domingo, 25 de abril de 2010

Bad Trip



Bad Trip



Texto de Valéria del Cueto


Juro que daria tudo para não estar escrevendo este relato. São 18 horas em Cuiabá, 19 no Rio de Janeiro. Se o céu da minha trip fosse de brigadeiro estaria a 3 horas da Casa da Gávea, onde o curta metragem História Sem Fim do Rio Paraguai será exibido e comemorado o aniversário da Denise del Cueto, mulher do del pai.

Qual o que, meu sofrer  começou no balcão da cia. aérea, onde fui informada que o vôo que embarcaria havia sido cancelado. Isso mesmo.
 
Oh, meu santo protetor dos passageiros enganados, vilipendiados e traídos, onde estavas quando o senhor Jean gerente da enrolação e da quebra de contrato me dava a opção de embarcar num vôo de outra companhia , uma hora e meia depois, com destino a Guarulhos e, depois de um pit stop de mais de 2 horas, seguir num vôo para Teresina, com uma escala redentora no Galeão? Talvez muito ocupado, com justíssima razão, com as cinzas do vulcão europeu que ora provoca um efeito dominó na malha viária do velho continente e adjacências.

Enfim, estávamos, eu e mais outros tantos otários, com um bilhete que nos prometia desembarcar às 22 horas e 27 minutos no aeroporto Santos Dumont, na entrada da baía de Guanabara, sendo remanejados  para um vôo de uma companhia amiga, com destino a Ilha do Governador. A chegada esta(va) prevista para a  00 horas e 40 minutos. Começava a bad trip me impede de chegar ao Santos Dumont e  ainda por cima desembarca o pacote há dezenas de quilômetros do destino desejado.

Havia outra opção? Sim,  perder o filme e o feriado aguardando a voada do dia seguinte.
 
Avisar os otários do desastre, anunciado pelo menos uma hora antes, de acordo com a atendente, e o dobro do tempo, segundo o gerente Jean, não pareceu uma ideia plausível para o último, que arregalou os olhinhos e tascou a pérola:
- Não temos tempo para isso. Disse-o,  como quem declara que o problema não é dele mas, sim, dos trouxas que com um simples aviso poderiam reorganizar suas vidas, procurar outras opções ou, simplesmente, mandar-los catar coquinhos.

Fiquei pasma quando descobri que éramos apenas 15 vítimas, destinadas a trocar, entre outras coisas, o conforto alimentar da companhia que escolhemos pelas 8 minguadas bolachinhas que nos couberam no ágape da substituta. Isso sem falar na diferença básica da dimensão das poltronas.

A novela estava apenas começando. O capítulo seguinte  reservava outra surpresa. Não é que o vôo até Belo Horizonte, com escala em Goiânia existia? Atrasado, mas aguardado pelo restante dos passageiros.

Bom, fúria é pouco. Ampliada pelo fato de que cada “mala viajen” com sua solução capenga serve para considerar cumprido o contrato firmado no bilhete. Que serviço porco, quanto descaso com os bobalhões que escolheram voar pela dita companhia...

Tempo, tempo, tenho tempo. Horas no confortabilíssimo aeroporto internacional Marechal Rondon. O suficiente para procurar os meus direitos. Não, não é piada!

Piada foi chegar no balcão da empresa e pedir para usar o telefone para fazer a reclamação via 0800.
- A senhora quer o que? Pergunta a gentil, porém intrigada atendente.
- Usar o telefone, expliquei, para fazer uma reclamação.
- Pelo nosso telefone? Não entendi...
Relatei a situação e pulei para a próxima mocinha, esta, do lado de lá da linha.
- Trip reservas, boa tarde.
- Boa tarde para você também, quero registrar uma reclamação.

E começou a lenha. Pois, na concepção da moça Renata, eu não tinha motivos para isso. Arranquei a ferro e fórceps o número do protocolo e resolvi ampliar a área de protesto, procurando a ANAC. Ela sim, a que fica no desembarque, no barraco decadente ao lado.

Chegando lá, outra surpresa. Foram-se os tempos em que um gentil funcionário descia com a gente e ia na companhia averiguar o problema e tomar uma providência imediata. O funcionário em questão, muito gentil, por sinal, ainda está lá, há 26 anos, diga-se de passagem. Mas reclamações, só pelo site.

Quanto a soluções para os problemas dos passageiros, bem, é mais ou menos como reclamar com o bispo. Por essas e outras é que as bad trips pululam impunemente por mais de 70 destinos, anuncia o banner, diante do balcão às moscas, para onde retornei desolada.

Bom, conseguimos, finalmente, decolar com mais outros 20 minutos de atraso. E daí? A espera em Guarulhos se arrastou por mais de duas horas. Falo só para constar, por que isso não faz diferença mesmo, né? Estamos no trecho.
Só espero que o tal santo protetor dos passageiros enganados, vilipendiados e traídos esteja mais liberado (o que é claro, não aconteceu). Achava, e com razão, que precisaria - e muito - da ajuda dele quando, depois da meia noite, virasse abóbora e tivesse que ser repatriada para o Leme, da Ilha do Governador, via Linha Vermelha.

Quanto a meu compromisso, sorry espectadores, perdoe-me aniversariante, mas, além de bad, o trem da trip não conseguiu sair da estação da incompetência e, graças ao desempenho exemplar da parceira aérea, acabei desembarcando em solo carioca mais ou menos a 1 e 40 da madruga. Falhei, sim, mas com um serviço desses, quem pode me culpar?

* Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte da série Parador Cuyabano, do SEM FIM http://delcueto.multiply.com
 

3 comentários:

Carlo Anton disse...

conpren un avion i agalen competencia a esa compania es lo mejor

Marcio Oliveira disse...

Sitiacao igual vivida por mim a 2 anos atras Valeria.
Compatilho os sentimentos com voce..


M.Porangaba.

Valeria del Cueto disse...

Preparem-se, por que tem mais...