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sábado, 20 de junho de 2015

Tá difícil! Pensando bem, quando não foi...


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Tá difícil! Pensando bem, quando não foi...
Texto e foto de Valéria del Cueto
Estamos em junho o assunto da última quinzena do mês  é... carnaval!
Pra quem pensa que a sequencia de maravilhas do mundo apresentadas num desfile de carnaval brota assim, de estalo, uma notícia: não é beeem assim.
De fevereiro para cá já rolou uma enormidade de água debaixo dessa ponte. A janela de contratações e troca-troca de agremiações começa ainda na pista da Sapucaí, no desfile das Campeãs. Uma época de montagem de estratégias e definições de estilos de trabalho para o carnaval seguinte. O vai-e-vem continua, mas sem dúvida, o momento das  surpresas e movimentações espetaculares não costuma chegar ao fim da quaresma.
O engraçado é que, como todo mundo vem “virando”, trocando o dia pela noite, tanto no pré-carnaval como nos dias de folia, as grandes notícias das contratações são dadas, em sua maioria, no fim de tarde/noite/ madrugada dos dias posteriores ao reinado de momo. As especulações também circulam nessa faixa horária...
Depois do boom dos sites carnavalescos as redes sociais se encarregam de repercutir com sua incrível capilaridade e uma agilidade espantosa os resultados das negociações. Elas prosseguem enquanto são realizadas inúmeras festas de entrega de premiações para todos os grupos, do Especial ao grupo E. O final da temporada é marcado pelo esperado Sambanet que aconteceu dia 22 de maio.
Mas aí, já havia outros assuntos palpitantes no circuito carnavalesco. Primeiro, os anúncios dos temas dos enredos. Seguido pela divulgação de seus textos e apresentação dos mesmos aos compositores das escolas de samba. É claro que cada uma tem seu ritmo. A única certeza é que os sambas devem estar definidos até as datas fixadas no calendário para as gravações oficiais, a tempo de distribuir os CDs para as vendas, antes do Natal.
Até lá ainda há muito trecho para percorrer e problemas a serem resolvidos. Especialmente num ano como esse, atípico em função da crise econômica brasileira...
Pode até parecer que ela é a bola da vez dos debates e reflexões que estão movimentando as mesas do  Sambacon, Encontro Nacional do Samba, em suas palestras. A segunda edição do evento acontece paralelamente a Carnavália, feira da cadeia produtiva do carnaval, no Centro de Convenções SulAmérica, Cidade Nova, ao ladinho do Estácio. A situação anda ruim pra todo mundo e seus reflexos certamente atingiriam os súditos de Momo. O problema é que outros fatores há muito vem se acumulando para o desgaste do modelo atual do carnaval.
Alguma novidade? Claro que não! Os cronistas carnavalescos já registravam há mais de um século os gargalos que estavam levando o carnaval para o buraco. E tome polca! Mais recentemente, as “Super Escolas de Samba S/A” viraram inspiração para os versos consagrados de Beto Sem Braço e Aluisio Machado nos idos de 1982, do “Bum Bum, Praticumbum Brugurundum”, do Império Serrano.
Nada que não possa ser posto na roda e discutido na primeira versão internacionalizada do Carnavália-Sambacon. Convidados da Europa, América Latina, Estados Unidos e Japão integrarão a mesa mediada do carnavalesco Milton Cunha, Professor Doutor em Teoria do Carnaval pela UFRJ.
Pensa que acabou? Uma vírgula! Na semana que vem o seminário “Sonhar não custa nada, ou quase nada? – Horizontes dos desfiles das escolas de samba no Rio de Janeiro”, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, reflete sobre 3 questões: Do que se trata um evento lúdico-artístico no qual os sonhos adquirem expressividade pública para audiências cada vez mais amplas? Como se materializam sonhos do Desfile das Escolas de Samba? Sob quais condições organizacionais, materiais e simbólicas, atualmente, tais materializações são possíveis?
A Academia quer mostrar que também tem samba no pé...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É Carnaval”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com 
E3- ILUSTRADO -SABADO 20-06-2015
Edição Enock Cavalcanti
Diagramação Nei Ferraz Melo 

domingo, 1 de junho de 2014

Até nosso lixo é um luxo!

Mangueira 140302 393 Renato Sorriso bandeira do Brasil aponta
Texto e foto de Valéria del Cueto
É muito assunto para pouco espaço, assim como é pouca caçamba para tanto descarte. Dito isso, vale ressaltar que o carnaval, como força motriz criadora e geradora, sempre andou a frente das teorias que permeiam sua produção artesanal e industrial.
No quesito gerência a aplicação de conceitos de consagrados especialistas mundiais em gestão da excelência (o PDCA de Deming, a adequação de uso com satisfação do cliente de Juran, as equipes de trabalho de Ishikawa, a filosofia de Crosby, o controle total da qualidade de Feigenbaum e os ensinamentos de Peter Drucker) são, atualmente, verificados na cadeia gerencial do cotidiano das escolas de samba. Como não dar a devida importância à questão do descarte na indústria carnavalesca?
“Nossa preocupação é em como colocar o carnaval na avenida. Como tirá-lo de lá, são outros 500...” A resposta pertinente a essa questão há alguns anos  deixou de ter consistência quando se detectou o valor do que saía das pistas de desfile (isso, para abordarmos apenas um “fim” da questão, deixando de lado, entre outras, a destinação das aparas da imensa produção dos barracões).
As agremiações começaram a vender e/ou doar fantasias e alegorias para outras entidades carnavalescas criando uma cadeia que pode começar na Sapucaí e terminar alguns anos depois, por exemplo, na passarela do carnaval de Alegrete/RS. Outra vertente é dos grupos que, depois de desfilarem no sambódromo carioca, se apresentarem em escolas de grupos inferiores na Intendente Magalhães, zona norte do Rio. 
Mas como agregar um selo de sustentabilidade a todo esse esforço ainda incipiente se levar em consideração a imensa quantidade de “lixo” recolhido nas dispersões carnavalescas? Nesse momento temos movimentos e ações realizados individualmente pelas escolas de samba e outros agentes do processo. Como sempre pioneiros e inovadores apesar de, mais uma vez, serem grandes laboratórios na prática para, somente posteriormente, serem reconhecidos e compreendidos pelos teóricos. Eles, que já acordaram para mais esse fenômeno em desenvolvimento na indústria carnavalesca.
É possível identificar os atores principais do que será em breve um processo muito mais amplo. As escolas de samba não são as únicas envolvidas. A cadeia de responsabilidades que influencia e atua diretamente na questão dos descartes começa pelos fornecedores, os tipos de materiais e como eles são produzidos; passa pelos carnavalescos que definem o que será utilizado; os componentes e como vão tratar a fantasia que tem um valor agregado mesmo depois da apresentação; as escolas, que  viabilizam novas utilizações para as peças e pelo poder público, encarregado de recolher  o que fica para trás nas caçambas e espaços do entorno das passarelas.
Parece simples, mas não é. Pelo menos no caso do reaproveitamento do que fica nas dispersões. Uma das dificuldades é a diversidade incrível de materiais que dificulta a coleta, a separação e a seleção do que é, na verdade, um tesouro!
Já há iniciativas para fazer da arte desperdiçada e descartada outras peças, também de arte. É assim que ainda de forma incipiente, mas insistente, projetos tentam recuperar, classificar e, reinterpretando em novas leituras, reciclar a arte pela arte.
Sustentabilidade aos poucos deixa ser apenas tema de enredos carnavalescos para virar prática cotidiana na indústria sempre criativa e inovadora do carnaval.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Texto da série “É carnaval”
http://carnevalerio.com