Conto de fada
Texto e foto de Valéria del Cueto
Pode achar estranho por que, para mim, também não é normal. São sete e meia da manhã. Uma hora improvável de um dia pra lá de inacreditável. Uma segunda feira. O que a gente não faz por amor a vida no campo.
Pensando bem (se é que alguém consegue fazê-lo de forma razoável nestas condições), esta é a antítese do meu ideal inspiratório. Para quem não se lembra assinalo e comemoro as sextas feiras, aí pelas três e meia, preferencialmente na Ponta do Leme. Nessas condições vou para o abraço.
As ideais fluem, o mundo é azul, o mar fica para peixe e sou a dona de tudo isso.
Naquelas condições, melhor dizendo. Por que - como já deu para notar - está difícil juntar os meus neurônios no horário atualmente imposto pela necessidade de esperar pacientemente o carro que, todas as segundas, me leva de volta a Cuiabá. Sempre depois de um delicioso final de semana na Chapada dos Guimarães, Mato Grosso, Brasil. Onde, graças a Deus, dificilmente alguma coisa dá errada.
Dificuldade realçada especialmente neste horário quando as minhas ações são, normalmente, mecânicas: acordar, fechar a casa da Travessa da Piscina, sem número, tirar o lixo, me arrumar (não necessariamente nessa ordem) e esperar.
Quase uma rotina (arrre!).
Até outro dia esperava recortando flores de chita para decorar as portas internas do chalé. Mas, uns quatro metros de tecido e, creio eu, em torno de 45 arranjos florais depois, a tarefa de fortalecimento da coordenação motora em estado quase vegetativo se esgotou.
O sol bate em cheio no caderno recém iniciado (esta é a segunda crônica que escrevo no novo parceiro) esquentando meu corpo e o sofá, ambos ainda fresquinhos da noite frienta deste último domingo.
Ouço o conversê dos passarinhos que cantam como se não houvesse amanhã, segunda feira, e (sempre) uma semana inteira de labuta antes que eu possa retornar.
A buzina toca. Levando, guardo o caderno e a caneta. Recolho a bolsa e a mochila, fecho a casa, ligo o alarme. Desço as escadas e faço a curva, em direção ao portão de madeira.
Ao longe vejo minha “carruagem” pronta para me levar para meus compromissos. Os passarinhos se despedem. Corro em direção ao portão. Tenho hora. Não posso me atrasar. Vai que o transporte vire abóbora...
* Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte da série Parador Cuyabano, do SEM FIM http://delcueto.multiply.com
2 comentários:
gracias
EU CONHEÇO ESSA CASINHA...!
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