domingo, 21 de março de 2010

Godofeio, o fredo














Godofeio, o fredo

Para quem duvida do quão selvagem é o jardim, quem me habita, na Rua da Piscina, sem número, informo que além das formigas, cupins, mosquitos, marimbondos, besouros, libélulas, mariposas, borboletas e bruxas, lagartixas, aranhas, ratos, gambás, passarinhos variados e araras, uma nova criatura se juntou ao zoológico natural dos domínios que me rodeiam.


Trata-se de Godofredo. Quem o localizou, por assim dizer, foi Dona Elza, a rainha da tábua corrida encerada, arqui-inimiga das colônias de formigas que montavam guarda e guarida, dentro e fora do chalé amarelo quando ali cheguei . Foi uma luta sem trégua, que produziu um acordo de paz de mútua convivência: elas não entram na casa e nós pegamos leve no veneno poderoso, que destrói totalmente os formigueiros. Assim é mantido o controle dessas e outras pragas do meu canto chapadense.

Mas até ela, que me ajudou a encher de flores meu bosque de adormecida (só isso, por que bela, não sou) às vezes tem suas surpresas com a chegada de novos e, lamento dizer, espero que não permanentes habitantes da micro fauna vigente.

Poderia ter sido eu, a primeira a ser apresentada a Godofredo, com minha mania de botar a mão em tudo que é matinho, na tentativa de organizar as espécies dos canteiros e recantos por onde decidimos começar nossa imensa missão de recuperação paisagística. Assim, meio à la Burle Max, valorizando as espécies locais, porém procurando manter a desordem natural, como faço com meu jardim interior.

Ao lado da casa, na subida dos degraus de tijolinho, há um espaço bananal, com samambaias por baixo e uma trepadeira parasita, que todas as vezes que posso, desenrolo das bananeiras . É uma experiência para futura secagem, quero testar a resistência e a durabilidade da planta.

Pois foi ali, bem na quina do degrau, próximo a teia da Aranha Costureira, que Dona Elza deu com o bicho. Aliás, pegou no bicho e ele se mexeu, geladinho, sem ela ver o que era. Quase morreu de susto, que podia ser uma cobra. Ficou mais aliviada, menos assustada, mas quem poderia achar agradável chacoalhar o pobre animal que, aliás, deve ter ficado tão estressado quanto ela?

Quando apareci na porta de vidro, já no meio da tarde, ela tratou de me comunicar a sua existência, me mostrando o animal, ao mesmo tempo em que, por direito de achado, já foi logo o batizando.

- Valéria, o Godofredo está aqui, vem ver aonde, que é pra você não se assustar.

Enquanto vistoriava a área indicada, Dona Elza me contou como fora apresentada ao novo inquilino. Quando a vi tratando Godofredo pelo nome, senti a força da mensagem intrínseca: “Deixa Godofredo em paz, nada de violência”. Me preparei – e com razão, para o pior. Nossa senhora! Nosso novo morador é um sapão enorme e muito, muito mal encarado. Feiúra é pouco pra descrever a aparência do vivente.

“E agora?”, penso eu, olhando o bicho, incapaz de qualquer atitude assassina ou violenta. “Vamos desaloja-lo?”, sugiro esperançosa. Hipótese eliminada por uma, agora heróica guerreira, sem direito a argumentação.

- Se colocar no sol, ele morre, por isso está aí, no fresquinho”, esclarecendo que ele “deve ter vindo da área da piscina, e não pode voltar por causa do gramado ensolarado”, se compadece a madrinha.

Dona Elza, se mandou porque tem marido, filhos e a netinha Bruna para cuidar. E me deixou aqui, na companhia do horrendo Godofredo. Olho pra ele, ele olha pra mim.

Lembro da história da moça que beija o sapo e ele vira príncipe. Chego a conclusão que jamais terei um príncipe encantado na vida. Sou incapaz de beijar um sapo, mesmo que a fada me garanta de pés juntos que ele vai se transformar. Sempre que beijasse meu amado real teria a impressão de estar com a boquinha de um batráquio entre meus lábios, ainda mais se fosse um beijo molhado.

Diante desta triste constatação, olho para “Godofeio” com muita pena. Será sapo pelo resto da vida. Penso num jeito de ajudá-lo. Depois de muito refletir, chego a conclusão que o melhor é apresentá-lo a primeira rãzinha simpática que conhecer. Fico sem meu príncipe, mas com a consciência tranqüila e o coração leve. Afinal, pelo menos Godofredo será feliz para sempre...

A tarde cai na segunda feira cheia de emoções e tarefas caseiras chapadenses. Olhos nos olhos o bicho me encara, ali,avisando que não pretende se mover. Eu, capaz de abrir garrafas de vinho com um canivete suíço, trocar disjuntores, puxar a água de cano cheio de ar com a força do meu pulmão de nadadora, trocar cano furado, não sei o que fazer com Godofredo.

É duro reconhecer, preciso de auxílio técnico. Só me resta apelar pro Léo, filho de Louriza, herdeiro da lata veia, pai de Aninha, meu elo com o mundo maravilhoso das adolescentes. Subo na bicicleta, desviando a roda do bunker de Godofredo. Fico pensando em como explicar para o talentoso tocador de violão e viola de cocho a tarefa prosaica que o espera. Tomara que ele atenda ao meu apelo, sem tirar muito sarro e espalhar minha paúra para Chapada e meia. A notícia certamente chegaria a Cuiabá. Conto com sua discrição...

Afinal, para que servem os amigos?

...

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta, gestora de Carnaval e porta-estandarte do Saite Bão

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