e foto de Valéria del Cueto
dezembro
de 2005
Um dia não vou ter mais o que explorar na Ponta do Leme. É
uma dura possibilidade, lembrada sempre por amigos que sugerem a “expansão
temática” destes escritos. Um propõe novos lugares para serem explorados. Outros
querem que eu parta para fazer entrevistas. Concordo com todos.
Mas, no fundo, fico rindo sozinha de quem acha que a Ponta
vai se esgotar. Talvez, um dia, mas ainda falta muito...
Digo isso equilibrada numa das pedras embaixo da escada que
leva do Caminho dos Pescadores até a areia. Não é um ponto que costumo
freqüentar. Cheguei aqui por que esqueci a canga que uso para deitar na areia em
casa. É claro que só dei conta quando já estava na praia. Mais especificamente
quando abri a bolsa para pegá-la, me preparando para uma manhã de sol no final
do Leme.
Sem a canga, mas com várias tarefas bancárias a cumprir
antes de voltar pra casa, resolvi transformar o lagarteamento numa mini caminhada
até a Pedra. Uma digamos, preparação para enfrentar as filas e os inevitáveis caixas
eletrônicos.
Foi assim que acabei empoleirada na pedra. A cena deve ser,
no mínimo, instigante: Uma mulher com sua bolsa de listas coloridas ao lado,
com um caderninho muito pequeno, onde escreve vagarosamente. No espaço restrito
das pedras que a cercam, muda várias vezes de posição em busca de inspiração e do
conforto que permita que não interrompa a escrevinhação, como uma pensadora de
Rodin com um instrumento de registro de suas impressões na mão. É, inspiração
pode ser assim...
O objeto de observação é o quebrar das ondas na linha das
pedras. O dia não está esplendoroso, o vento impede a leitura dos jornais, o
verde da água é o primeiro contraste no ton sur ton da manhã. O sol esquenta a
Pedra. Falo da montanha que divide o Leme da boca da Baia de Guanabara. O limo
na base da pedra, lambido pelo mar e iluminado pelo sol é, sem dúvida, o verde
mais profundo e a cor mais luminosa da paisagem. Do outro lado, o Posto Seis.
No meio, os prédios de Copacabana enfileirados, apertados entre as montanhas e
o mar.
Um reflexo irreal ao longe. Levo um tempo para entender o
que é. No alto do Corcovado, visível acima dos prédios que emolduram a praia,
um brilho aponta a presença de um helicóptero circulando ao redor do Cristo
Redentor, a imagem majestosa a fé.
Ele não está nem aí.
Seus olhos, neste momento, estão voltados para a Ponta do
Leme. Nas pedras, alguém descreve sensações. E o Cristo, que tudo vê, sabe que
hoje, naquele caderninho cabem apenas impressões de paz, de pequenas emoções e
sensações delicadas. Delicadas e intangíveis como a espuma do mar que, por
segundos, engole a pedra, mas recua e, cheia de sabedoria, deixa apenas as
marcas de sua umidade. Que na próxima onda, será novamente coberta pela marola
refrescante e hipnótica, renovada em seu vai-e-vem...
Sob o olhar atento daquele que nos protege.
Valeria del Cueto é
jornalista e cineasta
liberado para reprodução
Este
artigo faz parte da Série "Ponta do Leme", composta por “ A Vingança
do Gato Preguiçoso”, “E o Rapa Levou”, “Até onde a Vista Alcança”, “Pré Visões do Tempo”, “O Rei da Praia”, “ Há os que não Gostam, Ora Pois”,
“N.G. por V.d.C.”
e outros mais que ainda virão....
10 comentários:
Maneiro...
S� conheci a S�rie agora... mas j� gostei... vou procurar os outros textos depois.
Feliz Ano Novo.
Leo.
Maneiro...
S� conheci a S�rie agora... mas j� gostei... vou procurar os outros textos depois.
Feliz Ano Novo.
Leo.
Maneiro...
Só conheci a Série agora... mas já gostei... vou procurar os outros textos depois.
Feliz Ano Novo.
Leo.
Opa, como somos contatos recentes, perdi os outros...lerei.
Gostei do seu estilo, me deixa confortavel, escrevo um pouco assim tambem.
Esclarecendo: somos contato em outra persona minha aqui, o da radio.
Léo
Se voce clicar em cima do nome dos artigos, irá direto para cada um deles. Estão linkados.
Boa diversão. Espero que você goste.
Valéria
Vale o que disse aí pro Léo.
É só clicar...e ir à praia.
Do Leme. Na Ponta.
Abraço
Valéria.
Olá minha amiga, quanto tempo!
Sumi, né?
O final de 2005 foi uma espiral de trabalho que me devorou...
precisei de uma semana no finalzíssimo do ano, em Monte Verde, pra descansar e reencontrar meu eixo.
Agora, cá estou eu aqui de novo.
Pra conversar contigo, com uma inveja danada da sua proximidade com a Pedra do leme.
Quem sabe em breve eu volto aí.
E os filmes, tem feito algum?
Conte algo novo e bom, pra ensinar pra 2006 um jeito macio e terno desde o começo; aí ele embala!
bj grande e ótimo começar de ano pra vc,
Neusa
Amigos,
Isabel, minha afilhada de casamento (!), e o MDC Suingue colocaram algumas observações sobre o texto acima no link abaixo (?) na comunidade SEM FIM DO PANTANAL, onde está o material do projeto: curta e exposição.
http://pantanal.multiply.com/links/item/17
Oi Del Cueto....
Lindo texto. Mostrou sensibilidade e leveza. Parabéns! A foto ampliou minha saudade. Continue escrevendo.
Beijinhos.
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