FRUSTRAÇÃO
de Valéria del Cueto
abril de 2006
* este artigo não tem
foto de ilustração por motivos
que ficarão óbvios no
decorrer de sua leitura.
É hoje. E parece encontro marcado. É sexta feira e nada, nem
esta gripe chatinha que me atravanca as noites numa chiadeira insuportável, me
impede de correr para o meu desabrigo nuclear. Refiro-me ao meu núcleo de
reflexão, a Ponta do Leme, ao lado de Copacabana. Hoje vim aqui para refletir
sobre erros e acertos, sina e desejo. Vou falar de carnaval, desfile, fotos,
registro e magia.
Trabalhei muito este ano na avenida. Rodei pelo sambódromo
noites inteiras. Sem pauta fixa olhando em volta e registrando sons e imagens.
Me exauri fisicamente durante os desfiles, comecei a me recuperar quando
colocava os áudios que gravei na Internet no http://valeria-delcueto.podomatic.com e esperava as fotos
que fiz com minha Nikon tradicional serem reveladas. Depois, me acabei de novo
em muitas madrugadas analisando e editando o material que garimpei nos dias de
folia. Ele foi aos poucos apresentado no http://delcueto.multiply.com.
Agora, aproveito o barulho do mar e esta paisagem tão
especial da Ponta Leme para refletir sobre o carnaval e minha produção momesca,
onde aconteceu de tudo: da frustração total àquele momento único, onde você
sabe que os Deuses querem que algo seja registrado e te escolhem para ser meio
e fim deste registro.
Vamos direto ao primeiro caso. Desfile da última escola na
manhã de terça feira. O melhor samba do ano havia acabado de sacudir a Sapucaí.
O Império Serrano, sob as bênçãos de São Jorge Guerreiro suspendera com seu
canto a chuva que ameaçara cair, para mostrar sua folia na avenida.
Ia começar o último desfile, a Portela fechava o Grupo
Especial. Estava cansada, mas ansiosa depois de conversar com Marçalzinho que
meses antes deixara a direção de bateria da escola. Ele havia me apresentado
seu sucessor, Nilo Sérgio, me falado do seu trabalho e eu queria registrar sua
performance.
Quando a bateria foi se aproximando do primeiro recuo, uma
coisa me chamou a atenção: gente da harmonia da escola rolava pela passarela,
em frente ao Setor Um, um queijo, um cilindro de mais ou menos uns 60 centímetros
de altura.
Começaram a cair os primeiros pingos de chuva. Graúdos,
insistentes e em velocidade progressiva. O tal tablado de madeira foi colocado
na frente dos instrumentistas e, nele, subiu Nilo Sérgio.
Eu tirava algumas fotos na entrada da escola quando a chuva
desabou. A máquina, bolsa, tudo ficou encharcado antes que houvesse tempo de
proteger o equipamento. Coloquei a capa de chuva em cima da roupa toda molhada,
corri para uma marquise procurando algo com que pudesse secar a máquina. A
única coisa um pouco menos encharcada que encontrei foi uma bandana que Márcio Wollman havia me dado no show dos
Stones, na semana anterior. Providencial. Sequei o equipamento da melhor
maneira que pude dando por encerrado o trabalho. Resolvi apenas assistir ao
desfile aquático que se desenrolava na minha frente. A escola evoluía.
Empurrada... pelo som de sua bateria, conduzida por Nilo
Sérgio, do alto do tal tablado que eu vira rolando pela pista. E ali estava a
inspiração. Forte o suficiente para levar a escola embaixo d’água avenida
afora. Extraordinária, a ponto de me fazer não pensar no prejuízo. Peguei a
câmera. Tirei a capa de chuva. Nela, nos enrolamos eu e a câmera e parti para o
recuo da bateria. Fotografei muito. A postura do mestre (ali, naquela momento,
mesmo novato na direção de bateria, Nilo Sérgio fez jus ao título) Seus gestos,
a expressão dos ritmistas, o medo da chuva afrouxar os instrumentos e desafinar
as peças, a garra dos anônimos portelenses, que se enchiam de novas energias
para cantar o samba e evoluir na pista em baixo das chuvas que caíam torrenciais.
Foi mágico. Fiquei exaurida. Peguei uma gripe, voltei para a
casa como um pinto molhado. Na quarta feira de cinzas abri a loja onde revelo meus
filmes. Esperei pela Portela torcendo para ter conseguido fotografar e
registrar aquele encantamento. É mágico,
eu disse. E inexplicável, acrescento. O material dos desfiles estava todo lá.
Menos o filme da Portela. Fotos sobrepostas, impossíveis de serem aproveitadas.
Parte do filme velado. Nada, nada, do que vi e fotografei estava lá.
Nilo Sérgio ganhou o Estandarte de Ouro como revelação do
Carnaval 2006. A Portela, apesar das condições adversas do desfile, não caiu do
grupo Especial.
E eu, por ser tarde de sexta feira e poder estar aqui na
praia, no Leme, na Ponta, contando esta história (com h), já não me sinto tão
frustrada com a perda deste registro fotográfico que, para mim, teria um grande
valor. Afinal, estas palavras formam imagens, que se transformam em sons, que
têm o poder de fazer o meu coração pulsar ao ritmo da bateria conduzida por
Nilo Sérgio. E isto não é nada mau para quem, até este momento, tinha a
impressão errônea de que havia perdido tudo.
Valeria del Cueto é jornalista e cineasta
liberado para reprodução com o devido crédito
Este artigo faz parte da série "Ponta do Leme"
http://delcueto.multiply.com