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sábado, 18 de julho de 2015

Orquestra 150714 054 Noemi partitura LUNA violoncelo

Briga boa

As portas ainda fechadas da entrada principal diminuem a cacofonia sonora que invade a plateia vazia do teatro. No palco cadeiras são arrastadas e alinhadas, estantes montadas e, nelas, colocadas cuidadosamente  partituras musicais. Os monitores passeiam com seus diapasões eletrônicos entre os músicos afinando violinos e violoncelos. Grandes, médios e bem pequenininhos.
Os membros da orquestra chegam aos poucos e vão assumindo suas posições procurando ocupar da maneira mais confortável possível o espaço que lhes cabem no apertado latifúndio musical. O palco é o limite. Todos muito compenetrados, cientes de seus papéis. Alguns esticam o corpo corrigindo a postura para empunhar seus instrumentos.
O programa distribuído na entrada do Teatro do Centro Cultural Light, no centro do Rio de Janeiro, informa que o Núcleo de Vivência Musical da Rua Larga apresenta “Luna, um olhar sobre a Terra”, de Leonardo Sá, com aOrquestra e o Coro  Infanto-juvenil Maestro José Siqueira, regidos por Noemi Uzeda. O projeto é patrocinado pela Secretaria Estadual de Cultura do Governo do Rio de Janeiro, por meio da Lei de Incentivo à Cultura e a Light.
Orquestra 150714 100 Agradecimento 02 centro otimaA orquestra de cordas é formada por 50 crianças, de 8 a 16 anos. O coro, da Escola Villa-Lobos, tem mais 30 componentes. Alguns dos talentos que estão no palco para o concerto cruzam sozinhos de um lado ao outro da cidade para participarem das aulas de música.
Quando as portas se abrem e os assistentes começam a entrar em busca de lugares para acompanharem a apresentação, as crianças perdem um pouco o ar compenetrado e se concentram em procurar com seus olhares parentes e amigos que lotam o teatro.
É uma plateia diferente. Pais, mães, irmãos (incluindo os bem pequenininhos), amigos e participantes de outros projetos que se desenvolvem no Centro Cultural. A entrada é grátis, para um espetáculo que não tem preço!
Nada se compara as emoções expressas nas faces de todos. Das crianças por estarem mostrando seus talentos. Dos professores e monitores pela realização de mais um ano do projeto que começou em 2008. Ainda restam dois alunos da turma original, aplaudidos com entusiasmo. Os pais se sentem recompensados pelo esforço do leva-e-traz para as aulas. Um sacrifício, agora sabem, compensador.
http://www.youtube.com/watch?v=ll3wAj929pI
E aí, vendo os incríveis efeitos desse convívio musical e o aprendizado da criançada, fica a pergunta: se é lei, por que ainda não estão reimplantadas nas escolas públicas e particulares as aulas de música? O que falta para que seja implementada uma disciplina  de aprendizado tão fundamental como essa?
Ver as crianças da orquestra disciplinadas, concentradas e responsáveis pelos seus respectivos papéis dentro da coletividade, é comprovação mais que suficiente dos benefícios que o ensino musical produz na formação de um cidadão. Quem mais precisa vir ver in loco o que este processo de aprendizado pode fazer pelas crianças brasileiras?
Qual a ação necessária para que se faça cumprir a lei?
No momento em que as diferenças se sobrepõem e dominam o debate social de uma forma dramática e apaixonada, é essencial um movimento na direção inversa. Precisamos ensinar e difundir as semelhanças, incentivar o coletivo, a convivência, a solidariedade. E, quando o assunto é educação, lutar batalhas que valham a pena. As que agreguem e criem harmonia. Caso do ensino de música.
Se todos os atores deste processo se unirem e as ações existentes forem devidamente difundidas e valorizadas, em algum momento, a luz da música vai iluminar a escuridão da ignorância. E todos, juntos, cantarão a vitória de uma prática que, além dos demais benefícios,  alegra a alma.
#musicanaescola #élei
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com
E3- ILUSTRADO -SABADO 18-07-2015
Edição Enock Cavalcanti
Diagramação Nei Ferraz Melo

sábado, 6 de outubro de 2007

HÉLIO LOPES: ENCONTRO EM COPACABANA

HÉLIO LOPES: ENCONTRO EM COPACABANA

som precário e texto de Valéria del Cueto

Ainda dói muito. E assim foi até a hora em que alguém me disse o que todo mundo falava: Que é preciso deixar a dor partir. Pra ajudar na “passagem”. Como foi tudo muito rápido, uma certa  confusão é compreensível. Fica-se assim, meio perdido. E a dor só atrapalha, confunde as prioridades.

Lembrei de quantas vezes te convidei pra vir conhecer o lugar onde nasci, o Rio de Janeiro. Insisti, ameacei. E, se o que dizem os entendidos é verdade, agora você está aí, pra quem te chamar. Se tem coisa em que acredito, é na minha fé. Torta, mas firme, poderosa. Foi nela que me peguei, quando sexta-feira a noite, voltando da faculdade, fui atraída por um som diferente, que vinha da direção do Copacabana Palace, na praia. Ali entendi qual era o efeito da flauta mágica e do flautista de Hamerlin, que atraía as crianças com seu som. Fui atraída pela música.

Há duas semanas não conseguia produzir nenhuma imagem, como se meus olhos não encontrassem as lentes certas, errassem o foco ou esquecessem dos princípios básicos de fotografia. Não havia nada a ser revelado além da minha dor e, esta, apenas me cegava.

Aí, ouvi a música. Vi imagens projetadas acima do grande palco montado em Copacabana para a apresentação da Orquestra Sinfônica da Petrobrás que comemora os 35 anos do projeto Aquarius e me vi, mais uma vez, diante de um momento que vai se cristalizar na minha memória para sempre: era o ensaio geral do espetáculo, para milhares de pessoas, que vai acontecer daqui a pouco.

Seguranças, técnicos, e alguns curiosos não eram suficientes para lotarem o espaço na areia diante do palco. Era como estar no paraíso. Com direito a making off.

Chamei por você. Te intimei a partilhar, mais uma vez, a sensação de estarmos, como sempre, no lugar certo, na hora certa. E consegui, finalmente, ter paz e comungar minha saudade.

Não tinha uma câmera para registrar as imagens. Estava sem o celular para fazer uma Xepa. E aí, me peguei rindo. Da ironia: o momento seria, sim, registrado. Não nas imagens que sempre nos fez únicos, mas... em áudio. No meu microgravador. Sem a qualidade desejável, mas com o ineditismo que sempre nos perseguiu...

E assim foi feito.

Este é um trecho de Asa Branca, na versão do grande mestre Sivuva no concerto que, no momento em que escrevo, ainda não aconteceu, mas já provocou efeitos que só a música consegue produzir. Quando parece que a tormenta não vai passar nunca...

No podcast do SEM FIM... http://valeria-delcueto.podomatic.com/entry/2007-10-06T14_11_27-07_00