil, estrelada por Marco Nanini e
Marieta Severo, atraiu as salas de exibicao brasileiras um publico superior a
um milhao e trezentos mil espectadores. Ela divide os louros: Nao me vergo ao
peso do titulo de heroina da retomada. Carlota fez um movimento de virada,
resultado de uma quimica coletiva, em que eu apenas segurava a bandeira. Barbara
mesmo foi a distribuicao do filme acrescenta com um brilho no olhar.





        O tom dado a Carlota a levaria a dirigir operas. E La Serva Padrona (1998) nas
telas. Teoricamente, o filme teria um publico restrito. Apostando na formacao
de um novo publico, Carla o faz chegar as escolas. O Projeto Escola apresentava
as criancas um mini-cenario de opera e desvendava alguns dos segredos do fazer
o espetaculo. O lucro da bilheteria do filme foi redirecionado para a compra de
mais ingressos, distribuidos gratuitamente nas escolas publicas.





        No livro, estao descritas algumas caracteristicas do seu jeito de fazer cinema:
a preferencia em filmar quebrado (no caso de Carlota Joaquina, foram seis
semanas de filmagens, divididas em oito meses); uma pratica complicada hoje em
dia, ja que, com tantas producoes acontecendo no pais, dificilmente seria possivel
manter uma equipe disponivel por tao longo periodo. Outra peculiaridade e o
tratamento dispensado a seus colaboradores: alimentados com vegetais vindos
diretamente do seu sitio em Teresopolis, no Estado do Rio, e tratados a base de
florais medicinais. Tantos cuidados atestam a conhecida docura de Carla,
contrabalancada com uma vontade ferrea e muita persistencia.





        Agora e a vez de Quem tem medo de Irma Vap?, projeto que esta finalizando. O espetaculo
ja havia sido tema de seu segundo curta, Bastidores. Novamente, Marco Nanini e
peca importante do quebra cabecas filmografico de Carla. Foi Dom Joao VI em
Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, o fotografo Alberto, em Copacabana
(2001), e volta em Irma Vap ao lado de Ney Latorraca, seu parceiro no sucesso
estrondoso da peca de Charles Dullam, O Misterio de Irma Vap, que gerou o
filme. O mesmo Nanini (e Fernanda Badaue) protagoniza um dos planos-seqüencia
preferidos da diretora, no filme Copacabana: a cena do grande baile, onde danca
iluminado pelos lustres do salao. Nao por acaso, o salao do Hotel Copacabana
Palace da sua infância.






(Leia mais na edicao 56 da Revista Continente Multicultural. Ja nas bancas.)






 







Valeria del
Cueto
e
jornalista e cineasta.





























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