novembro de 2005
Famintos, sujos, indigentes, pedintes. Como tantos outros espalhados por todos os
lugares. Pedir pra quem dar um fim num vira-lata indesejado? Pra ele, sem eira nem beira igual ao cão, sem serventia ou valor. Dá-se um trocado e a consciência fica em paz. Um serviço como outro qualquer. Para “dar um jeito” quinze reais está de bom tamanho, é o vale-vida do animal.
lugares. Pedir pra quem dar um fim num vira-lata indesejado? Pra ele, sem eira nem beira igual ao cão, sem serventia ou valor. Dá-se um trocado e a consciência fica em paz. Um serviço como outro qualquer. Para “dar um jeito” quinze reais está de bom tamanho, é o vale-vida do animal.
O que ninguém esperava é que desamor atraísse dissabor e, assim, menino e cão virassem um só. E, pelo cão, o garoto faz quase tudo. Abre mão do seu cobertor, que passa a esquentar o animal sob a marquise que abriga menino e cão, cão e menino. Um colega lembra que conhece a moça, veterinária do bairro. Ela garante vacinas, consulta, ração e banho para o novo agregado. Não dizem que ele é o melhor amigo do homem? Sua comida, pedida, gelada, servida no alumínio, passa a ser dividida. O melhor para o cão, seu amigo mais fiel.
FAMÍLIA
A organização familiar do menino, seu cão - e os outros como ele - que se esforçam para atender as necessidades básicas do animal, motivo e ação de todas as decisões da rapaziada, chama a atenção de outra moradora do Leme.
A organização familiar do menino, seu cão - e os outros como ele - que se esforçam para atender as necessidades básicas do animal, motivo e ação de todas as decisões da rapaziada, chama a atenção de outra moradora do Leme.
Para colaborar com a frágil manutenção da ordem alcançada, ela doa para os meninos velhas contas, fio e bijuterias semi-desmanchadas. O lixo começa a se transformar.
Alguns passantes compram o produto do trabalho dos meninos que procuram se aprimorar: enquanto um cuida da banca, instalada no chão coberto com uma manta limpinha e cuidadosamente esticada - bem diferente do pano velho e desleixado dos primeiros dias - outro arruma um novo emprego, entregando marmitas na área. A bóia está garantida.
PECULIARIDADES
Este Leme é um bairro único... Mais um nativo resolve ajudar. Começam as aulas de confecção de colares, brincos e pulseiras. O que é produzido em classe irá para uma exposição de final de ano, afirmam orgulhosos os novos artesões. O negócio prospera e a decisão é comprar matéria prima para fazer mais peças. Excursão ao Saara. Não pra roubar, mas para tratar de negócios, comprar matéria prima...
O menino do cachorro, com o fruto da venda dos adornos e da entrega das marmitas, aluga um barraco no morro da Babilônia. Alex, o cachorro, explica ele cheio de orgulho, tem casa para morar. Não precisa mais passar o dia na rua. O menino sim, para garantir o sustento.
O tempo passa, a população é flutuante. Os negócios progridem, entre sucessos e desventuras. A pior delas, a traição. Fugiu com o salário do amigo e a “féria” da barraca. Deus vai cuidar dele preconiza com olhos tristes e ar filosófico, o vendedor, mudando de assunto para contar, cheio de orgulho, que as vendas estão a pleno vapor.
VIRADA
Uma nova, digamos, contingência da vida, mudou radicalmente o perfil do negócio. Foi no aniversário dele, dia 14 de setembro. Foi o maior presente...
Um dia nublado, as mercadorias expostas no beiral do antigo banco - que foi para a Princesa Isabel - para prevenir da chuva eminente. Baixou o rapa. Não deu tempo de fazer nada. Levaram tudo. Sem direito a recibo ou qualquer comprovante do recolhido. Se a mercadoria não tem nota fiscal, é por que é ilegal (!). Disseram que foi denúncia. Que eles
guardavam, durante a noite, as coisas num bueiro. Agora me diz, pra que? Se temos o barraco lá em cima, pergunta cheio de indignação.
guardavam, durante a noite, as coisas num bueiro. Agora me diz, pra que? Se temos o barraco lá em cima, pergunta cheio de indignação.
A perna ficou bamba, foi ele quem me contou. Uma moça, que assistia a cena, quando o rapa levantou, viu que ele estava muito nervoso, tremendo mesmo. A moça foi em casa e trouxe 7 livros velhos para ele não ficar sem nada, que os revendesse para não ficar no prejuízo total....
MOVIMENTO
Foi assim que começou. O Leme ganhou, informalmente, aquilo que tantos sentem falta no bairro. Temos uma livraria. As semanas passam. Os títulos, mais de 100, passeiam por diversos estilos. Os mais vendidos são as histórias, os romances e livros de bolso, ele me informa. Tem de três, cinco e dez reais. Enquanto cuida da banca, tira uma casquinha do produto. Leu vários. Seus preferidos são “O Sete do Vermelho”, “Os Filhos do Demônio” e “Herói Solitário”. Os nomes dos autores, ele não sabe, que é muita coisa pra guardar na cabeça e muito lugar pra conhecer, alega.
É aqui do morro mesmo. Trabalhava nas feiras de Copacabana, vendia biscoito e quase não estudou. Sabe fazer contas e, graças ao novo “negócio”, está adorando ler.
Aprendi tudo na rua. A vida me ensinou. Ensinou muito. Nos livros vou mais longe. Chego a lugares que nem sabia existir. Ele tem orgulho do seu ganha pão. Diz que já vem cliente lá do meio de Copacabana. Explica que Copa tem pouquíssimas livrarias. A procura é grande. Como ele sabe disso tudo? Diz que é por que foi pesquisando o mercado. Perguntando para um, para outro...
Esta saga será escrita. Por mim. Aviso aos meninos que se esmeraram em contar os detalhes da pequena empresa, que, se depender deles, ainda virará um grande negócio...
Me despeço prometendo mostrar quando a matéria estivesse escrita. Já havia dito que achava muito bacana a forma com que eles estavam se “organizando”. E contá-la é uma forma de mostrar que é possível, sim, dar a volta na sorte.
REALIDADE
Cheguei da viagem a Manaus, o material prontinho. E eu louca para mostrá-lo aos meus protagonistas. Atrás de palpites, novos detalhes, opiniões.
Em vão. Tenho passado diariamente no local da banca. Ninguém. O negócio parou. Ficamos sem nossa livraria. É tempo ruim? Está tudo muito calmo. A marquise limpa. Nenhum dos meninos por perto. Pode ter sido o rapa. Passou novamente. Levando o futuro, a esperança de um dia, cultivada por tantos...
Só que, aqui no Leme, a gente sabe que recomeça de novo. Tudo. Sempre...
* Valeria del Cueto é jornalista e cineasta liberado para reprodução Este artigo faz parte da Série "Ponta do Leme", composto por “Até onde a Vista Alcança”, “Pré Visões do Tempo”, “O Rei da Praia”, “ Há os que não Gostam, Ora Pois” e “N.G. por VdC” e outros mais que ainda virão....
*
6 comentários:
Ótima crônica Valéria
Muito bem postas as vicissitudes porque passam o menino e o seu cão.
A vida para eles, mais do que para outros, é um eterno recomeçar.
E agora temos menos uma livraria em copacabana, e provavelmente mais uma farmacia.
Sao as realidadees que os 'prefeitinhos' preferem ignorar.
Muito bom.
Bjs
Engraçado é que não existe camelô de farmácia...
Ia dar um dinheirão rsrrsr
Valéria, estou começando a ficar convencido de que o Leme é uma Madureira com praia ... e algumas centenas de pontos além naquela tal de IDH ! bj
Valéria, estou começando a ficar convençido de que o Leme é uma espécie de Madureira com praia e, óbvio, algumas centenas de pontos além no tal de IDH. Adorei o texto! bj
Acho que você pode pensar melhor se imaginar uma micro Madureira com praia. Quando ao IDH, sei não...Chapéu e Babilônia deveriam receber mais atenção. Ser ponta de lança de canditatura petista não fez muito bem pro pessoal. Nunca tiveram o respeito que merecem...
Acho que você deveria dar uma olhada num outro artigo chamado N.G. por V.d.C. Está no mesmo bloco que este lá você vai descobrir que também costumamos receber muito bem quem nos visita....
Beijos e aguarde, pois outros virão...
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