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domingo, 24 de novembro de 2013

SMH: marca do “bota abaixo” vira arte

Paratissim131110 020 SMH Gisella Molina
Texto e foto de Valéria del Cueto
Torino, Itália, tem por tradição respirar arte contemporânea no início de novembro. Além da Artissima, feira das galerias de artes contemporâneas, que chegou a sua vigésima edição, também aconteceram outros grandes eventos, como “The Others” e a Paratissima, com a participação de 480 expositores.
E eis que no meio do caos das obras espalhadas no imenso espaço do Borgo Filadelfia-MOI, da Paratissima,  realizada de 6 a 10 de novembro, surgem cores e um desenho facilmente reconhecidos para olhos já saudosos dos tons quentes das terras tupiniquins.
Lá estamos nós, a bandeira brasileira estampada numa pipa pendurada num varal em plena exposição.
E não é tudo, por que, ali, no varal pregado na parede meio destruída tem de um tudo: boné, calção de jogar futebol, fotos, muitas fotos, presas por pregadores de roupas, gambiarras...
A parede é remendada por fita gomada e fios quase desencapados sustentam bocais com lâmpadas precárias.
Já vimos esse filme em algum lugar...
Em várias fotos se repetem três letras SMH, sempre perto do número da habitação retratada nas fotos, algumas coloridas, outras em preto e branco. Além das letras, o que chama a atenção são os olhos e as expressões das pessoas retratadas.
Mas não termina por aí. Se a parede parece uma confusão, o que dirá do piso em frente? Escada caída, roupas largadas, um velho colchão, lata de lixo, sacolas, pedaços de plásticos, fotos esmaecidas, fios enrolados, um balde.
Restos de vidas emaranhados e empoeirados delimitados por uma fita de duas cores, das que demarcam obras.
No canto direito da instalação – por que é disso que se trata - uma canga estampa a imagem da bandeira do Brasil.
Duas folhas explicam o conceito da obra que, nas fotos penduradas nos varais, mostra os personagens de uma tragédia carioca.
A reportagem mostra as vítimas das alterações que estão sendo feitas na zona portuária do Rio de Janeiro, provocadas pelas intervenções urbanas que estão sendo realizadas na cidade para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.
O mote do trabalho é a sigla SMH, estampadas nas casas marcadas pela Secretaria Municipal de Habitação da prefeitura carioca comandada por Eduardo Paes, na região. As marcas foram colocadas nas 832 habitações destinadas a serem demolidas para as intervenções de valorização da área.
O texto também explica que, para as famílias que deveriam deixar suas moradias, eram oferecidos seis mil reais e um auxílio aluguel de 400 reais até que fossem realocadas em casas populares, em data indefinida. O registro foi feito na área do no Morro da Providência, Morro do Pinto, Morro da Conceição, Morro do Valongo, Pedra Lisa e na zona portuária da Perimetral.
A instalação é da arte-educadora italiana, Gisella Molino. Ela passou uma semana fazendo uma imersão fotográfica no local das remoções.
A intervenção dividiu opiniões já que, segundo a artista, alguns espectadores reclamaram por ela mostrar uma face do país que “não representa toda a nossa realidade”.
O apelo no olhar das pessoas retratadas não foi suficiente para justificar, para essas pessoas que, se hoje somos “um país que vai pra frente”, isso se dá com o sacrifício dos que mais precisam de ajuda.
A ironia é que cabe a uma artista italiana ser a nossa voz para mostrar lá fora, o que acontece aqui dentro.
**Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com
ILUSTRADO DOMINGO    JULHO 2009

domingo, 20 de outubro de 2013

Falhei...

VenariaR 1301013 036 Corso del Rei vencedor
Texto e foto de Valéria del Cueto
Tinha me prometido que os textos publicados aqui não seriam mais na primeira pessoa. Mas, infelizmente, sou obrigada a quebrar minha jura. E fiquem certos, não é por um motivo de que me orgulhe. Falhei com quem mais amo e respeito: o povo do carnaval...
Sinto-me como o componente que vê sua escola pisar na avenida após uma chuva destruidora, ou o carro mais elaborado perder pontos decisivos no desfile. Fui até ali na beira da avenida e vi todos os meus esforços e o de tantos outros que estavam comigo serem transformados em apenas mais um sonho de conquistar o campeonato.
Foram 10 meses de trabalho, o tempo da preparação de uma escola de samba, para lançar na Paratissima, em Turim, Itália, a Mostra Carnevale di Rio, trabalho realizado no barracão da Mocidade Independente, em 2010/11. Foram tantas as pessoas que torceram por mim e pelo meu sonho...
Muito mais do que os incontáveis apoios que recebi de gente que, na época da captação do material, estava na produção do enredo Parábola dos Divinos Semeadores: no barracão, na quadra e na Sapucaí. Gente do mundo do samba como Cid Carvalho e sua incrível equipe (não dá para citar todos nesse espaço); Maurício d’Paula, grande destaque carnavalesco; o presidente da Mocidade, Paulo Vianna; Ricardo Dias, que apostou no trabalho - inédito no carnaval, divulgando semanalmente fotos da construção do enredo verde e branco.
Na longa jornada de produção da Mostra a eles se juntaram José Antônio Rodrigues, do Plumas e Paetês Cultural; Levi Cintra, responsável pela parte gráfica do projeto; Gus Cid, montador das videografias que compõem a instalação; Felipe Ferreira, com seu lindo texto de apresentação e a chancela do Centro de Referência do Carnaval; Fábio Fabato e seu amor pela Mocidade; MdCsuingue, do Caipirinha Appreciation Society; Luca Esposito que fez o site; Sara Fiorentino, responsável pelas traduções, Massimo Finocchiaro, meu agente na Itália e a Sportnet, a patrocinadora.
Foi assim que cheguei a Turim. Pronta para botar o pé na Paratissima 2013. Só que a realidade aqui era outra! Nada com que já não estivéssemos acostumados, não fosse o fato de que teria que descaracterizar o lindo “enredo” sobre o barracão que havia criado.
E foi aí que falhei... Falhei por não concordar com as condições em que deveria trabalhar: reduzindo as dimensões de um projeto de 160 metros quadrados para mínimos 20 metros quadrados, trocando um espaço de arte pelo dos patrocinadores. A grandeza da proposta não caberia nos 2 metros e 60 centímetros de altura que foram disponibilizados.
Ouvi todos os argumentos. Incluindo o de que o mais importante era fazer alguma coisa, porque no Brasil ninguém saberia o que realmente seria apresentado.
E falhei... Por não poder ser desleal com quem me inspirou e me trouxe, com sua energia maravilhosa, até aqui. Por não poder trair cada sorriso que vi nas milhares de fotos que editei para Gus Cid usar nas videografias.
Não consegui desconstruir a enorme energia e o carinho imensurável que recebi de todos vocês, que confiaram no meu trabalho. E assim, antes de entrar na pista, preferi desistir do desfile a ser responsável pela perda de pontos que poderia macular a essência do que pretendia apresentar para 100 mil visitantes.
Peço desculpas por ser fiel a nossa obra e, por isso, abrir mão de participar do evento italiano. Assumo a responsabilidade da derrota. Ela é tão dura e amarga quanto ver a agremiação que amamos não conseguir botar na avenida o sonho de um ano de suor e trabalho apaixonado.
Meu consolo é que, como todos do mundo do carnaval, sei que sempre resta uma esperança: a de que da próxima vez eu consiga fazer mais e melhor!
Agora, sei que faço parte desse povo do carnaval porque, como vocês, começarei de novo... Sabendo que sempre haverá outro desfile. No meu caso espero que com o mesmo enredo: a Mostra Carnevale di Rio.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É carnaval”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com