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sábado, 6 de outubro de 2007

HÉLIO LOPES: ENCONTRO EM COPACABANA

HÉLIO LOPES: ENCONTRO EM COPACABANA

som precário e texto de Valéria del Cueto

Ainda dói muito. E assim foi até a hora em que alguém me disse o que todo mundo falava: Que é preciso deixar a dor partir. Pra ajudar na “passagem”. Como foi tudo muito rápido, uma certa  confusão é compreensível. Fica-se assim, meio perdido. E a dor só atrapalha, confunde as prioridades.

Lembrei de quantas vezes te convidei pra vir conhecer o lugar onde nasci, o Rio de Janeiro. Insisti, ameacei. E, se o que dizem os entendidos é verdade, agora você está aí, pra quem te chamar. Se tem coisa em que acredito, é na minha fé. Torta, mas firme, poderosa. Foi nela que me peguei, quando sexta-feira a noite, voltando da faculdade, fui atraída por um som diferente, que vinha da direção do Copacabana Palace, na praia. Ali entendi qual era o efeito da flauta mágica e do flautista de Hamerlin, que atraía as crianças com seu som. Fui atraída pela música.

Há duas semanas não conseguia produzir nenhuma imagem, como se meus olhos não encontrassem as lentes certas, errassem o foco ou esquecessem dos princípios básicos de fotografia. Não havia nada a ser revelado além da minha dor e, esta, apenas me cegava.

Aí, ouvi a música. Vi imagens projetadas acima do grande palco montado em Copacabana para a apresentação da Orquestra Sinfônica da Petrobrás que comemora os 35 anos do projeto Aquarius e me vi, mais uma vez, diante de um momento que vai se cristalizar na minha memória para sempre: era o ensaio geral do espetáculo, para milhares de pessoas, que vai acontecer daqui a pouco.

Seguranças, técnicos, e alguns curiosos não eram suficientes para lotarem o espaço na areia diante do palco. Era como estar no paraíso. Com direito a making off.

Chamei por você. Te intimei a partilhar, mais uma vez, a sensação de estarmos, como sempre, no lugar certo, na hora certa. E consegui, finalmente, ter paz e comungar minha saudade.

Não tinha uma câmera para registrar as imagens. Estava sem o celular para fazer uma Xepa. E aí, me peguei rindo. Da ironia: o momento seria, sim, registrado. Não nas imagens que sempre nos fez únicos, mas... em áudio. No meu microgravador. Sem a qualidade desejável, mas com o ineditismo que sempre nos perseguiu...

E assim foi feito.

Este é um trecho de Asa Branca, na versão do grande mestre Sivuva no concerto que, no momento em que escrevo, ainda não aconteceu, mas já provocou efeitos que só a música consegue produzir. Quando parece que a tormenta não vai passar nunca...

No podcast do SEM FIM... http://valeria-delcueto.podomatic.com/entry/2007-10-06T14_11_27-07_00

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Caçada



Video documentário de Valéria del Cueto e Hélio Lopes, 1998
Uma "caçada de facho" no Pantanal, paraíso ecológico, no centro da América do Sul. Um tipo de aventura noturna que utiliza faróis poderosos para atordoar e facilitar o abate .
Em vez de uma arma... a câmera Hélio Lopes registrando o que esteve na nossa "mira" durante a caçada. A reação de moradores da região de Mimoso e da sociedade mato-grossense, com a possibilidade da liberalização das leis ambientais.
A colaboração da família Reiners, em especial de Hugo Reiners, e da equipe de Fiscalização de Caça e Pesca da FEMA/MT possibilitou a realização deste trabalho

domingo, 23 de setembro de 2007

Hélio Lopes




Helinho filmando a exibição de "História Sem Fim... do Rio Paraguai - o relatório", no seu lançamento em Cuiabá, em maio de 2006.
Eu grudada nele, querendo "captar" o que ele estava achando de uma pequena mostra de um dos muitos sonhos que realizamos juntos.

HELIO LOPES: MEU OLHAR MATOGROSSENSE

HÉLIO LOPES: MEU OLHAR MATOGROSSENSE 
de Valéria del Cueto, 23 de setembro de 2007

Cheguei em Cuiabá no dia 24 de julho de 1984. Nesse dia, nos corredores da TV Centro América, cruzei com um índio de cara amarrada, que não se deu nem ao esforço de me cumprimentar. Eu ia encontrar Eduardo Ricci, então chefe de jornalismo da emissora, onde iria trabalhar como repórter. “Liga não, Valéria, é timidez”, justificou Eduardo. Foi ele quem me contou que Helinho era câmera e, antes, tinha sido auxiliar, fazendo o caminho percorrido por milhares de cinegrafistas do interior do Brasil, no início dos anos 80.  É que, naquele tempo, câmeras, fitas e baterias ocupavam espaços distintos do equipamento ligados por cabos. Onde ia o câmera, ia o auxiliar, carregando o gravador e apetrechos afins.
Sei que ele estava lá, era cinegrafista e, teoricamente, um dia, cairia na minha equipe. Isso se não fizesse tudo o que podia para trocar com alguém, mudar a escala. Cismou que não ia me aturar. A coisa era tão séria, que chegou a virar piada na emissora. Até que um dia...Não teve escapatória. Ninguém podia substituí-lo. Confesso que me aproveitei da situação e torturei o cara. Sempre em tom de brincadeira. Mas que judiei, judiei. Pedi ângulos inesperados, dei palpites na captação das imagens. Tudo que, já tinham me contado, ele detestava que fizessem: se metessem no seu trabalho.
Nunca podia imaginar que Helinho estava entrando na minha vida para sempre. Que seria meus olhos e me surpreenderia com imagens especiais em cada dia que trabalhamos juntos. E foram muitos. Aprendemos juntos. Inventamos juntos. Brigamos, discutimos e criamos. Traduzimos, registramos e... sonhamos. Alguns sonhos se tornaram realidade e fui muito feliz em partilhá-los com ele. Sua família, sua casa, nossos amigos, os projetos em comum que realizamos. O prazer de reencontrá-lo a cada ausência, como se fossem dias ou minutos os anos que estive longe dele. Sua alegria, nosso abraço. Sempre apertado.
Nas externas, trabalhando, chegou um momento em que não falávamos mais. Bastava um olhar, um aceno, para que meu texto fosse a sua imagem e vice versa. Para mim, é fácil reconhecer o olhar de quem, por muito tempo, sentiu e traduziu em imagens a Cuiabá  e o Mato Grosso que trilhamos juntos por quase 20 anos.
Tudo isso existe, é real,  e parte está guardada. Espero que muito bem guardada. Impressa em centenas de horas imagens de telejornais e documentários das principais emissoras e produtoras da capital por onde Helinho passou, ganhando prêmios como o conquistado por “Caçada”, reportagem da TV Gazeta, no Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá, em 1997. Suas imagens correram mundo. Seu nome apareceu em telas de todo o Brasil, de Santiago do Chile, Londres e Bangkoc.
Lembro a alegria de Hélio por poder operar a câmera de cinema Super 16 mm com que rodamos parte do material do curta metragem “História Sem Fim... do Rio Paraguai- o relatório”. Helinho era o responsável pela câmera de vídeo, mas nas cenas em que o diretor Lula Araújo aparece, era ele quem fazia a fotografia. Durante toda a viagem, ele me dizia que não estava satisfeito com o material que estava produzindo em vídeo, que faltava algo especial, sem notar que o conjunto da sua obra por si só e o fato de estamos juntos ali, era simplesmente sensacional. É claro que seu material é primoroso...
Nos últimos anos, longe de Mato Grosso, sem seu “olhar cuiabano” para imprimir em vídeo os meus delírios e registros, tive que procurar outros meios para exprimir minhas imagens. Comecei a levar a sério a fotografia, enquanto capto para o “Sem Fim...do Pantanal”. Era nele que, pensei, reencontraria Hélio Lopes, numa nova viagem mágica por municípios pantaneiros, talvez no ano que vem.
Mas ele veio antes, de uma maneira inesperada e dolorosa. Está aqui comigo, nas  lágrimas que insistem em sulcar meu rosto funcionando com um filtro milagroso que traz Helinho para os olhos de todo mundo que, neste momento, lamenta sua ausência. Essa nova lente, que se incorpora a minha visão, veio para ficar. Ser presente e especial. Agora, eu o tenho no meu olhar e, através das minhas imagens, presentes e futuras, o que aprendemos  e vivemos juntos continuará a existir. Para sempre...
Valéria del Cueto e só