Texto e foto de Valéria del Cueto*
Quero o sal. Sonho com ele. Curtindo minha pele e mudando sua textura, recobrindo meus poros. Sinto seu cheiro e quando o reconheço descubro que é apenas um truque, uma projeção.
Truque baixo, diga-se de passagem, por que é só o fruto da minha imaginação, a miragem do meu oásis particular, reflexo perfeito do que mais desejo. O arrepio provocado pelo vento que faz a curva na Ponta do Leme., o calor do sol, agora invernal, do final da tarde, a maresia que recobre meu corpo e faz de mim objeto sedento deste carinho. Lambo meus braços procurando sentir o gosto do mar, seu cheiro. Que não estão aqui.
Como também não reconheço, a não ser na minha fertilíssima imaginação, os sons do oceano que me cabe e o vento sussurrando palavras incompreensíveis para os estrangeiros (nos meu ouvidos atentos e sedentos das notícias da minha praia).
Também sou capaz de imaginar o arrulhar dos pombos e as cantilenas e ladainhas dos vendedores ambulantes que circulam pela areia, sempre em dose dupla: vão em direção a Pedra do Leme e, logo depois, retornam no sentido contrário. Uns, mais animados por mais uma volta do circuito realizada, outros, desanimados olhando a praiona que têm novamente pela frente.
Tudo de novo. O mesmo caminho sob o peso das mercadorias à venda. Um vai e vem infindável e nem sempre compensador. Para eles. Por que, pra mim, o ruído dos passos na areia e o anúncio de seus produtos são como o canto das sereias: indicam que estou no mar, no meu lugar.
Adoro dois vendedores específicos, por que me lembram minha infância. Um é o de biscoito Globo (salgado ou doce?). Prefiro o de sal, sempre acompanhado de Pelo clássico a seguir. O outro ambulante, mais significativo ainda, é o da mate Leão.
Durante um tempo, os latões de mate e de limão foram totalmente substituídos pelos produtos em embalagem de plástico. Mas o que é bom, mesmo com todos os senões (que água é essa? Onde eles abastecem?) acaba voltando, como uma força da natureza, neste caso, tipicamente carioca.
E foi assim que um dia os latões voltaram a circular, permitindo que a gente escolha se quer mate ou limão ou, então, delícias das delícias, a mistura de ambos, nas doses preferidas, de acordo com o gosto do freguês.
Com o sal nos lábios, após um mergulho, não existe nada mais gostoso, específico e insubstituível. É puro prazer....
Prazer fácil para quem está a beira mar, no Rio de Janeiro. É, só lá. O Atlântico se extente ao longo de todo o vasto e rico litoral brasileiro mas, biscoito Globo e o mate de latão geladinho com limão a gosto, só rola mesmo no Rio, não só em janeiro, mas durante o ano inteiro...
*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval
Este artigo faz parte da série Ponta do Leme
Este artigo faz parte da série Ponta do Leme

Um comentário:
Cada vez mais eu digo que o Rio de Janeiro é um pedaço do paraíso na terra, até porque problemas existem em todos os lugares, com maior ou menor intensidade... É só fechar os olhos, que depois de ler o texto, se imagina estar na areia de Copacabana...
Muito dez...
ABS
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