O ROCHEDO E O MAR
de Valéria del Cueto
2006
Leme. É sexta feira. Não uma sexta qualquer. Não é dia de contemplação, apesar
da atração exercida pela ressaca que faz a alegria dos surfistas e contribui
para desviar minha atenção do motivo que me trouxe à minha base meditativa. “Caraca!
É muita onda”, ouço o garoto entusiasmado diante do mar alto... Será o som
retumbante do mar revolto que dará o ritmo deste artigo.
trabalho que avaliará nossa atuação na matéria do professor João Batista
Vargens, Antropologia do Carnaval. O enredo é livre, contanto que não saia do
tema: Carnaval.
é um assunto, por assim dizer, sazonal: é impossível viver num eterno período
carnavalesco. Folia, liberação e fantasia não combinam com durabilidade. São
necessárias, mas por um curto espaço de tempo. Afinal, tudo tem limite e, há
séculos, definiram que o reinado de Momo seria circunscrito aos três dias de
folia.
muita coisa mudou. Principalmente pelas bandas de cá. Uns dias antes é o
pré-carnaval que dura o verão inteiro. Como ficam os blocos que renascem? Uns
antes, outros depois das datas estabelecidas. Coisa de agenda, sabe como é? Esticamos
mais um pouco a festa.
Finalmente, o supra sumo da
flexibilidade: uma cidade da fronteira do Rio Grande do Sul, Uruguaiana,
decretou que seu carnaval será duas semanas após a data oficial. Por questões
óbvias e bastantes justificáveis: descobriu-se que o tradicionalíssimo e
disputado desfile das escolas de samba da cidade poderia atrair turistas de
três países: Argentina, Uruguai e, é claro, do Rio Grande do Sul, Brasil. Contanto
que a festa não fosse realizada no... Carnaval
a de que 25 mil pessoas acompanharam, a cada noite, as exibições regulamentares
feitas pelas agremiações locais (lá, cada escola desfila duas vezes, a junção
das notas diz quem é a melhor). Para registro: A campeã, no desfile de 2006 foi
“Os Rouxinóis”, escola fundada há 53 anos. Ano passado, o título ficou com a “
Cova da Onça”. Nos últimos dois anos, a “Ilha do Marduque” ficou com o vice-campeonato.
A coisa é séria!
E foi pensando em Uruguaiana, e no
retorno turístico e econômico da festa por lá, que voltei ao Rio onde o reinado
carnavalesco inicia-se muito antes de fevereiro para aqueles que trabalham na
sua montagem. Aliás, começa cada vez mais cedo. Em alguns casos, anos antes, com
a criação de enredos e as negociações de patrocínios.
primordiais da celebração: “folia, liberação e fantasia?” Bom, ainda existem,
pelo menos para quem compra o pacote. Eventualmente, cruzam pelo cotidiano dos
trabalhadores da indústria do carnaval, nas quadra das escolas, nas rodas de
samba... Mas, para estes, os dias de desfile representam muito mais do que a
simples gandaia. Carnavalizar, sim, mas com um objetivo: a vitória.
para amadorismo e improvisação. A coisa é séria, virou uma industria. Move
centenas de milhões de reais. Um fenômeno nascido e criado no Rio de Janeiro e
disseminado para outros rincões brasileiros
Há que se estudar sua evolução e seus
desdobramentos. Em 2007, ano dos Jogos Pan Americanos, serão 90 anos da gravação “Pelo Telefone”, de Donga e Mauro de
Almeida, considerado o marco zero da história do samba, estilo musical que
gerou, através de suas escolas, as de samba, a criação desta atividade sui
generis, respeitada e cantada no mundo inteiro.
fazendo minha prova de Antropologia do Carnaval, para o curso de Gestão de
Eventos e Festas Carnavalescas, da Universidade Estácio de Sá. Em plena praia,
ouvindo a ressaca e pensando no futuro próximo.
Nele, e nos parâmetros e rituais da lida
acadêmica. Afinal, o que o Carnaval tem a ver com Universidade? É duro dizer:
tudo, desde que virou indústria. Agora, querem dissecá-lo, entendê-lo e
classificá-lo. Quando era apenas uma manifestação cultural carioca, não merecia
esta atenção. Mas, como bom fenômeno que é, extrapolou as barreiras da
“inteligenzia” e está ocupando seu lugar nas prateleiras acadêmicas.
Pretendo ser testemunha de uma batalha sem regras. Quero ver como a rigidez e a
sisudez da academia lidará com a rebeldia carnavalesca: classificação,
catalogação, enquadramento, teorização....
para chegarem à universidade. Saíram de seus longos aprendizados nos ensinos
básico e fundamental com algumas lições absorvidas e nesta caminhada,
conseguiram revolucionar as escolas e seus conceitos por onde passaram. Agora,
é esperar para ver e, se possível, botar alguma lenha nesta fogueira
Deixei de lado minha carreira acadêmica
depois de duas tentativas frustradas de cursar as faculdades de Comunicação e
Administração. Achei que não seria ali que me ensinariam o que eu queria
aprender.
a primeira turma do Instituto do Carnaval. Sei que faço parte de um momento
histórico e único de uma das maiores manifestações culturais deste país. Não
estou aqui só para receber ensinamentos mas para debater, experimentar – esta é
a palavra –, construir e testemunhar o encontro do Carnaval com a Academia.
Espero que dê samba...
da Ponta, desafio você, leitor, a definir quem é o mar e quem é o rochedo nesta
nova fase da história do carnaval. Meu papel eu sei qual é: sou o marisco. Agarrada
à pedra, dependo do mar para sobreviver enquanto torço pela folia e pela
alegria. Elas ainda resistem impolutas ainda resiste na batida do coração que
marca o ritmo das baterias que animam a maior festa brasileira.
Este artigo faz parte da série “Ponta
do Leme”
Valeria del Cueto é jornalista e
cineasta
liberado para reprodução com o devido crédito
http://delcueto.multiply.com
2 comentários:
Oi Valeria
boa sua foto da ponta do leme, nao quis fazer um album com mais algumas?
seu artigo e interessante e tem algumas informacoes que eu nao conhecia
abracos
Helena
Oi Helena, estou enrolada com a edição das fotos, difícil de decidir, mas ainda sai...
Obrigada por sua opinião sobre o artigo
Valéria
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