domingo, 15 de maio de 2011

Contenpla ação

 






Contempla ação

Texto e foto de Valéria del Cueto

Estou no trecho olhando a ressaca que castiga o litoral após dias e dias de uma chuvarada impertinente e inoportuna.

Graças a Deus tudo voltou ao normal e o sol de maio brilha, filtrado por um véu de finíssimas nuvens que riscam o céu azul de outono.

Pranchas, pranchinhas e pranchonas sustentam os corpos dos afoitos nadadores que, com as costas protegidas por camisas ou neoprene se expõem ao sol esperando “a boa”.

Hoje elas são muitas, para todos os gostos. Variam de tamanho, força e direção, quebrando em todos os sentidos, à direita e à esquerda, conforme o gosto exigente dos fregueses.

A única coisa chata é que a maré está trazendo a mancha de sujeira de dentro da Baía de Guanabara.

“Um absurdo”, se revolta um banhista de primeira viagem no local.

Para quem conhece o pedaço apenas uma indicação de que é hora de se dedicar a outro esporte.

Pranchas largadas na areia, roupas secando sobre elas (as camisetas protetoras, de algodão ou neoprene), quatro cocos vazios, uma bola, os desportistas divididos em dois times. É hora da pelada!

Na água, só quem é perna-de-pau ou tem horário e não pode esperar, pacientemente, a virada da maré e o lixo irem embora.

Estes ignoram a espuma não tão branquinha e seguem caprichando nas manobras acrobáticas sobre as ondas.

Um dos garotos passa e me cumprimenta enquanto indecisa não sei o que fazer: fiscalizar os volteios aquáticos, acompanhar a partida animadíssima de futebol, que se desenrola em frente da tribuna de honra que ocupo ou escrever mais uma crônica da Ponta do Leme.

Oh, dúvida cruel. Sei que ela causa certa inveja em vocês, leitores, mas não deveria ser assim.

Pago um preço por momentos como esse. E não é baixo. Trabalho sim, e muito, para poder estar aqui em busca de paz e um bom assunto semanal.

É claro que, por livre e espontânea vontade, procuro falar de coisas boas agradáveis.

Não é fácil diante do que vejo acontecendo ai fora e aqui dentro (mesmo no paraíso somos abalados por elementos externos e inesperados que, se não transformam nosso entorno, afetam-nos no mais profundo âmago).

Mas não desisto do otimismo contemplativo e assertivo. E, quando sinto que minha prosa pode ser contaminada por eventos negativos, apelo para minhas armas: deixo de lado o caderno e a caneta e dedico toda minha atenção e energia à partida de futebol ou às manobras dos surfistas que se desenrolam diante de mim.

Elas são tão importantes e verdadeiras quanto os problemas monumentais que eu, um simples ser do Leme, não tenho como resolver.

* Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série Ponta do Leme, do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

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