Texto e fotomontagem de Valéria del Cueto*
Sou dual e adaptável mas de vez em quando exagero na dose, confesso.
Um bom exemplo é agora, na minha fase atual de produção intensa e diversificada para o Parador Cuyabano. Fico aqui, na quina de baixo do bairro Baú, em Cuiabá, sentada diante do viaduto que ocupa todas as janelas do meu imóvel alugado (quase andante) no terceiro e último andar que habito.
Vejo os automóveis, caminhões, motos, demais veículos e poucos, raros e quase sempre desmilinguidos pedestres que se arriscam a irem e virem pelas três pistas que se descortinam na paisagem. Olhando, durante a manhã, o sol invadindo o piso branco da sala, do quarto e da área de serviço do meu minifúndio e sentindo... calor, é claro. Porém menos que na parte da tarde, O que é inexplicável, se levarmos em consideração que o sol baixa do lado oposto do prédio.
Para sobreviver e tentar poetisar o contexto, tracei um paralelo entre o barulho do vai-e-vem imprevisível do viaduto na pista da Miguel Sutil que me é de direito, com o som do mar do meu porto seguro e permanente, no Leme, lá no Rio de Janeiro, local que freqüento desde meu nascimento, no milênio passado.
A comparação não resiste a uma análise mais apurada, mas vale como um exercício, espero que passageiro.
Eu mesma detono minha teoria, bastando raciocinar um pouco: no mar, é totalmente impossível traçar qualquer parâmetro ou regra de constância sonora. Não há tempo, compasso ou ritmo repetido. São muitos elementos conjugados para fazerem seu sussurrar, seu grito, seu ronco e/ou tudo junto e mais alguma coisa.
No caso do viaduto, existem variáveis imponderáveis como o som dos diferentes motores, a velocidade da passagem diante das janelas, etc. Mas há, sim, um fator comum a todos eles: os metros que percorrem diante do meu pedaço. Isso não muda. Pode variar a velocidade, mas a metragem da pista que me cabe é sempre a mesma.
A não ser, Deus me livre, que o veículo mude sua rota e encontre algum obstáculo extra no caminho. Pensando bem, sou uma sortuda. Podia ser pior... Já pensou se aqui em frente existisse um quebra molas, esta praga disseminada por várias vias da Cidade Verde?
Bom, isso é um SE, um exercício masoquista inexistente, graças a Deus, mas caso acontecesse, uma coisa garanto: ia viver pintando o dito cujo de amarelo, para que fosse visível a distância e não pegasse motoristas desavisados, como eu, de surpresa na avenida. Freadas desesperadas e intermitentes seriam demais...
Tudo isso, para dizer que na minha área visual e sonora, os veículos passam batido, sem obstáculos aparentes. Que nem num mar. Dia e noite. Mas um oceano com várias limitações, entre elas, o sonhar. Coisa que o mar me leva a , e o viaduto me atrapalha o...
Mas como diz o ditado, “tudo na vida é transitório”. Incluindo o viaduto, acrescento esperançosa, para terminar essa crônica com o sentimento de otimismo que a inspirou....
*Valeria del Cueto e jornalista, cineasta e gestora de carnaval
Este artigo faz parte da serie Parador Cuyabano
Este artigo faz parte da serie Parador Cuyabano

2 comentários:
A tua vida é inspirada minha amiga. Bem-aventurada por veres e sentires quase poesia num viaduto.
Bjs do Filipe.
Eu tento, mas de vez em quando só consigo "arranhar" a realidade que habito...
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