domingo, 28 de março de 2010

A luz do olhar perdido




A luz do olhar perdido






Texto e foto de Valéria del Cueto


Ia distraída pela vida, sem maiores ambições. Evitava dilemas, contornava os problemas. Entregava-se sem culpa ou interesse aos vencedores, mesmo antes de sabê-los anunciados. Driblava os atritos e embates com maestria e muita destreza.

Tinha um poder mágico que a fazia invisível aos olhos cobiçosos de terceiros. Numa calçada de pedras brancas e pretas conseguia encontrar o cinza do estreito meio fio. Nele, evitava ter que optar...

Não tinha dúvidas de suas não escolhas, apenas evitava magoar os preteridos. O muro era seu lugar. Sua energia não era yng, nem yang, negativa ou positiva, móvel e/ou imóvel. Nunca se expunha, opinava ou tomava partido.

Falava, sim, num tom que não chamava a atenção, o que combinava perfeitamente com seu poder mágico de fazer-se invisível. Sua voz não era como o canto das sereias, capazes de enlouquecer. Também não sabia ninar uma criança como qualquer mãe faria, enlevando e enredando o bebê semi-adormecido.

Ela era assim, transparente ou opaca, causando apenas a indiferença nos que a rodeavam. De propósito, é claro...

O sol e a chuva não a comoviam, o tempo não fazia a menor diferença, contanto que passasse. Afinal, “quem nada espera, não se desespera”. Perspectiva e esperança eram palavras que não faziam parte do seu vocabulário por que nunca foram impressas no seu dicionário afetivo.

Tédio? Não sabia o seu significado por que nunca experimentara a espera, sentira um arrepio, se deslumbrara com alguma coisa.

Ouvia o canto dos pássaros e o murmúrio do mar com a mesma verve que o espocar das armas ou o barulho de um acidente devastador. Limitava-se a, em todos os casos, desviar o caminho para não ver os pássaros, o oceano, as guerras ou o acidente.

Na escola, estudava o necessário. Achava que era tudo a mesma coisa. História e química, gramática e álgebra, geografia, português, e matemática? Tudo igual... Como suas notas. Medianas. Nem para mais, nem para menos.

Não sentia o calor do sol, nem notava o cheiro da terra quando a chuva despencava de sopetão. O que dizer do vento e da paradeira que antecipava a tempestade?

Nunca escreveu, plantou uma árvore ou amou para não deixar rastros pela face da terra. Não plantava para não interferir nas cores do mundo. Colori-lo era uma forma de existir, você sabe, não é? Escrever deixaria uma mensagem, um registro perene. Quanto a amar...

Um dia o viu passar. Tentou desviar o olhar, mas foi fisgada por um sorriso. Fez de conta que não era com ela, cobriu-se com o manto da solidão de sua alma, crente que ele ia seguir sem notá-la. É claro que não foi o que aconteceu.

Fingiu que era de pedra, uma estátua cinzenta e carcomida. Quando ele a tocou, percebeu como era fria. Chegou a conclusão de que estava louco, achando que a imagem que parecia esculpida na pedra tinha vida. Seguiu em frente.

Ela, com a respiração suspensa, resistiu ali, imóvel. Até sentir que não agüentava mais. Desabou com um gosto salgado na boca. Sabia que era tarde demais para recuperar o tempo, transformar a vida, existir.

Só achou estranho o tal gosto salgado, que não reconhecia. Afinal, nunca soube o que era chorar. Isso não acontece com quem, como ela, apenas vai, passando impune e sem compromissos, contraída e distraída pela vida que não pediu a Deus...

Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval.
Este artigo faz parte da série Parador Cuyabano do Sem Fim...
http://delcueto.multiply.com

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