Texto e foto de Valéria del Cueto
Cansaram de Paraty? Cansa não. Ainda tem um
tanto pra contar. Melhor que meditar sobre os últimos acontecimentos, não é?
Quer saber? Não há luz no fim do túnel. E, dito isso, vamos procurar novos interesses
para aplicar as energias.
Viajar é sempre bom ainda mais quando há
tempo para abordar o lugar por uma perspectiva não apenas “standard”, mas
também conhecer o ritmo de vida dos locais. Depois de muito analisar, começo a
chegar a brilhante e nada inédita conclusão que existem dois tipos distintos:
os turistas e os viajantes. Acho que me enquadro no segundo sem, de maneira
nenhuma, desmerecer o primeiro.
Engraçado é que essa atitude é quase igual a
andar de bicicleta. Depois que a gente descobre, vicia. Não consigo sossegar
enquanto não interajo com moradores, exploro seus desejos, convivo com seu
dia-a-dia. Só fazer turismo não me satisfaz.
Normalmente começo no próprio lugar em que me
hospedo ao descobrir que a encarregada do café mora longe e preferia o sistema
de saúde da cidade grande. É lá que fico sabendo da peregrinação pelos
supermercados, em busca das ofertas e preços baixos.
Ainda é pouco, mas já dá pra começar. Andando
pelo point do comércio fica explícito o domínio de estrangeiros competindo com
franquias da Richard’s e outras marcas de lojas que existem em qualquer
shopping. Dizem os locais que tem um grupo comprando um quarteirão inteiro do
centro histórico.
Engraçado é que parecem que eles chegam em
levas. Artistas abrem ateliês, profissionais liberais estabelecem seus
negócios. Argentinos, muitos argentinos. Um francês aqui, outro ali.
Saindo um pouco da área mais valorizada,
encontrei os nativos. Pra falar a verdade, comecei minha busca num local bem
óbvio: na Casa da Cultura, conversando com os funcionários. Ali, descobri que
as duas livrarias e a revistaria do centro histórico são da mesma dona. Gostei
do que vi nas prateleiras.
Também fora da muvuca fica o Teatro Espaço
onde o “Grupo Contadores de Histórias” fez a sua e se tornou referência
internacional no teatro de bonecos, num trabalho de mais de 30 anos.
No penúltimo dia de viagem, por causa da maré
alta que invade as ruas centenárias, descobri o tamanho da loja que vende os
produtos feitos pelos pescadores artesãos do Saco de Mamanguá. Quer ver as
fotos? Aguarde uma próxima viagem porque, ao descobrir o caminho por dentro da
loja, que vai de um quarteirão ao outro, fui soterrada de informações e imagens
e preferi deixar pra explorar tanta riqueza numa próxima oportunidade. E já
aviso. É lindo, exuberante e surpreendente!
Mais lindo porque, ao contrário dos barcos no
porto, a maioria mantem suas cores tradicionais e puras: o azul, amarelo,
vermelho e verde. O que já não se verifica no porto. Ali fui surpreendida com
uma releitura do colorido das embarcações: cor de rosa, lilás, fúcsia, verde
água... Segundo um marujo, o dono de um barco inventou a novidade atraindo os
turistas que procuram passeios marítimos e um monte de outros barqueiros a
seguiram. Virou moda. Sinceramente? Não sei não. Espero que a onda passe.
A busca da viajante não privilegia os
atrativos turísticos, mas também não os exclui quando eles surgem diante das
lentes fotográficas. Foi assim com a maré que me levou ao abrigo da loja de
barcos. Primeiro ela se espelhou, com ares de “resista, se for capaz”. Não
resisti.
Assim como não pude fazê-lo diante da cena do
artista que pinta os recantos da cidade. Para meu deleite e- espero – seu
também.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de
carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM... delcueto.wordpress.com



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