Mostrando postagens com marcador biografia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador biografia. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Lendo e aprendendo

Lendo e aprendendo

Texto e foto de Valéria del Cueto
Confesso e assino em baixo. Não ia ter crônica essa semana. Cansada dessa esculhambação, acho que ela não merece mais nem uma mal tra(n)çada linha do meu esforço literário.

Este minifúndio tem sido insuficiente para listar as peripécias semanais que se acumulam nas prateleiras nos galpões dos absurdos diários que nos assolam.

Só a abstração quase total e certamente irrestrita ainda permite sonhar com uma nesga de felicidade, tranquilidade e/ou realização nessa avalanche que desce a ladeira da decência e dos bons costumes. Para tanto lanço mão de um refúgio solitário, mas cem por cento eficaz. Parto para o oposto da ignorância e me dedico ferozmente a leitura.

Melhor do que chafurdar no mar de lama que leva de roldão aqueles que, durante período recente, mandavam e desmandavam no pedaço. Além de revoltante é deprimente ver os resultados dos mal feitos (é assim que diz, né?) e das negociatas que levaram para o espaço direitos básicos de centenas de milhões de brasileiros. Falo de saúde, educação, segurança, saneamento básico e afins. Direitos comuns a todos, roubados por larápios incompetentes que nem tiveram a capacidade de esconder seus torpes movimentos.

Vá entender o funcionamento dos cérebros deformados que participaram de tantas barbaridades. A amoralidade, um sintoma de psicopatia, é um traço comum a corja que habita nossas principais câmaras governamentais. Só fechando o hospício e jogando a chave fora para parar com essa sangria.

Lendo a gente aprende, viu só? Por isso é fácil estabelecer uma rota de fuga literária que permita um respiro salutar entre uma delação premiada e uma barbárie, um drama humano e uma polêmica moralista. Diluídos em pílulas nas redes sociais...

Para não romper de vez com a humanidade que a duras penas tenta remar em meio a altas dosagens de informações, “fakenews” e os delírios provocados por cruzadas falso moralistas, optei por me aprofundar nas origens históricas da sociedade brasileira.

Depois dos excelentes livros de Laurentino Gomes sobre a chegada da corte portuguesa a colônia, os meandros da Independência e os episódios que levaram à Proclamação da República, juntamente com meu parceiro literário para assuntos históricos e militares, Jayme del Cueto, caí dentro de uma nova exploração pelo período do primeiro reinado brasileiro.

Confesso que fui instigada por uma novela global e as peripécias de Titília e Demonão. Mas aviso que resisti a tentação e, deixando para o final as cartas inéditas de Dom Pedro à Marquesa de Santos, optei por começar a leitura dos livros de Paulo Rezzutti, escritor e pesquisador paulista, pela biografia de “D. Pedro, a história não contada. O homem revelado por cartas e documentos inéditos”.

Então apresento o motivo do atraso e da quase não crônica: devorei o livro. Também já escolhi qual será o próximo. Entre as biografias de “Domitila, a verdadeira história da Marquesa de Santos” (finalista do prêmio Jabuti em 2014), e “D. Leopoldina, a história não contada. A mulher que arquitetou a independência do Brasil”, fiquei com a segunda. A arquiduquesa austríaca que, há duzentos anos, por um casamento de conveniência, veio bater nesses costados e, em sua breve passagem, mudou o destino e os rumos da história do Brasil.

Seres humanos! Cheios de defeitos e algumas qualidades. Como nós, capazes de, com seus gestos, escreverem a história que, hoje, poucos re-conhecem. Mas todos nós somos derivados de seus atos, assim como serão, no futuro, as gerações que virão, das atitudes que hoje tomamos.

Captou?

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa matéria faz parte da série “Cabine” do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

sexta-feira, 12 de agosto de 2005

A Luz de Carla





CONTINENTE MULTICULTURAL

Edicao Nº56 - Agosto de 2005




www.continentemulticultural.com.br




CINEMA A Luz de Carla

Carla Camurati coleciona exitos: comemora os 10 anos da retomada do
cinema nacional com Carlota Joaquina; e tema de biografia e esta prestes a lancar
mais um longa, Quem tem medo de Irma Vap?





















Por Valeria del Cueto



        Chamar-se Luz Natural o livro sobre uma pessoa como Carla Camurati pode parecer
estranho para alguem que analise seu curriculo. Afinal, e entre holofotes,
refletores, sun guns e flashes que ela circula com maior desenvoltura. As luzes
mais comuns a atriz, roteirista e diretora sao as dos estudios, locacoes
cinematograficas e bocas de cenas. E sob este tipo de iluminacao que Carla
brilha para o publico externo em suas atuacoes na televisao, no teatro e no
cinema, em suas criacoes para as telas e palcos.






        Mas Luz Natural e um titulo que faz justica e sintetiza a historia de Carla
Camurati, contada pelo critico Carlos Alberto Mattos, autor, entre outros, de
Walter Lima Jr. – Viver Cinema( Casa da Palavra, 2002) e Eduardo Coutinho – O
Homem que Caiu na Real (Festival de Santa Maria da Feira/ Portugal, 2003) . O
livro, de 311 paginas, e lancamento da Colecao Aplauso/ Perfil, concebida e
editada pela Imprensa Oficial do Estado de Sao Paulo. Foram mais de 20 horas de
conversas gravadas em oito encontros, entre novembro de 2003 e marco de 2004.
Deste material nasceu um livro-depoimento, ilustrado com fotos biograficas,
onde Carla conta suas historias, origens, infância e juventude, descobertas,
lugares, pessoas comuns, personalidades, estrelato, oficio de atriz, opcao pelo
fazer cinema, o prazer em produzir e distribuir.






        Se Carla pensou que, ao se deixar desnudar biograficamente (fotograficamente
isso ja aconteceu duas vezes), estaria fornecendo elementos que acabassem com
os mitos que envolvem sua trajetoria, enganou-se. Ao expor suas verdades e
defender suas escolhas, desvenda as pontes construidas entre as diversas
atividades em que se envolveu neste percurso, mas acaba tornando-se refem de
uma nova imagem: a que se deixa iluminar por esta verdadeira Luz Natural.






        E impossivel nao admirar a forma clara e direta como ela se relaciona com seus
medos e fantasmas (mesmo que, confessadamente, a custa de muita analise e
terapia): encara seus desafios e derruba o que, para outras pessoas, poderiam
ser barreiras intransponiveis. A cara bonita ajuda? Os olhos de anjo favorecem?
Engano. Da propria beleza, apenas o desafio de fazer o belo. E, isto, se tiver
um objetivo mais profundo, de preferencia ligado as questoes e indagacoes artisticas
e sociais do seu tempo.






        Sua infância e adolescencia na Zona Sul, remete a lugares e situacoes comuns a
juventude carioca dos anos 70 e ja desperta um objeto de desejo: quem nao
gostaria de, quando crianca, apagar de tanto comer doces feitos pelo avô
Enrico, sentada numa bancada de marmore na cozinha do Copacabana Palace,
fazendo o papel, junto com sua irma Carina, de provadora oficial dos quitutes
servidos no tradicional cha de domingo do famoso hotel, icone da cidade do Rio
de Janeiro? E foi como outros de sua geracao que largou a Biologia pelo curso
de teatro de Gilda Gilhon e Buza Ferraz, anunciado num cartazete colado na
parede da lanchonete, em frente a qual jogou – literalmente – no lixo todos os
cadernos e anotacoes das aulas da faculdade.





        Carla chegou ao estrelato. Comecou no teatro, fez programas especiais para
televisao, brilhou em novelas. Mas continuou procurando. Foi parar em Sao Paulo
onde descobriu o cinema e, nele, se sentiu em casa. La, fez seus dois
curtas-metragens: A Mulher Fatal Encontra o Homem Ideal, 1987, e Bastidores,
1988.





        Em plena desmontagem do cinema brasileiro, comecou a produzir Carlota Joaquina,
a Princesa do Brasil,1995. Passada uma decada, o filme e a diretora sao
aclamados como responsaveis pela retomada do cinema nacional. A historia da
vinda da corte de Dom Joao VI para o Brasil, estrelada por Marco Nanini e
Marieta Severo, atraiu as salas de exibicao brasileiras um publico superior a
um milhao e trezentos mil espectadores. Ela divide os louros: Nao me vergo ao
peso do titulo de heroina da retomada. Carlota fez um movimento de virada,
resultado de uma quimica coletiva, em que eu apenas segurava a bandeira. Barbara
mesmo foi a distribuicao do filme acrescenta com um brilho no olhar.





        O tom dado a Carlota a levaria a dirigir operas. E La Serva Padrona (1998) nas
telas. Teoricamente, o filme teria um publico restrito. Apostando na formacao
de um novo publico, Carla o faz chegar as escolas. O Projeto Escola apresentava
as criancas um mini-cenario de opera e desvendava alguns dos segredos do fazer
o espetaculo. O lucro da bilheteria do filme foi redirecionado para a compra de
mais ingressos, distribuidos gratuitamente nas escolas publicas.





        No livro, estao descritas algumas caracteristicas do seu jeito de fazer cinema:
a preferencia em filmar quebrado (no caso de Carlota Joaquina, foram seis
semanas de filmagens, divididas em oito meses); uma pratica complicada hoje em
dia, ja que, com tantas producoes acontecendo no pais, dificilmente seria possivel
manter uma equipe disponivel por tao longo periodo. Outra peculiaridade e o
tratamento dispensado a seus colaboradores: alimentados com vegetais vindos
diretamente do seu sitio em Teresopolis, no Estado do Rio, e tratados a base de
florais medicinais. Tantos cuidados atestam a conhecida docura de Carla,
contrabalancada com uma vontade ferrea e muita persistencia.





        Agora e a vez de Quem tem medo de Irma Vap?, projeto que esta finalizando. O espetaculo
ja havia sido tema de seu segundo curta, Bastidores. Novamente, Marco Nanini e
peca importante do quebra cabecas filmografico de Carla. Foi Dom Joao VI em
Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, o fotografo Alberto, em Copacabana
(2001), e volta em Irma Vap ao lado de Ney Latorraca, seu parceiro no sucesso
estrondoso da peca de Charles Dullam, O Misterio de Irma Vap, que gerou o
filme. O mesmo Nanini (e Fernanda Badaue) protagoniza um dos planos-seqüencia
preferidos da diretora, no filme Copacabana: a cena do grande baile, onde danca
iluminado pelos lustres do salao. Nao por acaso, o salao do Hotel Copacabana
Palace da sua infância.






(Leia mais na edicao 56 da Revista Continente Multicultural. Ja nas bancas.)






 







Valeria del
Cueto
e
jornalista e cineasta.