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quinta-feira, 21 de abril de 2022

Valei-nos São Jorge! Um carnaval pra você

Fotos:

Foto 01 – Topo Bateria Mestre Ciça evolução Apoteose Boa

Título -  Valei-nos São Jorge! Um carnaval pra você.

Sub-título –
Tem desfile de Escolas de Samba no feriado dedicado a São Jorge e ao Choro, no Rio de Janeiro.

Foto 2 - Rainha Viviane Araújo boa

Legenda – Viviane Araújo, a rainha salgueirense anunciou a gravidez.

Foto 3 - ET BFlor 220327 015 CF componentes dourados mãos boa horizontal

Legenda – Beija- Flor e o trabalho de excelência da comissão de frente.

Foto 4 – Viradouro 220410 118 Ala destaque arlequim boa

Legenda – A carta sincera inspira a busca do Bi da Viradouro

Foto 5 - Ala destaque índia lança boa

Legenda – Waraná e a tribo Mawe, tema do enredo da Unidos da Tijuca

Foto 6 - Torcidas bandeiras Apoteose

Legenda – Torcidas reunidas para saudar as escolas

Foto 7 - Alas componentes sombrinhas boa

Legenda – Alegorias de mão e muita alegria no ensaio das alas

Foto 8 -  Baianas sorriso boa

Legenda – Pista liberada após a lavagem pelas baianas

Desfile de Escolas de Samba no feriado dedicado a São Jorge e ao Choro, no Rio de Janeiro.

Valei-nos São Jorge! Um carnaval pra você.

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Desfile de Escolas de Samba no feriado dedicado a São Jorge e ao Choro, no Rio de Janeiro.

Se alguém contasse, dariam risada da ideia (aparentemente) impossível... Após um ano e outro fevereiro perdido, a disputa carnavalesca carioca de 2022 se realiza nos dias 22 e 23 de abril. Vem depois do descobrimento do Brasil que passou em ritmo das apresentações do Grupo Ouro, o acesso, abrindo os trabalhos da pista do Sambódromo da Marquês de Sapucaí desde quarta-feira. 

Ensaio técnicos, o povo do samba na pista

O Desfile do Grupo Especial das Escolas de Samba do Rio de Janeiro já chega com mudanças significativas.  Depois da realização do mini desfile de lançamento na Cidade do Samba, em fevereiro, março entrou com a volta dos ensaios técnicos nos finais de semana no Sambódromo, como há anos não acontecia!

Os encontros coroaram o calendário prolongado por mais de 40 dias de preparação nos ensaios das quadras das escolas e ruas das comunidades. Ensaios de canto, bateria, dos segmentos. Como o casal de mestre-sala e porta-bandeira, a comissão de frente, as alas coreografadas. Carnaval não se faz da noite para o dia, o povo do samba trabalha o ano inteiro!

Pista? Sim. Rua, não...

Estão todos ansiosos para botar o bloco na rua. Quer dizer, as escolas na Sapucaí. Porque os primeiros, os blocos, oficialmente não ocuparão as ruas novamente, apesar dos apelos feitos ao prefeito Eduardo Paes. Ele justificou a negativa à realização da folia dizendo que “dá trabalho” montar a estrutura carioca. Fica a pergunta: quem nasceu primeiro, a festa ou a organização?  A resposta está nas ruas da cidade.

Luz, sim. Som? Não...

Também foram feitas mudanças por muitos carnavais adiadas, apesar de exigidas inclusive pelo Ministério Público, na área do Sambódromo. A pista da Marquês de Sapucaí foi recapeada, depois das obras de drenagem e saneamento, a estrutura reformada. A novidade mais chamativa é a nova iluminação cenográfica. Por enquanto os recursos serão usados nos intervalos das apresentações.

A maior reivindicação de todos os frequentadores da Sapucaí, no entanto, segue sem ser atendida. O som da avenida continua precário. Nele, deveriam ser aplicados os esforços para melhorar o espetáculo. Ele, sim, faz parte e interfere na qualidade da maior manifestação cultural do Brasil.

Enfim, era agora ou nunca, como desse, quem pudesse. E, cá pra nós, as escolas e suas comunidades estão ansiosas para ocuparem a pista!

Para quem quiser acompanhar os dois dias de maratona carnavalesca carioca serão transmitidos pela TV Globo, após o horário nobre, e pelo Globoplay a partir das 22 horas. A dica, como sempre, é ver pela TV ouvindo os comentários pelas rádios. A TupiFM - 96.5, por exemplo, segue as imagens com comentaristas como Fábio Fabato e João Gustavo Melo, do canal do youtube Boi com Abóbora, um fenômeno carnavalesco durante a pandemia. Veja no final do texto a ordem das apresentações. 

Pista liberada após a lavagem pelas baianas

Sexta-feira, 22 de abril

A primeira noite será aberta pela Imperatriz Leopoldinense, campeã do Grupo Ouro 2020. Voltando do acesso a verde e branco convocou Rosa Magalhães para lembrar os carnavais de Arlindo Rodrigues, os tempos áureos de escola de Ramos e seu patrono, Luizinho Drummond, com o enredo “Meninos eu vivi... Onde canta o sabiá, onde cantam Dalva & Lamartine"Um diferencial é o samba ter um único autor, Gabriel Melo.

“Se a saudade é certeza / Um dia a tristeza será cicatriz / Eterna seja! Amada Imperatriz!”

Com “Angenor, José & Laurindo” Leandro Vieira também conduz os componentes da Mangueira, a segunda agremiação a se apresentar, a um mergulho na própria identidade abordando ícones da comunidade. Cartola, Jamelão e Delegado representam a poesia, a voz e o corpo em movimento verde e rosa. Esse é um dos sambas de Moacyr Luz que estarão na Sapucaí. Ele também está  na parceria do Paraíso do Tuiuti que abre o segundo dia de desfiles.  

“Mangueira… teu cenário é poesia / Liberdade e autonomia / Que o negro conquistou”

Viviane Araújo, a rainha salgueirense anunciou a gravidez.

O Salgueiro também se volta para seus pilares com o enredo de Alex de Souza “Resistência”. Viviane Araújo, rainha da bateria Furiosa, anunciou recentemente sua gravidez e personifica os versos do samba-enredo.

“Sambo pra resistir / Semba meus ancestrais / Samba pelos carnavais”

O comediante Paulo Gustavo é o homenageado da São Clemente em “Minha vida é uma peça!”. Desenvolvido por Tiago Martins o tema traz, acima de tudo, uma mensagem de esperança, otimismo e apoio à diversidade.

“Rir é resistir, seguir em frente / Paulo Gustavo pra sempre”

Campeã do último carnaval, a Viradouro foi uma das primeiras escolas a anunciar seu enredo logo depois do início da pandemia. “Não há tristeza que possa suportar tanta Alegria,deMarcus Ferreira e Tarcísio Zanon, aborda o carnaval de 1919, o primeiro após a epidemia da gripe espanhola.

O samba causou polêmica nos meios carnavalescos por ser em forma de... carta! O cantor Zé Paulo Sierra e Mestre Ciça estão se preparando para tentar o bi-campeonato apoiados pela comunidade niteroiense, a que bancou a ousadia para declarar o amor do pierrô à sua colombina e à folia.

Encostei os lábios suavemente / E te beijei na alegria sem fim / Carnaval, te amo, na vida és tudo pra mim

A carta sincera inspira a busca do Bi da Viradouro

Alexandre Louzada, carnavalesco da Beija-flor, avisa no texto de apresentação que “Empretecer o pensamento é ouvir a voz da Beija-Flor, “é de autoria coletiva. Foi escrito pelas mãos, vozes e memórias de cada componente da nossa comunidade”. Emicida também é citado. Neguinho da Beija-Flor como sempre, brilha no samba nilopolitano que fecha a primeira noite de desfiles. Veja o recado:

Cada corpo um orixá! Cada pele um atabaque / Arte negra em contra-ataque

Beija- Flor e o trabalho de excelência da comissão de frente.

Sábado, 23 de abril

Dia de São Jorge e, portanto, de Ogum. Dia de incorporar conhecimentos, cantar em línguas ancestrais, dar passagem às entidades de rua. Se a primeira noite foi de reverência, essa é de referência. São nelas, as referências, que o povo do samba se apegou para navegar na rebarba do tsunami pandêmico que passou por aqui nos últimos dois anos.

O carnavalesco Paulo Barros se volta para a comunidade do Paraíso do Tuiuti em “Ka ríba tí ÿe - Que nossos caminhos se abram”. O samba usa uma palavra recorrente em outros concorrentes: RESISTÊNCIA. É uma das escolas que homenageia Mercedes Batista, a bailarina negra, por seu centenário, assim como a Beija-flor, a Grande Rio, o Salgueiro...

“Tem sangue nobre de Mandela e de Zumbi / Nas veias do povo preto do meu Tuiuti”

Renato Lage e Márcia Lagena Portela, também retornam às origens com “Igi Osè Baobá”, falando do Baobá, árvore que tem um significado especial na cosmologia africana. É a árvore da resistência, palavra, mais uma vez, citada na letra do baobá musical, o samba.

Quem tenta acorrentar um sentimento / “Esquece” que ser livre é fundamento / Matiz suburbano, herança de preto / Coragem no medo!

A Mocidade Independente de Padre Miguel, criou até gíria. O carnavalesco Fábio Ricardo vem “areretizando”. Desenvolve o enredo “Batuque ao Caçador” fazendo a conexão entre o toque para o santo da escola, Oxóssi, e os herdeiros do lendário Mestre André. O da famosa paradinha da bateria “Não Existe Mais Quente”. Entre os autores da composição está Carlinhos Brown.

“Arerê, Arerê, Komorodé / Todo Ogã da Mocidade é cria de Mestre André”

Waranã e a tribo Mawe, tema do enredo da Unidos da Tijuca

Foi mais ano de um período crítico para as etnias e reservas indígenas brasileiras. Ameaçadas por garimpeiros e invasores amparados pelo descaso das autoridades responsáveis e a desconstrução da rede de proteção legislativa que garante seus direitos, inclusive os constitucionais. Coube ao carnavalesco Jack Vasconcelos, na Unidos da Tijuca, abordar a temática dos primeiros habitantes locais contando a história do guaraná em “Waranã – A Reexistência Vermelha”.

“E se a cobiça e o fogo chegarem na aldeia / Deixa a força Mawé ressurgir”

O povo de rua vai passar pela pista da Marquês de Sapucaí em “Fala Majeté! Sete Chaves de Exú”, enredo de Leonardo Bora e Gabriel Haddad. A representante de Duque de Caxias deu uma guinada na temática de seus carnavais e ficou com o vice-campeonato em 2020 falando de Joãozinho da Goméia. Esse ano, mergulha mais fundo no universo das religiões afro-brasileiras em busca do título inédito.

“Boa noite, moça, boa noite, moço... / Aqui na terra é o nosso templo de fé”

Alegorias de mão e muita alegria no ensaio das alas

A noite se encerra com uma celebração. O homenageado da Vila Isabel é da casa e de casa. O carnavalesco Edson Pereira faz azul e branco abraçar Martinho da Vila. É festa do povo do samba no enredo “Canta, canta, minha gente! A Vila é de Martinho”.

“Em cada verso, mais uma obra-prima / Ousar, mudar e fazer sem rima”

BOX

Desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro

Transmissão pela TV Globo, depois do horário nobre e o G1 a partir das 22h.

Sexta-feira 22/04

Imperatriz Leopoldinense

Mangueira

Salgueiro

São Clemente

Viradouro

Beija-Flor

Sábado 23/04 

Paraíso do Tuiuti

Portela

Mocidade Independente

Unidos da Tijuca

Grande Rio

Vila Isabel

Torcidas reunidas para saudar as escolas

@delcueto.studio na Colab55

sexta-feira, 1 de março de 2019

Quem samba sabe, não está fácil pra ninguém...




Texto e fotos de Valéria del Cueto

Ano complicado para o povo do samba, alma e coração de uma das expressões culturais mais famosas do planeta, o carnaval.Como se não bastassem os problemas estruturais, preterido e, claramente, desprezado pelo poder público. Especialmente o municipal. O prefeito Marcelo Crivella insiste em ignorar o viés turístico da festa que já rola na cidade o ano inteiro, rende lucros e dividendos essenciais à cadeia produtiva da cidade e consequentemente, ao seu próprio governo.

Acuados em suas comunidades, reféns da espalhafatosa e frustrada intervenção militar do Rio de Janeiro, usados como moeda de campanha política, apontados de forma desrespeitosa e depreciativa.

Como se não estivesse “pegando” geral. Com direto a “pit stop” no sistema penitenciário da fina flor da sociedade fluminense. Foi duro o golpe da passagem por lá do deputado Chiquinho da Mangueira, presidente da verde e rosa.

Sem o reconhecimento de seu papel de mola propulsora da economia, com a redução drástica dos aportes e patrocínios, graças a crise econômica, coroado pelo atraso nos repasses que comprometem os cronogramas dos projetos carnavalescos, o que fazer?

Acredite, o que o povo do samba faz de melhor. Na contramão do gigantismo de anos anteriores a solução é apostar as fichas na expertise do segmento sócio cultural. Samba no pé, muito ensaio de canto e criatividade.


A conquista de última hora foi a volta dos ensaios técnicos. Encavalados nos finais de semana que antecedem o carnaval, já em fevereiro, perderam sua função primordial: serem técnicos. Não há tempo hábil para afinar as falhas detectadas. Mas tomaram a pista.

Com menos “peso” pela pouca grana e focando na 3ª Lei de Newton, a que diz que “toda ação provoca uma reação...” a aposta é num espetáculo cheio de mensagens e muito samba! No pé, mais descoberto, e na garganta para soltar seu grito, que jamais será reprimido.

Com o povo do samba é assim. Mexeu com um mexeu com todos! 

Domingo, a primeira parte da maratona


"O que é, o que é?", indaga o Império Serrano, abrindo o desfile oficial do carnaval com o clássico de Gonzaguinha em andamento de samba enredo.  A proposta inédita do carnavalesco Paulo Menezes deixou fora da festa as criações dos compositores da Serrinha, ala mestres como Silas de Oliveira e Mano Décio.

“ViraViradouro!”, incentiva o enredo de Paulo Barros para a representante de Niterói, que retorna a elite do carnaval carioca, com histórias sem fim e disposta a “firmar” para permanecer no Grupo Especial.

Na Grande Rio, uma das beneficiadas com a virada de mesa do último campeonato (quando nenhuma agremiação desceu), Renato e Márcia Lage fazem o desafio: “Quem nunca… Que atire a primeira pedra!”.  



O Salgueiro vem de um ano conturbado, em que ações judiciais quebraram o ritmo do desenvolvimento do projeto de Alex de Souza, “Xangô”. Com seu belo samba   reverencia o poder do orixá da justiça, dos raios do trovão e do fogo. A terra vai tremer.

A Beija-Flor comemora 70 anos passeando por sua história. A comunidade nilopolitana vem “puxada” pela porta-bandeira Selminha Sorrizo que faz 30 anos de avenida com o mestre-sala Claudinho. "Quem não viu vai ver… As fábulas do Beija-Flor", promete a comissão de carnavalescos. Com o desafio de fazer uma virada estética depois do campeonato de 2018.



“Me dá um dinheiro aí?” Os carnavalescos Mário e Kaká Monteiro vão direto ao “x” da questão. Contarão a história do “dindin” na Imperatriz Leopoldinense. Você não está querendo?

Quem fecha a noite, com um samba oração que promete embalar a Sapucaí, é a Unidos da Tijuca. O estreante na equipe é lendário Laíla, durante anos da Beija-Flor. “Cada macaco no seu galho. Ó, meu Pai, me dê o pão que eu não morro de fome” E assim será...

Segunda na pista


Não é de hoje que a São Clemente adverte os sambistas sobre os perigos do gigantismo da festa. A reedição do enredo de 1990 “E o Samba sambou...” caiu como uma luva para o momento atual. E com ela é aberta a segunda etapa dos desfiles da Sapucaí.

“Em Nome do Pai, dos Filhos e dos Santos – A Vila canta a cidade de Pedro”. Petrópolis, cidade serrana fluminense, uma joia imperial, é enaltecida pela Vila Isabel. A comissão de frente é do coreógrafo Patrick Carvalho, que abalou em 2018, na Tuiuti.

Não faltarão emoções e lembranças no desfile da Portela. “Na Madureira moderníssima, hei sempre de ouvir cantar uma Sabiá”, da multicampeã Rosa Magalhães. À Tabajara do Samba, bateria comandada por mestre Nilo Sérgio, caberá cadenciar a homenagem à querida cantora assumidamente portelense, Clara Nunes.

O Nordeste e Queiroz entram em cena na União da Ilha do Governador. Não aquele. Com “A peleja poética entre Rachel e Alencar no avarandado do céu”. O carnavalesco gaúcho Severo Luzardo fala de literatura e do Ceará dos escritores Raquel de Queiroz e José de Alencar.

Depois, vem Pernambuco. “O Salvador da Pátria" narra a saga de um bode eleito vereador em Olinda. Mais uma vez, a interação popular do Paraíso do Tuiuti, a surpreendente vice-campeã de 2018, promete.


É nessa levada histórica e política que desce o morro a comunidade da Mangueira. Leandro Vieira, seu carnavalesco, botará na pista heróis do povo que não são mencionados nos livros oficiais. Na “História pra ninar gente grande” verde e rosa Marielles, Marias, Mahins e Malês, entre outros personagens, serão invocados. O samba está na boca do povo.

Fechando a noite de segunda-feira, Alexandre Louzada, na Mocidade Independente de Padre Miguel, des(a)fia um dos últimos mistérios do universo: “Eu sou o Tempo. Tempo é Vida”. E não é que é?  Mas há tempo. Sábado que vem tem mais...



*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É Carnaval”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com

Ordem dos desfiles:

Domingo: Império Serrano, Viradouro, Grande Rio, Salgueiro, Beija Flor, Imperatriz, Unidos da Tijuca

Segunda: São Clemente, Vila Isabel, Portela, União da Ilha, Paraíso do Tuiuti, Mangueira, Mocidade




Studio na Colab55

domingo, 11 de fevereiro de 2018

No axé, um canto de amor. Reage, Rio!



Carnaval, resistência cultural

No axé, um canto de amor. Reage, Rio!

Texto e foto de Valéria del Cueto

Se o ano passado era crise, esse ano é perplexidade e arrependimento. O mundo do samba, declaradamente, ajudou a eleger seu principal algoz, o prefeito Marcelo Crivella.

Tem um quesito que as escolas são doutoras - e a cada ano aprimoram mais. A gestão do processo de produção carnavalesca envolve recursos e rubricas específicas de desembolso do início do segundo semestre em diante.

O corte na subvenção da prefeitura, sem aviso prévio e em cima da hora do repasse da primeira parcela da verba das escolas de samba (que só chegou no final do ano), foi apenas o prenúncio do desastre anunciado. A largada, dada com a fase inicial de produção nos barracões comprometida. Imaginem os efeitos nos grupos de Acesso. Eles só viram a cor do dindim oficial no dia 15 de janeiro, a menos de um mês do carnaval. Não adianta anunciar, no dia 11 de janeiro, R$ 38,5 milhões de patrocínios. Não há dinheiro que compre o tempo perdido de produção na gigantesca máquina da indústria do carnaval carioca de 2018.

O atraso piorou com a interdição da Cidade do Samba pelo Ministério do Trabalho, por mais de 30 dias, no último trimestre de 2017. Nesse período as escolas deveriam estar a pleno vapor produzindo fantasias, alegorias e carros. Para finalizar, nada de ensaios técnicos na Sapucaí. No lugar, a volta dos que não foram: foi anunciada com pompa e circunstância pela Riotur a Arena do Carnaval, na Barra da Tijuca. O “blocódromo” da Barra da Tijuca foi adiado 15 dias antes da folia e transferido para julho, acredite. Faltou gestão. Perdeu, Rio...

Mas o samba faz, essa dor dentro do peito ir embora”, então, vamos brincar mesmo com uma “atravessada” dessas...

Domingo de maratona: 7 agremiações

O poeta mato-grossense Manoel de Barros e suas miudezas embalaram o campeonato da Série A do Grupo de Acesso de 2017. É missão da comunidade da Serrinha abrir o desfile do Grupo Especial apresentando “O Império do Samba na Rota da China”, do carnavalesco Fábio Ricardo. “Deixa o povo cantar, matar a saudade do Império Serrano”.


Com “Academicamente Popular”, enredo de Jorge Silveira, a São Clemente avisa: “Hoje quem chorava vai sorrir!” e viaja pelos 200 anos da arte acadêmica na Escola de Belas Artes, fonte de tantos talentos do carnaval carioca.

O povo do samba é vanguarda popular”, ensina a Vila Isabel. “Corra que o futuro vem aí!” é o tema de Paulo Barros. O carnavalesco garantiu na apuração o campeonato de 2017 à Portela. Ele começa do fogo pré-histórico para imaginar onde chegaremos.

Não sou escravo de nenhum senhor...” avisam os compositores do belíssimo samba encomendado da Paraíso de Tuiuti. Jack Vasconcelos, seu carnavalesco, pergunta: “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão? A escola tenta superar a tragédia com seu carro alegórico ano passado.
Com “Vai para o trono ou não vai?” a Grande Rio homenageia Chacrinha. “Eu não vim para explicar, eu vou te confundir” é a dica do que esperar da estreia de do Mago Renato e Márcia Lage na escola de Caxias.

Leandro Vieira lançou o desafio: “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco”! E a Mangueira, sendo “mestre-sala na arte de improvisar”, responde batucando que “se faltar fantasia alegria há de sobrar, bate na lata pro povo sambar”.


A manhã vai chegar com a Mocidade Independente de Padre Miguel, protagonista de um episódio conturbado na Liga das Escolas de Samba, a Liesa. O que acabou, depois da abertura das justificativas dos jurados de 2017, lhe dando, também, o título de campeã, dividido com a Portela. E aí, “Padre Miguel chamou Shiva pro carnaval” no enredo de Alexandre Louzada “Namastê... A Estrela que habita em mim saúda a que existe em você”. “Pela tolerância entre os desiguais”, Altay Veloso e Paulo César Feital lideram o grupo de compositores que evocam “Nehru, Dom Hélder, Chico Xavier” em busca do “triunfo do bem e da fé”.




Maioria das campeãs desfila na segunda

Um coração urbano: Miguel, o Arcanjo das Artes, saúda e povo e pede passagem”, da Unidos da Tijuca, abre a segunda noite na Sapucaí. Num refrão, a intenção de dar a volta por cima e novamente protagonizar um carnaval: “As lágrimas de outrora já não rolam mais, se rolarem é de emoção”, referência ao segundo acidente com carro alegórico no desfile de 2017.

Vixi Maria lá no meio do caminho tem pirata no navio” para atrapalhar a viagem dos judeus de Pernambuco para Nova Iorque. Derrepentemente, “De repente de lá pra cá e dirrepente de cá pra lá...” a campeoníssima Rosa Magalhães vai atrás do título, dividido com a Mocidade no último carnaval. Madureira avisa, em alto e bom som, que “Lá vem Portela, é melhor se segurar, coração aberto quem quiser pode chegar”.


A União da Ilha canta o “Brasil bom de boca”, enredo de Severo Luzardo que “põe lenha no fogão, o aroma está no ar” para levar para a avenida “uma receita impossível de esquecer. Duas pitadas de amor, eu e você juntando a fome com a vontade de vencer”.

A mesma vontade que dá ao Salgueiro “calor que afaga, poder que assola”, para beber na fonte dos enredos africanos. Com “Senhoras do Ventre do Mundo” Alex de Souza busca na “herança que vem de lá, na ginga que faz esse povo sambar”, as raízes do melhor carnaval salgueirense.

Cahê Rodrigues “gira a coroa da Majestade Imperial”, no enredo “Uma noite real no Museu Nacional”. Da Imperatriz Leopoldinense para a Imperatriz Leopoldina, uma homenagem aos 200 anos de sua chegada ao Brasil e da criação dessa importante Instituição Cultural que ajuda a sacramentar: “samba de verdade, identidade Nacional

O dia raiará sob o arco da Apoteose com a Beija-flor e sua comissão de carnaval botando o dedo na ferida: “Você que não soube ensinar, você que negou o amor, vem aprender com a Beija-flor!”. Seu enredo é “Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu”. E tenho dito!

*O samba fala por si. Os textos em itálico foram pinçados das letras das composições das respectivas escolas.

**Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “É carnaval”, do SEM   FIM... delcueto.wordpress.com

Ordem dos desfiles:
Dom: Império Serrano, São Clemente, Vila, Paraíso do Tuiuti, Grande Rio, Mangueira e Mocidade
Seg: Tijuca, Portela, União da Ilha, Salgueiro, Imperatriz, Beija-Flor


Edição Enock Cavalcanti
Diagramação Luiz Márcio – Gênio

Studio na Colab55

segunda-feira, 2 de março de 2015

Mangueira 2015 - a bateria no desfile, por Valéria del Cueto

Mangueira 15021 725 bateria rainha Evelyn
Desde o início da preparação do Carnaval 2015 acompanho os trabalhos da #primeirala, a bateria da Mangueira, liderada pelos Mestres Vitor Art e Rodrigo Explosão. Os #meninosdamangueira compõem sua diretoria.
Domingo, 21 de fevereiro, comecei meu registro da bateria duas horas antes de sua apresentação. A chuva caía desde antes da passagem da Viradouro,responsável pela abertura da primeira noite de desfiles das Escolas de Samba do Grupo Especial, no Sambódromo Darci Ribeiro, na Marques de Sapucaí, centro do Rio de Janeiro.
O espaço embaixo do viaduto que corta a Av. Presidente Vargas, antes do Balança-mas-não-cai, transformou-se no ponto de concentração pela proteção contra o dilúvio. Ali ficaram: numa pista a Comissão de Frente, incluindo seu tripé, baluartes e a cabeça da escola e, na outra,as porta-bandeiras, destaques, musas da Mangueira e da Viradouro, o caminhão da bateria com os instrumentos e os ritmistas. Mergulhei nesse universo.
Os ritmistas da Primeira Ala vestiram suas indumentárias enquanto eram colocados, na chuva, os instrumentos em suas posições, de acordo com o mapa. O trabalho era supervisionado pelo Mestre Vitor Art. Acompanhei a tensão da montagem da bateria, a preocupação com a proteção das cuícas contra a água com plásticos e toucas de banho. As plumas cor-de-rosa dos chapéus dos instrumentistas serviram de medida para verificar a intensidade das chuvas. Começaram fofas e altaneiras, em minutos estavam ensopadas e encolhidas. Depois, a tinta usada para o tingimento começou a escorrer...
Foi assim que a bateria entrou no setor 1 e saudou as arquibancadas lotadas. Se eles, os torcedores, estavam ali, sem arredar pé, para saudar a verde e rosa, cabia a rapaziada retribuir tanta dedicação e paixão. "Eu sou Mangueira, eu sou Mangueira sim, eu sou Mangueira e esse amor nunca tem fim".
Mangueira 15021 730 bateria Mestre Vitor
Fotografar, tentar não atrapalhar os ritmistas, proteger o equipamento e deixar que toda aquela energia dominasse os registros até a entrada no primeiro recuo foi uma epopeia. Daqueles momentos que você sabe que pode ser único...
Saí dali, passando por Evelyn Bastos, a rainha de bateria, para fazer a abertura da escola: Comissão de Frente, a apresentação do mestre sala e da porta bandeira, as baianas e o Abre-alas nos dois primeiros módulos de julgamento. Corri para a torre da TV, no final da pista para as fotos da escola inteira na Avenida.
O próximo registro da bateria começou a ser feito depois da entrada no segundo recuo. Da torre em diante, entrei novamente entre os ritmistas e acompanhei a emoção de todos.
Se, na entrada da Sapucaí as expressões eram tensas, da torre em diante os semblantes estavam mais relaxados. O calor da energia da bateria que embaçava as lentes da câmera, havia tirado o peso extra da água. A moçada tirava  onda, sob os aplausos entusiasmados do público nas arquibancadas.
Os meninos da Mangueira estavam batizados. Pelo fogo da enorme responsabilidade de conduzirem da bateria verde e rosa e pela água divina, que fez de sua passagem pela Sapucaí, um novo e emocionante capítulo da história mangueirense.
Tem que respeitar...
Mangueira 15021 760 bateria dispersão ritmista* A Bateria da Mangueira teve duas notas 9,8 e duas 9,9 dos jurados da Liesa.
* Recebeu do músico ED Motta, por uma rede social, a seguinte avaliação: “Bateria da Mangueira ontem, um primor. A divisão dos tamborins complexa, milhares de desenhos rítmicos. Adorei os 6/8 afros que apareciam de vez em quando. Assisti quase tudo, musicalmente foi a melhor, disparada. Respect”
*agradeço a Bateria da Mangueira, seus mestres, diretoria, todos os ritmistas e a Nova Guarda Consultoria a confiança e o privilégio de poder fazer esse registro. Muito obrigado!
 
- Clique AQUI para acessar o registro completo do desfile da Mangueira, por Valéria del Cueto, no FLICKR

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Quem não pode com mandinga não carrega patuá


Texto e foto de Valéria del Cueto
Se não sabe brincar, não desce pro play. Captou?

A Mangueira é  expert em amor, raça, paixão e superação. Desfile de carnaval, tradição e samba. Cuiabá precisa de divulgação no exterior para atrair turistas na Copa do Mundo disputando espaço com as outras sedes brasileiras de 2014.

Não existe vitrine com um custo benefício mais vantajoso do que a focalizada, nos 700 metros de pista do Sambódromo Darci Ribeiro, pelas centenas de câmeras espalhadas pelo caminho que o trem verde e rosa cruzará na noite de segunda feira. Elas massificam durante os 80 minutos de desfile imagens, conceitos, tendências, um lugar. No caso, Cuiabá. R$3.600 milhões é um custo baixo investir numa campanha publicitária internacional. Imaginem estar no DVD com o compacto do desfile Grupo Especial das Escolas de Samba cariocas distribuído por todo o planeta. É entrar para a posteridade da maior festa popular do planeta.

Até por que, é com tristeza que informo: se pouquíssima gente, quase ninguém, sabe que existe um paraíso  chamado Pantanal - pergunta que faço em todos os lugares onde vou, em vários continentes-, o que dizer de Cuiabá, um de seus portais de entrada?

O viés do enredo definido, segundo o contrato em conjunto entre as partes, foi meramente turístico.  E, peneirado demais, virou um clichezão. Mas a grita funcionou e a sinopse foi substituída. Agora é texto de Cid Carvalho, o carnavalesco.

Discordou do enredo, não gostou do samba? Paciência. Deixa a Mangueira passar. Quanto mais marola, mais feio fica. Pra cidade, é claro. Por que para a Mangueira é apenas mais um entre dezenas de carnavais que ela já apresentou. Queria ver alguém ir lá e fazer melhor.

E, justiça seja feita, durante todo o tempo entre o namoro, o noivado e a troca de alianças, daria para ter tomado providências, como aconteceu no caso da sinopse.

Detonar a Mangueira na véspera do carnaval é, no mínimo, irresponsável, desrespeitoso e, me perdoem, uma grande estupidez. É burrice dar tiro no próprio pé. Desvalorizar seu próprio produto! Enfim, bancar o “bobó tcheira tcheira”, abusando do cuiabanês.

Agora passam recibo do mau uso do dinheiro público. Reclamam, e o estopim não foi a ausência dos cursos de capacitação para sambistas, ou a quantidade dos eventos - tratava-se de uma carta de intenções, lembrem-se. Mas, sim, da falta de 100 vagas prometidas na Sapucaí. O que configura que nosso dindin seria para bancar as mordomias de poucos! Assim, na lata. E, enquanto metem o malho, os membros da comissão, responsáveis pela perna cuiabana do projeto, ficam caladinhos. Aqueles que mostraram sua ginga ao lado dos componentes da verde e rosa no lançamento do projeto no Cine Theatro Cuiabá. Os que presenciei, nas minhas andanças fotográficas na agremiação, acenando empolgados e cheios de moral para a plateia do camarote cuiabano, nos ensaios no Palácio do Samba. Ninguém me contou, eu vi!

Por isso, peço encarecidamente. Deixem a Mangueira passar. Torçam por ela e, se puderem, cantem com ela. Por que outra oportunidade como essa para, diante do mundo, bater no peito cheio de orgulho por ser cuiabano, não vai aparecer tão cedo. Que o Senhor Bom Jesus de Cuiabá, São Benedito e São Sebastião abençoem esta jornada.

domingo, 25 de novembro de 2012

Quem te viu, não pode mais ver...



Texto e foto de Valéria del Cueto

Existem coisas que os olhos não devem mirar, aquelas que pra entender... Sei lá, não sei não, por que não cabe explicação.

Foi assim na homenagem à Delegado, lendário Mestre Sala e Presidente de Honra da Estação Primeira de Mangueira, no sábado seguinte da sua partida. Tudo era igual, mas muito diferente.

Na abertura da noite, a imensa bandeira mangueirense que cobre o fundo da quadra, se abriu ao som da Surdo Um, a bateria comandada por Mestre Aílton. Como sempre... A roda se armou, os segmentos se posicionaram e abriram espaço para que as baianas pudessem iniciar os trabalhos.

Todos sentiam a falta de Delegado, sempre sério e compenetrado com seu bastão, apito, chapéu e a faixa de Presidente de Honra da escola para a qual trouxe, durante tantos carnavais, as notas máximas no seu quesito. Estava nos olhos de cada um, assim como nas vozes que, em uníssono, louvavam o amor maior do Mestre Sala. Era um canto forte, um canto alto. Para ser ouvido por todo lado. Inclusive lá onde, agora, Delegado se encontra cercado de bambas que fizeram a história da festa que virou o maior espetáculo popular da terra.

Era do lado direito da quadra, numa mesa de pista que ele costumava acompanhar os ensaios, antes e depois de comandar a roda. Ali, agora, só Suluca, sua irmã, cercada de crianças e adolescentes da família, até ser convocada para receber as reverências, depois de Ézio, um dos filhos de Delegado, cantar um samba (é claro!) inspirado em Hegio, que virou Delegado por “prender” as mulheres. Era hora de homenagear! 

Do lado oposto, embaixo do palco, a Porta Bandeira Marcella Alves recebeu o pavilhão da Mangueira e saudou seu par, Raphael Rodrigues. O casal atravessou bailando o espaço aberto no meio da roda. O público vibrava, cantando e dançando sambas que fizeram de Delegado a lenda por todos cultuada.

Estranho não encontra-lo, mãos estendidas para o alto, o bastão apontando o céu, antes de cruzar os braços sobre o peito e baixar a cabeça para saudar, com um beijo, o pavilhão que sempre apresentou e protegeu.

O teto retrátil da quadra estava aberto. O detalhe foi notado apenas por que, quando o casal se aproximou para saudar o grupo, uma garoinha começou a cair, quase imperceptível. E rapidamente aumentou... Ivo Meirelles, presidente da escola gesticulava, pedindo para que o fechassem. Mas não era isso que os deuses do samba e seus representantes celestiais queriam. O sistema não funcionava. E a água, que lavava corpos e almas dos mangueirenses saudosos, só apertava!

O piso molhado era riscado pelos pés ágeis, num bailado possuído pelas forças da Mangueira que se juntavam no céu e na terra. Cada gesto, cada voleio de Marcella e Raphael passou, literalmente, a ter um peso diferenciado. O pavilhão encharcado ganhava uma nova força. Nele, se concentrava o encontro dos bambas do passado com os sambistas do presente da verde e rosa. E ele voava nas mãos da Porta Bandeira, seus súditos aspergidos e abençoados com chuva que, agora, despencava do céu, sem dó nem piedade...

Muitos viram. Não sei quantos sentiram o momento em que, ao som cada vez mais forte e apaixonado do cantar do Morro da Mangueira, fomos todos elevados à categoria de uma nação. Um povo que, diante da perda de um baluarte, se une, supera e celebra seu mundo, o do samba, através da música, da dança e do amor por sua história, ali reverenciada.

As lágrimas corriam, misturadas ao suor, e se diluíam com a chuva redentora, mensageira e pacificadora. A dor da ausência aliviada pela mensagem celestial.

De alma lavada, o peso da perda ficou mais leve diante da beleza dos reflexos da água da chuva nos corpos e  gestos do casal de Mestre Sala e Porta Bandeira que, ali, representava e cultuava a arte maior de Delegado, o Mestre Sala nota dez da Mangueira.

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “É carnaval” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com 

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

! Concurso de Samba de Quadra


Informações completas no link http://comunidaderio.multiply.com/market/item/51/
A primeira semifinal acontece no dia 11 de novembro, no Centro Cultural com a apresentação do puxador de samba, Preto Jóia ex-Imperatriz Leopoldinense.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Beija Flor é bi - campeã - Diário de Cuiabá


Beija Flor é bi-campeã

DC acompanhou a festa carioca e relata abaixo a emoção de participar de um evento que foi assistido por 400 milhões de pessoas no mundo


Valéria del Cueto*
Especial para o Diário de Cuiabá

A melhor coisa quando chega terça feira gorda é saber que nos resta o sábado das campeãs... A maratona ainda não terminou, graças a Deus.

Fui só Sapucaí neste abençoado carnaval de 2008 e, digo pra vocês, mereci. Com todos os percalços. Como a chuva que, no domingo de carnaval, fez os reis da comunicação se curvarem a seus desígnios. Se os seres mortais assim o fizeram, diante da força da natureza, o mesmo não podemos dizer deles, dos que irmanados pela cumplicidade da fantasia carnavalesca passaram pela linha demarcatória do início de desfiles da Sapucaí e, ali, perderam-se no espaço que separa a armação da dispersão representando papéis criados pela imaginação ilimitada dos carnavalescos e seus enredos.

O que vi foi lindo. E sei, não representa nada diante do que realmente aconteceu na pista no decorrer de todo seu percurso. Digo isso por que não me sinto capaz de julgar. Dizer quem foi melhor, onde estavam os defeitos. Vi o que meus olhos me mostraram, senti o que me pegou pela frente. Tive sorte. A sorte poder de andar, circular. Sentir a emoção dos que esperam impacientes a hora de pisar na avenida. E tudo isso ainda no desfile das escolas do grupo de acesso.

Comecei o Grupo Especial, organizado pela Liga das Escolas de Samba, vendo a dispersão da saga japonesa da Porto da Pedra. Confesso, perdi a São Clemente. Cheguei tarde...

Assisti ao desfile do triunvirato: Salgueiro, Portela e Mangueira encostada na parede do corredor do setor 2. Consegui uma vaga estratégia, quase em frente ao segundo recuo de bateria estrategicamente estacionada em baixo do praticável, colocado três andares acima onde se posicionava uma câmera da transmissão do desfile. Ali não chovia, em compensação em volta...

O Salgueiro passou, e, lá de longe, apareceu a águia da Portela. E parece que a água em volta se integrou as cores usadas para representá-la no enredo que falava de meio ambiente. Antes, bem antes da passagem da rainha da bateria, Luisa Brunet, as arquibancadas já estavam sob o domínio hipnótico do que rolava na Sapucaí. Bastou a águia do abre alas ‘gritar’; para arrancar os merecidos aplausos para a comissão de frente que fluía em tons da água. E água tem tom?

Tom afinadíssimo era o da bateria de mestre Nilo que me fez correr, quando começou a sair do recuo, para ver sua chegada na apoteose. Que espetáculo! Ali, a Sapucaí se amplia e tudo que se vê na avenida reflete-se nas ondas humanas que recebem os foliões. A bateria, se curvando diante da multidão, agradecendo as palmas e os gritos de é campeã. Essa, eu vi.

Acho que outras consagrações aconteceram. Mas, então, eu já estava novamente observando tudo do setor 2. Veio a Mangueira e o centenário do frevo, mas o ‘sacode’ verde e rosa não aconteceu. O final da noite era da Viradouro, Paulo Barros, Mestre Ciça e sua rainha, Juliana Paes.

A pista de esqui perdeu a graça diante da expectativa em torno do carro sobre o nazismo proibido. ‘Liberdade ainda que tardia’, com componentes amordaçados e um Tiradentes entristecido foi um dos muitos arrepios provocados pelo carnavalesco. Chucky misturava-se com aranhas e baratas gigantes que subiam rastejantes pela alegoria. Para compensar, bolas de futebol eram atiradas para o público. E dá-lhe pingüins... Coitadas das baianas, vestidas de iglus. A pista cheia de água sujou a barra de suas saias que ficaram pesadas e encharcadas. Assim acabou a primeira noite da Sapucaí. Arrepios generalizados, inclusive nos nós que aconteceram no trânsito no final da festa.

Na segunda, havia jurado chegar cedo. E não me arrependi. A Mocidade Independente de Padre Miguel apresentou uma visão deliciosa e alto astral da vinda da corte portuguesa, tive uma aula de história do Rio de Janeiro dada pelo encarregado da pista, Honório, há mais de dez anos trabalhando no controle do vai-e-vem pelo corredor de imprensa. Foi ele quem me contou que o carro com o destaque Maurício de Paula, em meio a jatos de água, representava o chafariz feito por Valentim e que hoje está na Praça da Bandeira. A noite apenas começava...

Na seqüência, a Unidos da Tijuca, falando em coleções e brigando para anexar um título inédito as suas glórias carnavalescas e a Imperatriz Leopoldinense com a coleção de Marias do João que fizeram a história do Brasil. Depois do enredo bolivariano do ano passado, a Vila trouxe para a avenida os trabalhadores do Brasil, apoiado pela CUT. Mas o apoio mais eficaz foi o da Miss Brasil Natália Guimarães, estreando nas passarelas. As celebridades da Grande Rio deram um gás, sob a batuta de mestre Odilon, na rivalidade entre Susana Vieira e Grazieli Massafera.

Quem venceu a disputa foi o maravilhoso gari, Renato Sorriso, uma encarnação inspirada do espírito carioca. Cheio de alegria com sorriso largo, braços abertos e ginga gostosa e malevolente para colher os aplausos do público nas cadeiras, frisas e arquibancadas, ele representa o esforço de quase 3.500 funcionários da Liesa e da Riotur. Os Miltons, Bentos, Honórios e Ulisses que se desdobram para ajudar quem, como eu, sou uma só, querendo captar e transmitir milhares de visões, uma gama imensa de sentimentos, dramas, lutas e vitórias. Como a da Campeã de 2007, a Beija Flor de Nilópolis, que encerrou a festa, calando a boca de quem dizia que não havia nada possível de se fazer com um enredo sobre Macapá e o equinócio solar.

Quando você ler esta reportagem, já saberá quem é a vencedora do Carnaval carioca de 2008 e que agremiações estarão na Sapucaí no desfile das campeãs. Por isso, não vou arriscar um palpite. Mas alerto; são tantos olhares, tantas emoções e acontecimentos nas duas noites de desfile, que, certamente, muitas serão as preferidas, dependendo do ponto de vista e dos parâmetros com que se analisem as concorrentes. Não faço previsões, só posso tentar decifrar onde o coração de cada um bateu mais forte.

DESFILE DAS CAMPEÃS


No próximo sábado as seis escolas melhor classificadas voltam à Sapucaí. Confira abaixo, as escolas que receberam as melhores pontuações da comissão julgadora.

1° Beija Flor
2° Salgueiro
3° Grande Rio
4° Portela
5° Unidos da Tijuca
6° Imperatriz Leopoldinense

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e colabora com o DC