Assombra
Texto e foto de Valéria del Cueto
E lá ia descendo de manhãzinha em direção ao trabalho. A pé, como pedia o curto trajeto de umas poucas cinco quadras quando o santo ajudava.
O hábito de só pegar carro ou um táxi quando o percurso realmente exigia quase caindo em desuso, por causa da baixíssima umidade relativa do ar e a praticamente inexistente umidade absoluta de uma chuvinha básica.
No caso da volta pra casa, no sentido contrário, com angulação invertida, ladeira acima, a distância e o esforço pareciam decuplicados devido as condições geográficas e climáticas. Só num ato quase heróico.
Então, aquele passeio matinal era uma alegria. Pelo sol ainda baixo e por que não ia sozinha. Dialogava e brincava com aquele ser animadinho que a antecedia saltitante.
O ser esguio, cabelos soltos e longos, dançando cheio de cachos, era conhecido principalmente por aquela maneira peculiar de deixá-los meio que saltitarem em volta dos ombros.
Ficava animada com sua animação. Sua disposição de se jogar à frente do caminho sempre a contaminava. Não ia ser diferente desta vez, pensou.
Foi aí que teve o estalo. Ela nunca mudou, engordou ou se deformou através dos tempos. Não ela. Magra, sempre foi, ágil também e, nesse momento, devido ao balanço do cabelo provocado pelos passos apressados era exatamente a mesma de muitas décadas atrás.
Como envelhecer se, ela, sua imagem mais fiel e constante, não reflete tais mudanças, pensava riscando o caminho acidentado que a distorcia a cada obstáculo e desnível – e olha que são muitos. Se cada vez que olha seu desenho não via traço de cansaço ou desânimo?
Se o que vê é o que a faz, então, ela é tal e qual... Sei lá, seus 15 anos? E os tem eternamente refletidos na sombra que a acompanha nessa longa caminhada.
Diferente de Peter Pan, que a perdeu, sua sombra está sempre ali e quando tenta se convencer que o tempo passou, a vida mudou e a idade chegou, ela se insinua forte, bem definida e exatamente a mesma.
Como a lhe dizer, achando graça, que era a prova viva do seu contraditório. A certeza de que, enquanto ela quiser, podia ser como ela é.
Bastava deixar de lado a idade física e se concentrar em cada passo. Levando o passo no compasso do corpo felino ou dos cachos balançantes que via a sua frente. Abrindo espaço para a próxima etapa do seu alegre e vitalizante caminhar. Afinal, este era mais um dia. Que começava...
* Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte da série Parador Cuyabano, do SEM FIM http://delcueto.multiply.com
4 comentários:
gracias
Não há que ter medo... Envelhecer pode e deve ser uma arte. Aceitando, claro. Gostei dessa descida Valéria e do sonho de ver cabelos ondulantes na inexorável caminhada do tempo. Envelheceremos, mas com classe e distinção...
Tenho medo não. Nem eu nem ela.
Certissima. Adoreiiiiiiiiiiii. Eu tbm me sinto assim sempre jovem como minha sombra.
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