Último gole
Texto de Valéria del Cueto
Cheguei fá faz uns dias, mas não consegui me desligar das impressões da viagem. Algo me prende. O fio ainda está esticado.
Adoro viajar, conhecer, explorar e, também, voltar a alguns lugares e passagens anteriormente percorridos.
O reencontro pode ser tão estimulante quanto o descobrir. Especialmente se exploramos e interagimos com diversos aspectos locais.
Explico: no caso de um retorno, ao fazê-lo, há várias possibilidades de erros e acertos nos motivos que nos fazem, algumas vezes, deixar de lado tempo, grana e a disponibilidade pra conhecer novos lugares, usando esses recursos para voltarmos sobre nossos passos.
O segredo é sempre haver muitos passos para serem repisados. Artísticos, culturais, paisagísticos, sentimentais, familiares. Aqui não me refiro apenas às famílias consangüíneas e, sim àquelas com quem convivi, as que me adotaram e foram adotadas por mim. Gonçalves, Boabaide Yule, Vidal, Pedra, Rocha, Keller, Bermudes, da ilha (dessa a saudade dói) e tantas outras aqui representadas pelas já citadas. Gente de abrigo, acolhida e querer bem.
Elas são grandes razões para me fazerem querer voltar...
Claro que acontecem decepções, regressões e perdas. O risco é menor quando podemos diluí-las nas coisas boas que permanecem ou evoluem.
Estes caminhos são representados pelos fios da minha teia, criando e amarrados um a um em muitas direções desse mundão afora.
De vez em quando um deles se tenciona me chamando em sua direção. Sempre que posso atendo o mais rápido possível ao chamamento. Que pode ocorrer através de qualquer um dos sentidos.
Na viagem ao sul um gosto me acompanhou. O do refrigerante de “pomelo” (grapefruit) PASO DE LOS TOROS, o uruguaio.
Meu sábio pai teve a inspiração de levar uma caixa da garrafinha para Uruguaiana, de onde saímos para a viagem de volta com os dois últimos exemplares na mochila. Ele tomou todo o dele no ônibus para Porto Alegre. Eu cheguei ao Rio com meia garrafa muito bem fechada para não perder o gás.
Dois dias depois tinha a impressão de ainda não haver desembarcado. Faltava finalizar algo.
Abro a geladeira. Lá está o PASO DE LOS TOROS.
Não dá pra confiar que não perderá o gás e a mística se ficar mais tempo refrigerado. Despejo o líquido que faz cosquinha na garganta me despedindo da viagem, até então inacabada, apesar de estar em casa novamente.
Meu último gole. Respiro fundo. Acabou...
Bom, mais ou menos, descubro quando fecho a porta do refrigerador. No fundo da prateleira me olha a vaquinha em cima do nome LAPATAIA. Abaixo, no rotulo da caixa, a imagem da estância famosa pelo dulce de leche que ocupará minhas noites de vídeo com colheradas generosas de delícia...
...
*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta, gestora de carnaval e porta-estandarte do Saite Bão. Esta crônica faz parte da série Fronteira Oeste do Sul, do SEM FIM http://delcueto.multiply.com
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