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segunda-feira, 27 de março de 2017

(Ainda) é carnaval

Texto e foto de Valéria del Cueto

Eita carnaval 2017 que não acaba... Pulei duas semanas de escrivinhação sem um grande estímulo pra sair da vida de foliã já que a realidade não está fácil pra ninguém. Viajei e caí no Fora de Época de Uruguaiana, Rio Grande do Sul, para ver o querido carnavalesco Severo Luzardo ser bicampeão pelos Rouxinóis, numa homenagem mais que merecida à querida Magda Gonçalves, sua mãe, que nos deixou em 2016.

Na bagagem uma enorme vontade de pular os acidentes do Grupo Especial do Rio de Janeiro e contar, de forma poética e emocional, a crônica da porta-bandeira da Unidos de Padre Miguel que caiu na pista no segundo dia do Grupo de Acesso, o sábado, na Marquês de Sapucaí.

Jéssica Ferreira se apresentava diante do módulo duplo de julgadores quando num rodopio desabou no meio da pista. Foi atendida por Carlos Brilhante, coordenador de apresentação dos casais, membros da agremiação, o criador da Escola de Mestre-Sala e Porta-Bandeira Mestre Manoel Dionísio, além dos maqueiros do Corpo de Bombeiros, diante do público estarrecido. A paralisia foi quebrada quando Manoel Dionísio orientou os diretores de harmonia da escola para que trouxessem a substituta, a segunda porta-bandeira. O mestre-sala Vinicius, cumprindo seu papel, segurava o pavilhão da escola, entregue à sua guarda por Jéssica que o sustentou no momento da queda e o passou ao parceiro e guardião para ser socorrida.

Imaginem o susto da segunda porta-bandeira ao ser requisitada, alas atrás, a seguir representando a escola. Agora, como titular. Para mim a cena, registrada pela fotógrafa Luana Ramos Dias, em que Manoel ergue o queixo de Vinicius acalmando-o enquanto a nova parceira não chega é uma das mais belas do carnaval 2017. Aquela era a imagem que gostaria de ter feito...

No dia seguinte, perguntei ao criador da escola de casais o que ele falou para Vinícius naquele momento. O mestre contou que o animava erguendo sua cabeça e dizia para segurar a emoção pois caberia a ele dar força e segurança para Cássia Maria, que não tinha ideia do que havia acontecido e teria que desfilar a partir dali com o pavilhão principal da agremiação.

Por que não fiz o registro? Tinha feito várias fotos do casal no primeiro módulo, algumas nesse outro e, com a certeza que o material estava satisfatório, optei por correr para a frente da escola e subir para a torre de transmissão. De lá faria as fotos da cabeça da escola, comissão de frente e do casal de um ponto diferente, mais alto. Confesso que nem reparei no fato da roupa da porta-bandeira ser totalmente diferente da que havia registrado nos dois primeiros módulos. O que chamou minha atenção foi a coreografia que não correspondia a que havia visto anteriormente. Só aí notei que havia algo incomum...

Fiquei ainda mais impressionada com o episódio quando, ao sair da pista e ser entrevistado, Vinícius citou um fundamento que diz que nenhum mestre-sala dança sozinho, aprendido na Escola Mestre Dionísio, mas que ele precisou estabelecer um contato com o público. Acreditem, ele pediu desculpas à comunidade de Vila Vintém pelos passos que havia dado na pista enquanto esperava a chegada de Cássia Maria, trazida por Quenga, diretor de harmonia.

Foi um carnaval de tantas surpresas (como a perda de um décimo que custou o título a Mocidade Independente de Padre Miguel, penalizada pela ausência de um destaque que não constava do abre-alas, o livro guia dos jurados em sua versão final, só descoberto quando foram liberadas as justificativas das notas essa semana), que precisava de um fato que depurasse e marcasse a força da superação (?) do povo do samba.

Ela veio através das redes sociais num áudio anônimo que “simula” uma conversa entre a carnavalesca da São Clemente, Rosa Magalhães (outra injustiçada nas notas dadas pelos jurados), e o presidente da Liga das Escolas de Samba, Jorge Castanheira. Nela, a supercampeã comenta os acontecimentos ocorridos após a divulgação dos fatos que tornaram a performance do júri desse carnaval inesquecível. Satirizando suas próprias mazelas, o episódio vai ficar na memória de todos os que presenciaram ou acompanharam o carnaval.  Esse de 2017, que parece não ter fim...

**Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É Carnaval”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com
Studio na Colab55

domingo, 13 de julho de 2014

Não tem preço


Mocidade  14020 285 apoteose bandeira br geral
Texto e foto de Valéria del Cueto
E não é que não houve amanhã? Assim, no más, fico pensando em uma semana atrás quando praticava minha caçada preferida ao assunto central da crônica. Sempre procuro o lado bom, pitoresco e - se possível- um registro diferenciado do cotidiano. Como fazer quando parece que o mundo virou de ponta cabeça? Onde antes havia esperança, agora há apenas um tremendo nó na garganta. Depois de tantas especulações e projeções, morremos na praia de morte bem matada, morrida e justa, com o mundo e uma nação inteira de testemunho da derrocada vergonhosa e inevitável. Dizem os alemães que poderia ter sido pior. Acredito neles!
E que não venham dizer que a culpa é do colombiano que arriou o Neymar. Nada justifica o inevitável. Em 06 minutos caíram por terra: planos, sonhos, teorias que (agora) sabemos mirabolantes e muito, muito marketing.
Os sinais de que a cantoria e a batucada desafinada  não segurariam o chão da escola da vida centrada no “Brasil, ame-o ou deixe-o” do novo milênio estavam todos ali, para quem quisesse ver. Alguns até tentaram alertar para o perigo. Mas a coisa foi andando, as etapas sendo ultrapassadas aos trancos e barrancos e todo mundo ficou se achando, embalado em mantras publicitários emocionais e milionários. Lição: não há “me engana que eu gosto” que resista a seriedade e foco, a não ser que você consiga o impossível: combinar com os alemães!
O povo esqueceu o mau humor e seus problemas por quase um mês e já estava quase acreditando que a vida era uma partida de futebol meia boca cercada por todos os lados de penduricalhos, adereços verde e amarelo e aquela musiquinha do hexa, a que nunca foi composta. Até ali, quando a seleção... Deixa pra lá. Por que foi lá, em BH, e não aqui que tudo mudou.
Deus, que continua sendo brasileiro, mudou o tempo e, com a ajuda de São Pedro, está fazendo o céu vir abaixo desde então. No Rio, choveu a cântaros depois do jogo de terça feira, o que esfriou os ânimos de quem estava em Copacabana, pronto para comemorar e cantar, com Diogo Nogueira, mais uma vitória da equipe canarinha, ou...
De lá pra cá, o aguaceiro para, mas recomeça diariamente em grandes proporções. Resultado: Estamos em estado de alerta pluviométrico! Chamem o Cacique Cobra Coral para proteger nossos convidados!
Se fosse só isso... Nesses dias, parece que a sacudida foi mais ampla: tem hóspede vip de empresa parceira da FIFA fugindo do mítico Copacabana Palace (hospedagem sede da entidade), pela porta lateral do hotel mais charmoso do Brasil com a polícia em seu encalço com um delay de alguns minutos, o carioca descobriu que não verá nenhum jogo da seleção no Maracanã e - ainda por cima - somos território de los hermanos que, com todo o direito e barulho correspondente, fazem a festa na Princesinha do Mar, expandindo seus domínios e as comemorações para outros locais simbólicos da Cidade Maravilhosa, entre eles, o Sambódromo Darci Ribeiro. Depois de lotarem o Terreirão do Samba com motorhomes e barracas de camping, é para lá que eles “cresceram” e de onde pretendem lançar a cabeça de ponte para mais um título mundial de futebol.
A nós, restará o papel de meros espectadores quando a mandatária mor do país do futebol entregar, nesse domingo, a taça do mundo para nossos algozes alemães ou para os vizinhos argentinos. No segundo caso, a festa vai comer solta no Rio de Janeiro. No primeiro,  pelo menos, no quiosque aqui do Leme, onde os alemães têm se concentrado para comemorar cada passo em direção a mais uma conquista.
Isso não parece uma fábula fabulosa? Mas não é! Não tenho tanta imaginação...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com

domingo, 29 de junho de 2014

Sem dizer adeus

Protesto 1406023 049  PM Protesto faixa fotografo Copacabana Palace
Texto e foto de Valéria del Cueto
Parto para um novo caderninho, daqueles onde escrevinho as crônicas semanais. Abro as novas páginas  com tudo que tenho direito. Inclusive a localização privilegiada que é a Ponta, o Leme, o sol, a praia e o mar.
Tudo numa redoma de onde só ouço o pulsar, não do mundo, mas do imenso palco do FIFA Fan Fest que, lá à frente da Avenida Princesa Isabel, se estende em direção ao Copacabana Palace. Ali, sim, num ruído ensurdecedor que deve estar desesperando os moradores de um dos mais valorizados IPTUs da Cidade Maravilhosa.
Aqui só chega o som grave das batidas produzidas  pelas superpotentes caixas de som. Isso não atrapalha o som da Ponta: o das ondas - hoje calmas - que se espraiam pela areia.
No entorno da praia até vazia do feriado (hoje é dia de jogo no Maracanã) uma babel de línguas pode ser captada. “Brasil é Brasil, com todos os problemas nosso país é “phoda” afirma olhando o horizonte que se esparrama após  os mais lindos tons do azul ao verde esmeralda, cada vez mais profundo, do marzão oceano Atlântico que delimita o orgulho explícito no  comentário do banhista brazuca para os amigos, entra uma prancha de surf e uma deschavada.
O assunto descamba para o de sempre: o mar e suas condições nos últimos dias. Calmo e com temperatura cálida, num típico dia de veranico de inverno (?!). Como para mim, para eles a descontraída marítima tem um prazo: o da a próxima partida de futebol.
A vida tem sido assim, entre um horário de jogo da Copa do Mundo e outro. Sem falhas até começarem a acontecer as partidas simultâneas. Onipresença não rola...
Até às 13 horas praia, compras e compromissos. Depois, as tarefas entre jogos, com direito a produção fotográfica, edição e publicação nas redes sociais.
O ponto de vista é o daqui: lateral esquerda de Copacabana, o epicentro esportivo cultural da Copa do Mundo da Fifa de Futebol 2014, Rio de Janeiro, Brasil.
Em raids diários - ou não - surgem as imagens fotográficas do #justnow atualizadas no relato publicado no #copa2014bacana junto com algumas peculiaridades recolhidas nas notícias que estão rodando o mundo sobre o evento.
Não esperem dessas fotos grandes lances. Estes estão acontecendo diante das lentes de milhares de câmeras e equipes do mundo inteiro, principalmente nos campos dos milionários estádios da Copa.
#justnow é um ensaio do pequeno, quase sempre do não pousado e nada produzido que passa diante dos olhos maravilhados de qualquer um que circule pela orla da Princesinha do Mar, seja turista ou morador.
São fotos para serem analisadas, não apenas apreciadas esteticamente, por seu conteúdo procurar relatar um contexto que se movimenta e interage com uma velocidade inconstante. Um desafio onde exercito a máxima do “vacilou, perdeu!”
A imagem vista e não clicada é irrecuperável como a vida e os momentos que  estamos testemunhando. Sejam de euforia ou de protesto.
É, porque apesar de insuficientemente divulgados, eles, os protestos, estão acontecendo. O caldeirão está fervendo...
Na manifestação que um dia desses cruzou a orla de Copacabana da UPP do Leme até a do Pavão/Pavãozinho, no outro lado da praia, no Posto Seis, um fotógrafo resumiu a ordem dos fatores que, no momento, ainda altera o produto.
“Os coleguinhas brasileiros deveriam abrir espaço para os estrangeiros. Eles podem mostrar ao mundo o que está acontecendo por aqui. Nossas imagens param nas redações.”
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com