28/10/2005
O mar subiu e as ondas estão batendo. Dos surfistas de plantão restaram apenas uns poucos. Quatro, para ser mais exata. Na ponta do Caminho dos Pescadores, na Pedra do Leme, vejo só uns dois pontinhos. Não é aquela linha costumeira de pescadores e seus molinetes.
E está um senhor mar. Puxando. A primeira vala está colada na pedra. Ninguém na água. Só os surfistas. Pouca gente na praia. Uns desavisados caem na vala. Os surfistas percebem o sufoco. Dividem a prancha, devolvem os caras em segurança.
O sol está forte, mas uma bruma teimosa impede a visão da orla da Copacabana. E estamos perto do meio do dia. Não dá para avistar as ilhas. A linha do horizonte se confunde com a cor cinzenta do mar aberto. É maresia da boa. Daquela que cola no corpo, invade os apartamentos pelas janelas, deixa tudo melado. E corrói os metais. Se respirar pela boca consegue até sentir o gosto.
Na beira, a água está linda e, poderíamos dizer, esverdeada se não fosse só espuma e areia, revolvidas. Fruto das pancadas das ondas que arrebentam sem nenhuma delicadeza. Guardam sua poesia para os borrifos e respingos dançantes. Eles espirram do estouro provocado pela enorme boca que se abre, despenca como parede e ruge como leão. Não há sinal de acolhimento no vai-e-vem nervoso e inconstante.
Normalmente os surfistas esperam a série de sete ondas fortes para deslizarem pelas maiores e mais poderosas. Hoje, ao contrário, se dedicam a tentar o equilíbrio na série das ondas fracas. Não há a menor chance de diálogo ou evolução nas pancadonas. Elas não têm laterais. São apenas precipícios e pauladas.
A tarde caminha. A maré vai baixando. O mar acalma. A bruma some.
Como na vida.
...
Valéria del Cueto é jornalista e cineasta
Este artigo faz parte da Série ¨Ponta do Leme¨, composto por “Pré Visões do Tempo”, “O Rei da Praia”, “ Há os que não Gostam, Ora Pois” e “N.G. por VdC” e outros mais que ainda virão...

3 comentários:
Recebi do Marcio Wollman que não é do multiply e reproduzo, feliz por inspirar outras vistas....
ATÉ AONDE A VISTA ALCANÇA E OS OUVIDOS OUVEM, Banquete
Pedra Branca - Rancho Aspen - Meu Paraiso
Consigo avistar a Grande Muralha (Pedra de Banquete) a uns 5 km em linha reta, apesar das nuvens que a encobrem parcialmente.O silencio é apenas cortado por esses sabiás que não cansam de emitir seus lindos cantos. Vários intrometidos (coleiros, bem te vis e outros) ousam intrometer-se no seu canto. Não fosse a realidade diria que estou no Paraiso.
Passou um cavaleiro, meus cães avisaram antes da passagem deles. Ouço no meio dos cantos, agora da orquestra, o barulho dos cascos do animal. Neste momento não consigo ouvir o canto do corrego, acho que os passaros não querem que eu o ouça. Parem. Deixem-me ouvir o canto das aguas, contínuas e calmas. Eles não me ouvem. Deixe prá lá. Sou obrigado a continuar a ouvi-los e olhar as montanhas lá longe, imoveis, soberanas, imponentes.
Aqui não tem mar, mas tem isso. A noite posso ouvir os grilos, sapos e corujas, com seus cantos cortando-a. Se tiver Lua, posso passear pelas estradas iluminadas por ela...
Não venha me colocar inveja deste lindo lugar do Rio, que eu tanto gosto, porque você ainda não conheceu a Pedra Branca. Já ouvi comentarios, que diziam tratar-se da MONTANHA SAGRADA.
Beijos.
Marcio
Aí, Crioula!
Assim vc vai terminar trabalhando como Fiscal da Natureza.
Parabéns.
Estes meus amigos que não fazem parte do multiply me dão o maior trabalho...
Como vocês sabem, as cronicas e artigos estão sendo publicadas por outros sites e lá eles colocam seus comentários. Este que reproduzo é do Talvani Guedes da Fonseca, lá de Natal/RN... A quem só tenho a agradeçer a "análise"
"Demorou!
Valéria é um dos melhores textos no momento, e se tivesse menos o que fazer (filmes, projetos, cuidar de si, festivais) a literatura urbana do Rio de Janeiro ganharia.
Parabéns, Maria Valéria (bruxinha) del Cueto, deu uma vontade danada de sentar do seu lado só para ver o que você vê, as ondas quebrando, barulhenta, caixotes, água da cor da areia grossa, essas coisas que você mostra, Paulo Mendes Campos, Carlinhos Oliveira e Rubem Braga mostravam e o povo nem via, mas, eles mostravam. Que nem você. Um beijo e parabéns pelo sucesso de "...história sem fim" no festival de Goiânia.
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