
Ipês na Pedra
Estava complicado. Como se atravessar a rua, passar pelo salão, pet shop, primeiro boteco, Marquinho, Arouca, Coutinho, Natu, dobrar na loja fechada, para a Aureliano Leal, atravessá-la também; seguir pela frente da Fiorentina, cruzar a primeira e a segunda pista da Atlântica, com o canteiro no meio; caminhar na diagonal pelo calçadão, depois de ultrapassar a ciclovia; dobrar nos quiosques em frente ao prédio azul; cruzar a areia para chegar ao local ideal; estender a canga, tirar a camiseta e a saia, abrir a bolsa, o caderno, achar a caneta e escrever sua crônica semanal fosse difícil para ela.
E era.
Antes de sair, matou as saudades da Neusa e paparicou Rai que pulava na barrigona dela, louquinho para conhecer o mundo.
Tentou, sem êxito, junto ao porteiro Antônio e Stefano, decifrar a utilidade do conteúdo da caixa deixada junto a lixeira de um dos andares do edifício: almofadinhas, como aquela do melzinho que a gente come na escola, só que maiorezinhas, com a seguinte inscrição na embalagem: o nome e a informação que elas são reutilizáveis, bastando colocar no congelador e não são tóxicas. Conclusão? Sabe lá pra que.
Fora do prédio, uma passada no salão, já do outro lado da rua, para marcar hora unha e um alô para Lena, a manicure, com direito as últimas informações sobre a São Clemente: final do samba e festa de aniversário da agremiação. Sandrinha, a cabeleireira, é ligada a direção da escola.
Passando direto pelo pet shop, que o tema não lhe interessava, e pulando o primeiro boteco, precisou dar uma vistoriada no empreendimento do Marquinhos, dono do armarinho/papelaria mais freqüentado pelo povo canto, e um oi para o Santos e a Helena, da mercearia Arouca.
Seguiu pela calçada só cumprimentando de longe o Coutinho, do bar. Mas seu olhar caiu na vitrine de salgadinhos da Natu, justamente quando uma nova leva de empadinhas de queijo era acomodada atrás do vidro. Não resistiu a motivação do pit stop, depois de uma seca de semanas.
Não adiantou nada sair com a empadinha na mão, pensando que a peregrinação estava mais prolongada do que gostaria. Na esquina, um dos motoristas do ponto de táxi reclamou da ausência de corridas para a quadra da Mangueira e o barracão da Mocidade nos últimos tempos. Para para explicar que está numa temporada no “exterior” a trabalho, visando garantir a tranqüilidade de mais uma temporada pré e carnavalesca carioca que se aproxima.
A seguir, veio a fiscalizada básica na obra de infra-estrutura sanitária que, já faz mais de duas ou três vindas, portanto há meses, fecha a rua Aureliano Leal para carros e afins. Nela já há, inclusive, local para os trabalhadores dormirem. A borboleta do fim da língua negra da praia ainda demora para sair do casulo.
Enfim a praia e uma reta: a linha que liga dois pontos, curva para validar a regra, pela necessidade de achar o plano certo para fotografar a Pedra do Leme abusando da sua fotogenia com adereços amarelos dos ipês floridos.
“Deus está aqui”, diz a legenda celestial para a imagem captada. “E eu também”, pensa ela.
Isso explica o atraso repreendido, com toda razão, pelo editor para a entrega dessa crônica.
Mas afinal, de quem é a culpa se hoje é sexta feira, são três da tarde (horário Brasília) e ela está na praia? O sol brilha, o mar está delicioso, os surfistas surfam, os banhistas brincam, a garotada joga uma partida de futebol na areia?
Tudo isso no Rio que é de janeiro, mas também dessa primavera que explode nas suas melhores cores e aromas, em plena Ponta do Leme...
* Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série Parador Cuyabano do SEM FIM http://delcueto.multiply.com
Um comentário:
Bye
Postar um comentário