domingo, 11 de julho de 2010

Queimada




ou
A (des)ventura e o caminho
Texto e foto de Valéria del Cueto


Cada um tem a ventura que merece. A minha mais desejada, mas não única,
está a umas quatro luas cheias de distância, no mínimo. Como esperar? Há um truque: se a primeira ventura está momentaneamente inalcançável, mire na seqüente, e na outra, outra, outra... até que alguma ventura possa ser realizável. Aí, caia dentro.

É por essa lógica que chego aqui.

Soleira da porta do chalé da Travessa da Piscina, sem número. Tardinha de  domingo, vendo o sol banhar o topo da vegetação da piscina pública, Parque  da Quinera. Cercada de flores, folhas, formas e frutos.

Ouvindo “Queimada”*,
de Cide Guez, a algazarra das crianças brincando na rua sem movimento e, é claro, a passarinhada conversando entre rasantes no gramadão em frente.

As
folhas secas delimitam quão frondosas estão as mangueiras da esquina. Uma delas já coberta de florezinhas.

Ao lado do portão antigo de ferro uma primavera (ou bougainville) gigante
se aboleta aos pés de outra árvore, esta já morta, e se espreguiça sobre seu  tronco, galhos e extremidades com milhares – isso mesmo eu disse milhares -
de bouquets de florinhas em tons variados, numa palheta quente e luminosa,  do bordô ao lilás. Uma ilha no meio do verde/azul reinante.

O sol cai, as sombras aumentam, mudando o tons da paisagem. Agora,
seus raios iluminam apenas o topo das bocaiuveiras ( ou serão bocaiuvais?)

Não é pouca ventura poder testemunhar e registrar um fim de tarde como  esse.

O mundo poderia parar, antes que as luzes da cidade comecem a disputar 
espaço com as infinitas estrelas do céu da Chapada dos Guimarães, Mato  Grosso. A paz, apenas a paz, reinaria. Nada mais...

*Cide Guez, artista e amigo de Uruguaiana que nos deixou esta semana, é o

o piano que sola da música que nunca esqueci (coisa rara). Ouvi Queimada, pela primeira vez , em 1980, na 10º. Califórnia da Canção Nativa. Fiquei impressionada pela visão proposta por ele. Me lembro até hoje de algumas partes. Por que será?

QUEIMADA

Na boca da queima há um grito sentido
E a mão que incendeia não pede perdão,
nem ouve os gemidos dos lírios feridos...
........................................
É hora do homem parar de agredir
Ou gerações futuras
Serão caravanas errantes
Condenadas a morte e a fome
Numa terra que não vai parir.

Procurei a letra inteira na internet mas não encontrei. É inaceitável que ela não
exista no mundo... virtual. Por aqui, é só dar mais uns passinhos e estaremos  quase lá.
** Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte da série Parador Cuyabano, do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

2 comentários:

Carlo Anton disse...

gracias

Valeria del Cueto disse...

Achei a música! Esta é a gravação original, feita no palco da 10 Califórnia da Canção Nativa, em 1980.